quinta-feira, 19 de março de 2026

A GUERRA DE NETANYAHU

 


(É cada vez mais evidente que a leviandade da administração Trump e a irredutível instabilidade decisional dele próprio abriram uma passadeira vermelha à captura da decisão de atacar o Irão por parte do governo de Netanyahu. Significa isto, por mais paradoxal que o possa parecer, que a sucessão de afirmações por todo o mundo de que “esta não é a nossa guerra” pode, em última instância, estender-se ao próprio Trump. Mas o paradoxo é absoluto, pois que embora para quase todo o mundo esta guerra não seja a sua, a verdade é que pelos efeitos que provoca de desestruturação da economia mundial, todos iremos ser afetados e não serão leves e passageiros esses efeitos. Apesar de toda a narrativa da transição energética, a verdade é que ela é ainda incipiente e, na sequência do que já fora visível com os efeitos da guerra da Ucrânia, estamos de novo a braços com mais uma edição da crise energética (petróleo e gás natural). O lobby pesado dos fósseis exulta e o petróleo americano continua a ser beneficiado. A captura de Trump por Netanyahu mostra como foi inconsequente a procura de um equilíbrio político entre o direito de Israel à defesa e à segurança e a denúncia do aventureirismo expansionista e perigoso de Netanyahu e do seu governo, já aliás clarificado com a invasão de Gaza e a continuidade da ocupação repressiva na Cijordânia. Obviamente que o holocausto judeu perpetrado pelos nazis na Segunda Guerra Mundial é coisa que não pode nem deve esquecer-se, mas isso não deveria ter retirado lucidez ao mundo para condenar o expansionismo que o governo de extrema-direita, com o alto patrocínio do lobby judeu nos EUA, está a perpetrar ameaçando a já precária estabilidade no Médio Oriente.)

E estamos chegados à estranha situação de que Israel continuará a sua investida até à inativação do regime teocrático iraniano e à destruição do Líbano e Trump procura uma saída que pode passar pela invenção de mais uma guerra, por aí algures, sem objetivos claros e muito menos fundamentos para a intervenção. À medida que se abrem fissuras na entourage mais próxima de Trump, com demissões e afirmações mais desassombradas, vai-se percebendo que, apesar da perfídia do regime iraniano, não existia à altura do ataque nenhuma evidência de ameaça real (a história parece repetir-se), o que mais uma vez demonstra que só Israel tinha objetivos claros para a intervenção conjunta. As palavras de Joe Kent, chefe da unidade de contraterrorismo da administração Trump, que se demitiu, dirigidas em carta a este último, são facas afiadas que esclarecem o que se passa verdadeiramente: “Não posso em boa consciência apoiar a guerra atual no Irão. O Irão não oferecia qualquer ameaça à nossa nação e é claro que começámos esta guerra devido a uma pressão de Israel e do seu poderoso lobby americano”. Por outro lado, a esmagadora maioria dos analistas, cientistas e politólogos, vai no sentido de considerar que uma intervenção feita a partir do ar, por mais devastadora que seja, não tem por si só a possibilidade de retirar do poder o regime teocrático, aparentemente até reforçado pela agressão externa quando negociava.

Aliás, se formos bem fundo na análise do que se passa internamente na sociedade americana, deparamos com conclusões comprometedoras. O American Prospect diz-nos hoje que a administração americana enfrenta um longo shutdown no financiamento do Departamento de Segurança Interno, que já vai em cerca de 34 dias, situação provocada pela controvérsia suscitada pelo financiamento de agências como o ICE, que tão criticada foi pelo seu horroroso trabalho em Minneápolis visando uma verdadeira caça ao homem e famílias em matéria de imigração. Mais tarde ou mais cedo, o enorme esforço de guerra que os EUA estão a realizar chegará ao Congresso com um pedido adicional de financiamento, pelo que tudo tenderá a ser moeda de troca nas negociações que se abrirão e a segurança interna que se dane. Que a força do lobby judeu nos EUA era enorme já era conhecido, mas daí a imaginar que todo esse poder alinhava com o expansionismo de Netanyahu torna-se ainda mais perturbador.

Uma das conclusões que podemos associar a este imbróglio é que as hesitações da Europa em encontrar o registo diplomático certo em relação a Israel de Netanyahu vão se pagar muito caro. Ainda posso compreender que os alemães tenham um problema histórico de má consciência em relação a Israel. Mas em relação aos restantes países europeus, não compreender que o expansionismo de Netanyahu é a principal fonte de instabilidade e que tem de ser contrariado por todos os meios trará custos de longo prazo de enorme magnitude. Um gigante enraivecido e em modo de sobrevivência descontrolada como é hoje o Irão não é coisa que se consiga aguentar durante muito tempo. Por mais fragilizada que seja hoje a posição dos xiitas na região em conflito, esperar que a ancestral guerra entre sunitas e xiitas, alavancada pela devastação das bombas e pelas retaliações desesperadas do Irão cavará a queda do regime teocrático cheira a demasiada frivolidade e impreparação. Mas esse é o padrão dominante da administração Trump, fascinada pela força militar do colosso americano.

O mundo não está para velhos, nem para novos, acrescente-se.

 

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