(A convite da Fundación Juana de Vega com sede na Corunha, a minha ida a Santiago de Compostela para tentar descobrir pontes entre Adam Smith e o tema da Euro-região, deu finalmente para ver deliciado o reabilitado Pórtico da Glória da Catedral, trabalho financiado por uma outra importante Fundação, a Barrié, também com sede na Corunha. Santiago tem aquele clima irritante em que nesta altura do ano o frio e a chuva convergem, mas a Cidade continua no seu melhor, com o perigo da turistificação à porta e a festa gastronómica permanente na rua é algo que já passou as fronteiras de uma simples cidade estudantil. O que é alias uma marca galega, pois na viagem de ida o centro histórico de Pontevedra, num domingo de sol na Cidade, estava ao rubro naquela combinação inimitável de gastronomia, convivialidade e direito à rua. Com este contexto e com a preparação da intervenção na Conferência, na qual os Amigos Professora Elisa Ferreira, companheira de viagem, e Francisco Carballo Cruz fizeram excelentes intervenções que valia a pena publicitar[1], obviamente que o tempo para o blogue foi nulo. Na ressaca dessa gratificante jornada, apetece-me hoje falar da hipocrisia europeia perante a guerra iniciada por Trump e Netanyahu no Irão e obviamente escalada através de uma estratégia suicida de resistência por parte do Irão. A posição do Irão assenta teimosamente na estratégia já conhecida de outras guerras no Médio Oriente de tentativa de envolvimento dos países do Golfo e assim agravar os custos económicos da guerra, entendendo, talvez sabiamente, que estes Senhores da Guerra quanto estão perante custos económicos de monta que podem provocar a tão por eles temida reação dos mercados.)
O jornalista Fernando Salgado da VOZ de GALICIA, pelo qual tenho grande apreço, considera e bem que o ataque dos EUA e Israel ao Irão, colocou em evidência uma vez mais as divisões no interior da União. Não está aqui em causa a natureza cruel e até sanguinária do regime teocrático de Teerão, que continua a aniquilar todo o potencial de afirmação criativa de uma vasta população que valoriza a sua cultura milenária, mas que rejeita o fanatismo religioso. O que está aqui em causa é a profunda divisão que o ataque suscitou entre as lideranças europeias, com Salgado a distinguir essencialmente três tipos de reações: a que é liderada por Pedro Sánchez de um claro não à guerra; o grupo dos que assobiam para o lado para não irritar Trump, onde eu acho que Portugal se integra, apesar das tentativas de escapar a esse escrutínio por parte do Governo e de Paulo Rangel; e a posição recentemente enunciada por Ursula von der Leyen de que não devemos derramar uma lágrima que seja pelo regime ucraniano, que não pode ser lida de outra maneira do que mandar às urtigas o direito internacional. A posição de Von der Leyen obrigou mesmo o Presidente do Conselho Europeu António Costa a corrigir a pintura, reforçando a ideia de que a União tem de defender o direito internacional.
Há, por isso, necessidade de denunciar a profunda hipocrisia, que neste caso é uma forma clara de cobardia política, que reina entre as lideranças europeias sobre o discurso a fazer sobre mais este atentado ao direito internacional, sem narrativa fundamentada para suportar a decisão do ataque. E é da mais profunda hipocrisia construir a narrativa de justificação a partir das retaliações iranianas, de ínfima proporção face à força do ataque. Tudo se passa como se exigíssemos ao Irão que, agredido numa face, oferecesse a outra face para suportar mais algumas vergastadas.
A hipocrisia europeia está refém da nova sigla que os media criaram sobre Trump – o síndroma do TACO: Trump Always Chickens Out, que poderíamos traduzir por Trump acobarda-se sempre ou recua sempre nas suas pretensões.
A questão fundamental está em aceitarmos ou não a justificação de que o regime irá cair face à força da devastação como se fosse um baralho de cartas se tratasse. Admito que possa existir essa ingenuidade, mas se assim for, quem nisso acreditar deve enunciar com clareza que apoia a operação nessa base de fundamentação. O que a União Europeia não o faz com clareza. Além disso, a parceria EUA-Israel não assenta num só argumento sólido comum. O que Israel quer sabemo-lo bem, quer instalar o caos no seu raio de alcance e defender-se destruindo tudo e todo que possam comprometer essa defesa. Quanto aos EUA estamos dependentes do vício TACO e, assim, depois de Trump dizer inicialmente que a operação se destinava a implantar a democracia no Irão e eliminar o regime teocrático, rapidamente a posição mudou, dando-se ao desplante de afirmar que gostaria de influenciar a substituição do Líder Supremo, entretanto eliminado, depois da sova dada ao regime teocrático.
A narrativa de que o regime teocrático pode cair com a devastação do ataque é altamente indeterminada, porque, pelo que se sabe, entre as forças políticas de oposição, cujo principal capital humano está no exterior, não parece haver força e organização suficientes para ser alavancadas pela agressão exterior. O enraizamento que o regime teocrático foi conseguindo implantar na sociedade iraniana e a indiferença por medo da repressão consequente que a rejeição dos valores estruturantes foi gerando nessa mesma sociedade torna a narrativa da transformação a partir do exterior um imenso campo de indeterminação. O que significa colocar a questão: arruinar o direito internacional para isto? Mas para quê afinal?
Podemos especular sobre o assunto e perguntar o que é que vai acontecer se o TACO se manifestar uma vez mais e ser claro que o prolongamento dos ataques pode ficar limitado à iniciativa israelita?
Mas o que começa a ser indiscutível é que quanto mais a hipocrisia europeia se consolida mais evidente fica a sua fragilidade no contexto mundial. Não se tem discutido muito o assunto, mas em meu entender Zelensky deve estar apavorado, inferindo da hipocrisia europeia face ao ataque ao Irão o que lhe pode acontecer em termos de apoio europeu com o elefante Trump no meio da sala.
Já não há muita pachorra para tanta hipocrisia.
[1] Interrogo-me frequentemente, sobretudo quando os auditórios que nos escutam são confrangedoramente pouco frequentados e quando a imprensa ou a própria academia não têm qualquer iniciativa de divulgar o que ali foi apresentado, se o esforço de qualificação das nossas intervenções é justificado perante tão escassa divulgação. Obviamente que sobretudo no último dia da Conferência, em que aconteceram as nossas intervenções, o campus da Universidade de Santiago de Compostela estava ao rubro com diferentes iniciativas e, por isso, apesar do entusiasmo do Professor Diego Sande Veiga na organização e dos contactos da Fundação Juana de Vega diria o impacto da Conferência foi muito reduzido. Valeu, entretanto, que a entrevista da Professora Elisa Ferreira à comunicação social, julgo que do Correo Galego, terá salvo a honra do convento. Isto não invalida, obviamente, que esteja imensamente grato ao Professor Diego sande Veiga e à Fundação pelo convite e pelo acolhimento.

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