Tanta loucura e tanto descoco vai pelo mundo que quase esquecemos que também se passam coisas neste país de aparentes brandos costumes. Mas passam mesmo e quase todas pouco edificantes ou dominadas pela mediocridade que hoje é a nossa norma. Vejamos o plano partidário mais central, do tal tripartidarismo que se digladia diariamente no Parlamento, contornando ao de leve a magna questão da nomeação dos juízes do Tribunal Constitucional em que cada um ralha e ninguém tem razão.
O PSD de Montenegro continua a viver o seu autoproclamado estado de graça, com o primeiro-ministro cada vez mais inchado pela sua avaliação da genialidade da própria prestação, continuando a levar a ministra da Saúde às cavalitas sem que haja qualquer sinal de mudança positiva e brincando com os serviços do Estado a propósito da já por demais malcheirosa Spinumviva. Os ministros, esses, seguem em roda livre, com Rangel a tomar conta do mundo, Castro Almeida a achar-se candidatável a um Nobel da Economia, Matias a reformar o Estado silenciosamente para que ninguém saiba e Pinto Luz envolvido em negócios e obras atrás de negócios e obras. E por aí fora.
O Chega de Ventura tenta atravessar um período de acalmia que contribua para uma visada imagem de moderação do chefe máximo (que até já fala quase baixinho!) mas é permanentemente interrompido por incidentes escabrosos, desde a atroz revelação em torno do pedófilo de Fafe às feias acusações públicas trocadas entre a delfim Matias e o vereador de Lisboa Mascarenhas. Ainda assim, o oportunismo e a relativa sagacidade do presidente do partido lá têm vindo a garantir o que parece ser uma certa estabilização do peso eleitoral alcançado em 2025.
O PS, por fim, prepara o seu Congresso, do qual espero pouco. Por um lado, porque a divisão interna, embora surda, parece consolidada e a boa-vontade de Carneiro não parece capaz de resistir à altura. Apesar dos independentes que vai levar a Viseu – um déjà vu que careceria de alguma novidade de forma e conteúdo – e apesar da resiliência que tem demonstrado na preparação dos dossiês e no difícil embate com um Montenegro de costas manifestamente voltadas em relação à sua esquerda. A duvidosa ida à Venezuela em tempos de alguma instabilidade relacional interna pode não ter sido a melhor opção, mas não será por aí que o gato irá às filhoses. Em suma, há um golpe-de-asa que tem de acontecer para que o bom do José Luís possa ganhar um estatuto de líder reconhecido de que ainda não goza. Se Seguro pode ou não ajudar nessa direção, mesmo sem que essa seja a sua dama neste momento inicial de mandato, é coisa que desconheço, embora esteja quase certo de que o matreiro que hoje é Presidente do Conselho Europeu disso se aproveitaria às mil-maravilhas, como mais ninguém sabe fazer na sociedade portuguesa.
Termino com uma pequena mudança de perspetiva, deslocando-me da política para a sociedade civil. Onde a parte mais enérgica e esperançosa mostrou esta semana quão pouco dela podemos esperar se prosseguir nesta via desviante de protesto pelo protesto, de exigência gratuita e desestruturada. Espero enganar-me mas ainda vamos arrepender-nos amargamente do palco, dos meios e da graxa (é a palavra!) que damos às associações de estudantes e aos seus profissionais da política disfarçados em estudantes.


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