(Os portugueses têm um especial fascínio para os elogios póstumos. Como estimava que acontecesse, tenho lido textos excelentes sobre a obra e a personalidade de António Lobo Antunes, alguns dos quais acrescentando interessantes interpretações da obra e do escritor, que estimulam não tenho disso dúvidas a releitura de alguns dos seus romances e crónicas. Gostaria algum dia de tentar estudar este fascínio dos portugueses pelo elogio post-mortem, que interpreto provisoriamente como problemas de consciência pelo facto de não termos dado a devida atenção aos visados em vida. Mas isso é tema para outras reflexões. Entretanto, a atração pela prosa de ALB, espero que a póstuma edição de alguma da sua poesia não publicada não nos desiluda, pois, o próprio confessava o seu profundo desgosto pelo não domínio desse tipo de criação literária, foi apagando por estes dias a inconcebível guerra em que o delírio trumpiano está a oferecer ao mundo civilizado. E também a sucessão na Presidência da República. Sobre a mais do que escandalosa ausência de narrativa fundamentadora para a guerra no Irão, onde estamos a assistir ao esbracejar desesperado de um colosso em agonia, haverá seguramente nos próximos dias oportunidade para voltar ao assunto. Daí que hoje me concentre na sucessão da Presidência da República, desejando boa sorte aos dois Presidentes, o que sai de funções e o que ocupará a partir da próxima segunda-feira o Palácio de Belém. Ambos precisarão dessa boa sorte, é certo por razões diferentes.
Sou dos que, comungando da não perfeição dos humanos, acho que a Presidência de Marcelo cumpriu uma importante função, que foi a de devolver aos portugueses a confiança na Presidência da República, através de uma relação de proximidade e de insistência vocal que foi obviamente em muitos momentos exagerando, destruindo o efeito da gravitas que deve pairar sempre sobre a intervenção dos políticos, qualquer que seja o âmbito da sua intervenção. Marcelo terá querido em termos práticos competir com a efemeridade preocupante das redes sociais, falando sobre tudo e a todo o momento, como de um culto diário se tratasse. Teve obviamente derrotas com significado. Não conseguiu evitar e sobrepor-se ao avanço do Chega no eleitorado, mas o fenómeno é de tal maneira global que nem um Super-Homem poderia aspirar a fazê-lo. E cultivou a ideia politicamente errada de que sem Orçamento Geral do Estado aprovado o caminho inevitável é o da antecipação de eleições. No plano pessoal, os portugueses compreenderam que o rocambolesco caso do seu filho residente no Brasil foi uma machadada que pegou forte e o afetou profundamente.
Mas o clima global que imprimiu à Presidência é suficiente para passar por cima da baboseira da última selfie com o Governo de Montenegro e sobretudo a vacuidade, já analisada pelo meu colega de blogue, do “éramos felizes e sabíamos” da relação institucional com Montenegro.
Merece por isso os meus votos de boa sorte. Explico-me.
A promessa estabelecida por Marcelo de que não terá futuramente nenhuma intervenção política após a sua saída de funções é qualquer coisa de semelhante à experiência de um inveterado boémio que decide dedicar-se à vida monástica e de isolamento. Resistirá ele aos impulsos do comentador sibilino e do político sagaz? Hipocondríaco como é, a grande interrogação é como resistirá ele ao isolamento do envelhecimento inexorável, dando aqui de barato que o atravessará sozinho ou acompanhado. Certamente que Marcelo terá lido algumas das linhas terríveis que ALB escreveu em algumas das suas crónicas sobre o que é isolamento da velhice. Por isso, em jeito de agradecimento pelo que nos foi dando, ainda que contraditório, na Presidência, aqui ficam os meus votos de boa sorte para a passagem à monástica não intervenção política, seja dando conferências sobre temas jurídico-constitucionais, relembrando memórias com o seu Amigo António Guterres, dando aulas circunstanciais na Califórnia, ou simplesmente conversando com os seus Amigos mais próximos. Boa sorte e da grande.
Mas o novo Presidente António José Seguro, apesar do retumbante êxito político da sua vitória, precisa também que lhe desejemos boa sorte e também da grande. Encontrar a gravitas certa perante uma comunicação social que usou e abusou da predisposição quase inata de Marcelo para falar a todo o momento não será tarefa fácil, em medida proporcional às dificuldades esperadas que o governo de Montenegro irá enfrentar nos próximos tempos. Quanto mais escolhos se colocarem na frente do Governo mais Seguro será chamado a pronunciar-se. Encontrar o registo certo vai ser tarefa prolongada no tempo, até que os jornalistas se habituem a um novo registo e compreendam, eles também, o que é a gravitas.
Do mesmo modo, a procura de um equilíbrio entre a compreensão do que significa governar face a um estilo de oposição como a do Chega e a crítica da opção por temas que não são reclamados como centrais pela sociedade portuguesa, exceto da parte de alguns empresários assanhados como o Presidente da CIP, é tarefa que, em meu entender, definirá o que vai ser António José Seguro em termos de estadista. O contexto internacional é daqueles que não permite qualquer Presidente a fingir-se de morto.
Sempre entendi que na política, salvo raríssimos casos de predestinados, as competências se ganham exercendo-as, na aprendizagem que a prática política permite construir, sobretudo para aqueles que têm a capacidade de aprender fazendo. Por isso, e pelo que lhe devemos com a vitória presidencial, boa sorte também para o novo Presidente. A legislação laboral está aí ao virar da esquina e quanta aprendizagem pode ser alcançada na sua discussão com as forças políticas e parceiros sociais.
Por tudo isso, muito sinceramente, boa sorte Senhores Presidentes.

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