sexta-feira, 27 de março de 2026

CONTRADIÇÕES DO (SUB) DESENVOLVIMENTO

 

(É curioso como a disrupção generalizada por esse mundo fora, com epicentro na Ucrânia e no Médio Oriente e na guerra brutal que por lá se trava, tem conduzido a um claro esmorecimento do tema dos desequilíbrios de desenvolvimento e das questões ambientais, associadas ou não ao tema das mudanças climáticas. Tudo se passa, paradoxalmente, como se o clima de guerra apagasse a lembrança de que o mundo enfrenta cenários climáticos e ambientais desastrosos. Tanto mais paradoxal quanto mais se sabe que a guerra é um fator terrível de adulteração das condições do solo, da água, do ar e das emissões em geral. Este tema veio-me à pena, mais propriamente ao teclado, através de um gráfico publicado pela hoje insubstituível base de informação do OUR WORLD IN DATA, que não se cansa de publicar informação sobre temas para os quais não tínhamos o hábito de prestar atenção e que podemos agora explorar numa farta diversidade de interesses possíveis.)

A mais recente newsletter do OUR WORLD IN DATA oferece-nos matérias tão diversas como as repercussões na Roménia de uma política mais restritiva do aborto em matéria de aumento da mortalidade infantil ou a indicação precisa e quantificada de quais são os animais mais perigosos em termos de vidas humanas. Mas é sobre o tema da poluição dos plásticos que me interessa deixar algumas reflexões, pois a informação publicada é muito sugestiva dos desafios que o subdesenvolvimento enfrenta.

Quanto todos os dias organizo o material de embalagens para colocar nos postos de reciclagem mais perto de casa não deixo de ficar impressionado com a intensidade infernal com que produzimos diariamente embalagens para reciclagem, nas quais o plástico e derivados continua a ocupar um lugar de destaque. Percebe-se também por essa experiência que pouco terá mudado nesta matéria, a não ser a intensificação dos processos de reciclagem, pois em matéria de as evitar a montante, com outros processos de embalagem de produtos a mudança existe, mas ainda não é percetível. O que sugere que são as mudanças em matéria de produção e consumo que representam o nó górdio da transformação desejada em matéria ambiental.

O que os números do OUR WORLD IN DATA mostram é que são os países mais ricos que geram o maior desperdício de plástico por pessoa (cerca de 63Kg), mas são também esses países os que provocam menor poluição de plástico per capita (0,1 Kg). Em contrapartida, os países mais pobres geram a menor carga de resíduos de plástico por pessoa (cerca de 16kg), mas em contrapartida são os que geram maior poluição per capita (10 kg).

Temos aqui a ilustração perfeita das contradições do desenvolvimento e do subdesenvolvimento em matéria ambiental. Afinal, o que é efetivamente contrastante nestes números terríveis são as diferentes condições de gestão de resíduos, neste caso apontando uma clara direção às políticas ambientais. O que está em causa e tem sido marcadamente difícil de o conseguir, é a possibilidade de aumentar o consumo nos mais pobres, mas fazê-lo através de modelos de gestão de resíduos que permitam combinar esse maior consumo com níveis muito mais baixos de poluição de plásticos por pessoa.

Como é compreensível, em contextos em que a fome alastra, a devastação provocada pela guerra e pela severidade climática e os fluxos não desejados de migrações de sobrevivência acontecem pode parecer um luxo despropositado falar de gestão de resíduos. Sim, por vezes, pode ser até desumano. Mas os números do OUR WORLD IN DATA mostram eloquentemente que se tem vindo a perder a noção de que os temas do desenvolvimento e do subdesenvolvimento estão cada vez mais interligados.

 

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