(Tenho alertado frequentemente neste blogue para a cada vez mais sólida evidência que aponta para a generalizada queda da taxa de fertilidade total, número médio de filhos que uma mulher em idade ativa de procriação terá ao longo da sua vida, considerando que vão manter-se no futuro as taxas de fertilidade hoje observadas nos diferentes escalões etários. É sabido que os diferentes grupos de países têm chegado a este fenómeno não simultaneamente, mas antes em função das respetivas transições demográficas, que ocorrem a ritmos diferentes. Existem evidências de matizes muito diversos. Países que caminharam lentamente para essa descida da taxa de fertilidade e países que precipitaram abruptamente essa tendência, como se observou na grande generalidade dos países asiáticos incluindo a China, cujo Partido Comunista estará hoje profundamente arrependido pela proibição no passado de mais de um filho por família. É também conhecido o caso da própria região Norte de Portugal que precipitou rapidamente o seu inverno demográfico. Tenho insistido no facto de que, subjacente a essa diminuição, mais lenta ou acelerada da taxa de fertilidade, está uma complexa relação entre desenvolvimento económico e fertilidade que, aliás não para de nos surpreender. Insisti também no facto de que Portugal pode ser um dos casos em que a diminuição da taxa de fertilidade se prolongue mais no tempo, sobretudo por duas razões – a indeterminação global que paira sobre o desenvolvimento e condições de vida no país e o ainda em crescimento peso da mulher no mercado de trabalho. Trazendo nova evidência à complexa relação entre taxa de fertilidade e desenvolvimento económico, é hoje tempo para vos mencionar um elemento promissor na possível inversão do comportamento da taxa de fertilidade, aliás um dos únicos com presença relativamente sólida na evidência de investigação, a ponto de no título deste post falar de “esperanças”. O fator que tem contribuído para melhores números em matéria de fertilidade é surpreendente: o fenómeno do teletrabalho e do trabalho híbrido surge como um dos raros casos que tem contribuído para mitigar o peso dos outros fatores que tendam a rebaixar essa mesma taxa de fertilidade. Que o tema do trabalho à distância em regime híbrido ou total era complexo já o sabíamos, a ponto de muita gente considerar que se transformou em prática irreversível. Ora aqui está um elemento de evidência que adensa ainda mais essa complexidade.)
A evidência que traz esta esperança foi publicada há cerca de cinco dias no VOX EU, que é hoje um dos repositórios mais sólidos da nova investigação económica que se vai fazendo por esse mundo fora, anunciando em versões de síntese o que está plasmado em papers pelas revistas mais prestigiadas. O artigo é publicado com sete assinaturas, o que sugere uma investigação coletiva de grande amplitude.
Os resultados publicados são efetivamente surpreendentes. Para um conjunto de 38 economias entre as mais desenvolvidas no mundo, foi possível concluir que a taxa de fertilidade é mais elevada em famílias em que pelo menos um elemento trabalha a partir de casa pelo menos um dia por semana. A evidência mostra ainda que a taxa de fertilidade é, tudo o resto constante, ainda mais elevada quando pai e mãe trabalham à distância. Quer isto significar, que o trabalho híbrido veio colocar às famílias novas e melhores condições de vida, embora possa ter impacto negativo na vida interna das organizações que o praticam. Resta agora explicar como é que essa melhoria das condições de vida, não apenas materiais, mas também de qualidade de vida, impacta positivamente a taxa de fertilidade. De qualquer modo, a robustez de evidência encontrada traz à discussão do trabalho híbrido novos elementos, podendo dizer-se que essa discussão não pode ser mais limitada à oposição condições de vida do trabalho versus interesses da organização em que trabalha. Existe aqui um valor social importante: o da facilitação dos objetivos de inverter o comportamento da taxa de fertilidade, tanto mais que os resultados das chamadas políticas natalistas têm sido, senão nulos, pelo menos muito incipientes.
O que parece mais relevante é que a robustez da evidência encontrada (essencialmente para inquiridos entre os 20 e os 45 anos) está em linha com a teoria geral da fertilidade, designadamente a teoria económica da mesma, que se foi consolidando nos últimos anos. Essa teoria aponta para a centralidade da relação entre condições de vida familiar e evolução das carreiras profissionais na explicação da fertilidade, designadamente a das mulheres, aquelas que vêm mais sacrificadas a sua evolução profissional por uma ou mais maternidades.
A relação encontrada entre formas de trabalho híbrido e mais elevada taxa de fertilidade é controlada por variáveis como idade, educação, Casamento e existência de filhos antes de 2023 e variáveis país.
Tudo indica que as formas de trabalho híbrido acrescentam uma nova dimensão às tão conhecidas políticas de conciliação da vida profissional e familiar, melhorando acentuadamente as condições de compatibilização da vida profissional com o cuidar quotidiano dos filhos. É discutível que o trabalho híbrido possa, por si só, resolver o problema da queda generalizada da taxa de fertilidade. Mas o que parece indiscutível é que existe agora uma outra abordagem a considerar na questão do trabalho híbrido, da sua continuidade ou regressão. É que o trabalho parece ter também ter um valor social a considerar, podendo contribuir para um dos desafios mais prementes que se colocam às sociedades mais avançadas – a questão demográfica. A discussão não pode ficar limitada ao confronto entre os interesses dos trabalhadores e das organizações que os empregam. Vai além disso.

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