domingo, 29 de março de 2026

O REPOSICIONAMENTO DO PS

 


(A realização do congresso do PS neste fim de semana trouxe de novo ao debate público a questão do seu reposicionamento político. A questão não é nova, já se colocava antes da queda abrupta registada nas últimas eleições legislativas e regressa agora, à medida que José Luís Carneiro vai fazendo uma espécie de caminho das pedras para se afirmar como alternativa de governação. Obviamente que questões laterais como a interpretação da viagem de Carneiro e Brilhante Dias à Venezuela e de certo modo centrais como o preenchimento das vagas para o Tribunal Constitucional têm perturbado, senão mesmo ocultado, o debate mais decisivo sobre o reposicionamento do partido para oferecer uma alternativa sólida ao eleitorado que não quer embarcar no namoro mais ou menos implícito que a AD vai testando com o Chega. Não se conhece nada de relevante em matéria de ideias que tenha brotado do anunciado Conselho de Estratégia criado por José Luís Carneiro, o que adensa a preocupação quanto ao estado tardio em que se encontra o debate sobre o reposicionamento. Vamos por partes. Admitir que a composição do Tribunal Constitucional ficaria indiferente ao crescimento do Chega e à profunda alteração do quadro parlamentar equivale ao mais estranho “wishful thinking” de como contrariar a “direitização” em curso, seja ela interpretável como algo de efetivo e sólido, ou como um produto de moda circunstancial, sem espessura. Perante essa “direitização” em curso cabe ao PS alertar o eleitorado para os perigos associados a essa perda do balanceamento que sempre caracterizou o quadro constitucional e, obviamente, responsabilizar o PSD por se deixar arrastar por essa onda de mimetização das tendências que engrossaram até agora a direita populista em Portugal. A fragilidade atual do PS vem do facto de para querer manter uma posição clara de rejeição desse namoro implícito o partido arriscar precipitar novas eleições, sem que o seu edifício político esteja recomposto e pronto para uma nova luta eleitoral. Ou seja, até que ponto a demarcação face à aproximação que o PSD está a fazer a algumas causas do Chega pode ou não ser concretizada sem precipitar a instabilidade política. Trata-se de um equilíbrio muito difícil de conseguir e, por isso, considero que quanto mais tarde se concretizar o desejado reposicionamento pior será essa fragilidade.)

Quando se equaciona o reposicionamento de uma força política como o PS existem sempre duas vias, que se necessitam mutuamente, para o concretizar. Uma das vias constrói-se pela negativa. Ou seja, afirmar com clareza o que o partido não quer ser, o lugar que não quer ocupar. Esta via está hoje facilitada, pois abundam os exemplos de posicionamentos a rejeitar, tão variados e escabrosos são os que mais recentemente têm emergido. Um dos temas mais recentes protagonizados pela ala agonizante da AD identificada com o CDS mais retrógrado, é o indesejável confronto entre wokismo e anti-wokismo, que levou (o primeiro) à agonia do Bloco de Esquerda e tem entusiasmado (o segundo) os Núncios deste mundo. Este confronto tem um elemento comum, a chamada cultura do cancelamento. É este elemento comum que tem de ser rejeitado com convicção, pois não corresponde de todo às necessidades reais do eleitorado que se pretende recuperar, seja ele o mais jovem, seja o das classes médias em progressivo empobrecimento e perda de alavancas sociais, especialmente a partir do período pandémico e do sucessivo agravamento da estabilidade internacional.

Mas existem outros exemplos importantes para afirmar o lugar e os valores que não quer ocupar. O tema da imigração, da demografia e dos problemas do relacionamento entre culturas exige uma posição de equilíbrio que só, em meu entender, o PS está em condições de trabalhar. O posicionamento a rejeitar é o dos extremos que entretanto emergiram: de um lado, os que continuam a defender a rejeição da imigração e a esperança pífia de que a redução da taxa de fertilidade possa ser ultrapassada a curto prazo; do lado oposto, os que são incapazes de perceber que a integração cultural é para algumas populações uma miragem e que a formação de guetos culturais em torno das populações imigradas constituirá sempre um fator de perturbação social e fonte dos aproveitamentos mais sórdidos e aviltantes.

Mas chega de reposicionamento pela via negativa. É necessário também afirmar posições, que reconduzam o eleitorado a uma nova perspetiva de confiança relativamente às soluções que são propostas.

Uma primeira ideia, que podemos considerar vulgar, mas que está longe de o ser, é a de que um reposicionamento pela positiva não pode propor o céu e a terra, mas antes concentrar-se num conjunto reduzido de grandes mudanças.

Creio que não é necessário pertencer ao Conselho de Estratégia do PS para propor um consenso alargado em torno de algumas, poucas, apostas temáticas, suscetíveis de interessar o eleitorado e conduzir a um novo pacto de confiança.

Em meu modesto entender, existem quatro grandes temas agregadores que podem ser enriquecidos com a desmultiplicação de medidas mais concretas. Esses quatro temas são os seguintes:

§  Um posicionamento claro em matéria empresarial, tema que o PS sempre evitou de aprofundar e ao abrigo do qual existem outros temas a considerar como o da qualificação da população e a questão da investigação científica e tecnológica;

§  Uma estratégia de longo prazo para a saúde em Portugal que resista à tentação ideológica que Marta Temido não conseguiu ultrapassar e que reconsidere o SNS no estado da arte atual e não no estado desejável, ou seja, considerando o grau de implantação do setor privado já alcançado;

§  Um programa de habitação que rompa de vez com as falácias de que o mercado resolverá o problema, às quais Montenegro e Miguel Luz estão tão apegados e incapazes de compreender os efeitos perversos que os instrumentos “pró-mercado” estão a provocar, adensando o problema da “affordability” que atinge um número cada vez maior de indivíduos e famílias;

§  Um novo pacto territorial com o país, que promova de uma vez por todas um programa e critérios-compromissos de investimento público que combatam de vez o excesso de concentração em Lisboa e ofereça novas oportunidades a outros territórios e potenciando melhores condições de atração de pessoas e de investimento privado.

Estas quatro opções centrais podem ser combinadas com opções de carácter mais transversal como o serão seguramente o da justiça ou o da consolidação de uma resposta consistente à severidade das mudanças climáticas, com incentivos à mudança de comportamentos.

Obviamente que este programa de mudança e de recuperação da confiança do eleitorado exige considerações e aprofundamentos complementares que serão objeto de desenvolvimentos atempados neste blogue, particularmente do primeiro em que a viragem de posições no interior do PS poderá ser mais controversa.

A seu tempo e na medida do possível procurarei elaborar um pouco mais sobre estas matérias.

Mas fica a ideia central de que um novo reposicionamento assenta em questões-chave e não no arranjo sistemático de tudo que vem à linha na espuma das tentações eleitorais.

 

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