quinta-feira, 5 de março de 2026

CALARAM-SE AS VOZES ERRANTES NO TEMPO NÃO LINEAR DOS ROMANCES DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 


(Um a um, vão caindo os grandes nomes da literatura portuguesa, uns evitando a tragédia da demência, outros como ALB convivendo com ela no último período da sua vida. Não direi que o vazio profundo está criado, porque alguns escritores mais novos como Gonçalo M. Tavares vão criando o seu espaço e rejuvenescendo a literatura portuguesa. Mas não será fácil cultivar e substituir o seu estilo elíptico de escrita, em que vamos convivendo com vozes que aparecendo e desaparecendo, criando uma narrativa única a que não estávamos habituados e por isso demorou algum tempo até que a escrita elíptica fosse absorvida. Os romances são tantos e tão variados que necessitaríamos de uma profunda e sistemática revisão à matéria dada para recordar o que mais me marcou e já não falo nas obras com que abanou inicialmente o panorama literário português, Memória de Elefante e os Cus de Judas. Mas talvez destacasse A Ordem Natural das Coisas (1992), Sôbolos Rios que Vão (2010) e a Última Porta antes da Noite (2018). O que me fascinava em ALB era a sua relação de operário com a produção literária, com a sua disciplina férrea de no seu espaço de trabalho assumir espartanamente um ritmo de escrita de manhã e à tarde, como um trabalhador disciplinado que não abdica do seu ritmo e exigência de horários para criar. Era aliás essa disciplina que explicava que quando a crítica assinalava que a criatividade de ALB estava exaurida, ele sempre nos surpreendia com um golpe de asa, engendrando um romance capaz de fazer o reset de todo o pensamento construído sobre ele. Fascinava-me também aquela ideia repetidas vezes invocada em algumas entrevistas e em algumas crónicas que a partir de um certo momento os romances tomavam conta dele. E por falar em crónicas, as suas publicações ou leitura semanal eram momentos prodigiosos de sensibilidade e aguda perspetiva sobre o quotidiano de gente comum. Encantava sobretudo o facto do estilo de escrita ser diferente.

Os livros ficam. A personalidade esbater-se-á com o tempo.

Por fim, um registo muito pessoal. Foi com António Lobo Antunes que compreendi a origem operária do SLB, da qual nunca me alheei, mas que os rumos estranhos e loucos do futebol estão a fazer esquecer para nossa tragédia.

 

 

1 comentário:

  1. Só não entendo o último paragrafo, com a dispensável referência ao futebol e, mais ainda, ao clubismo despropositado e exacerbado. De todo! No melhor pano cai a nódoa. Cumps. Fernando Pinto, ex Fep

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