domingo, 2 de junho de 2013

O OPORTUNISTA



O ministro das Finanças parece flutuar e navegar completamente à deriva, sem vela ou vento orientador. Várias tiradas confirmam esse comportamento errático. Faz de virgem ofendida quando em conferência de imprensa conjunta com o presidente do Eurogrupo já há alguns dias se insurgiu com um jornalista que “ousou” colocar aquele uma questão que Gaspar assumiu que deveria ser-lhe dirigida. Noutra ocasião, assumiu em público a apresentação da medida do supercrédito fiscal ao investimento que recusara insistentemente. Há dias, fez a rábula do benfiquista condoído. E, mais recentemente, atira para o lado e acusa o Partido Socialista de ter negociado mal um memorando do qual se considerou largo tempo um executor emérito e exemplar. O professor Marcelo, perante tanta inabilidade, passou-lhe a folha e guia de marcha. Marques Mendes fez algo de similar ao salientar informações da Inspeção Geral de Finanças sobre avisos dos riscos dos das empresas públicas olimpicamente ignorados pelo ministério das Finanças já neste governo em 2011 e 2012.
O oportunismo de denunciar agora a pretensamente errada negociação de algo que foi sua bandeira mostra, uma vez mais, que esta gente não é de confiança, sobretudo quando o governo e nele certamente Gaspar se vangloriaram de ir mais além do que o próprio memorando inicial. A certificação alemã a que Gaspar se agarra como náufrago à deriva não vai chegar para suster o inevitável. Venha a guia de marcha.

COSTA E O PORTO


Sim, eu sei… que a política nunca foi uma atividade bacteriologicamente pura através dos tempos. Sim, eu sei… que a política dita democrática é cada vez mais feita de somatórios de comutativas parcelas de curtos prazos. Sim, eu sei… que a política modernaça secundariza as ideologias e os valores para se fixar em resultados e ponto final. Sim, eu sei… que a política à portuguesa é um terreno reservado aos predestinados em “capacidade política”, chavão que vale por uma espécie de sinónimo para ex-militante das jotas, ex-colador de cartazes, ex-frequentador de sótãos conspirativos e similares.

Et pourtant… A meu sentir, foi obsceno ver a “Quadratura do Círculo” abrir com uma declaração solicitada por António Costa a propósito do seu desejo de se mostrar “solidário com Rui Rio”. E disse, entre o sublinhado de que “o Porto não é uma localidade de Portugal, é uma das principais cidades do País” e várias outras evidências inquestionáveis sobre a importância da reabilitação urbana como forma de valorizar os centros das cidades ou de relançar o setor da construção de uma forma inteligente: “Eu tive, aliás, a oportunidade de estar há pouco tempo no Porto e de verificar o sucesso efetivo dos trabalhos daquela sociedade de reabilitação urbana na Baixa do Porto, que é onde incidem os trabalhos da SRU-Porto Vivo”!

Mas, não inteiramente satisfeito, Costa quis ainda melhor “puxar a graxa aos sapatos” e acrescentar uma denúncia da “cultura democrática deste Governo” e da sua “estratégia de asfixia” em relação à SRU do Porto. Nestes termos: “Porque é que este problema se coloca com a Sociedade de Reabilitação do Porto? Por um objetivo fundamental, que é: isto foi uma operação montada para atacar o Rui Rio e para atacar o anterior presidente da Porto Vivo, que é o candidato independente Rui Moreira. E, portanto, é um caso de instrumentalização do Estado e dos Institutos do Estado a benefício do candidato do Governo no Porto, que é o Dr. Menezes, procurando denegrir um trabalho muito importante que tem vindo a ser feito na cidade do Porto (…). Eu acho isto de uma gravidade extraordinária, porque há muitos anos que não assistíamos a algo desta natureza.”

Passando ao lado de minudências como o de a ministra da tutela (Assunção Cristas) ser membro do segundo partido da coligação e de este ter apoiado formalmente o dito “candidato independente Rui Moreira”, o que não faz do Dr. Menezes um assim tão óbvio “candidato do Governo no Porto”, interrogo-me sobre o que justificará este autêntico e vergonhoso “frete”. Uma jogadita espertalhona em benefício do orçamento da Capital? Uma vontade de querer parecer parte de alinhamentos mais bem vistos e pessoalmente mais favoráveis? Uma delirante antecipação para o presente de um mui desejado “centrão”? Mera verborreia ignorante? Ou, tão-só, um enigma da mesma natureza daquele acobardamento mal-amanhado que fez do candidato à liderança do PS a deceção nacional do ano?

Entretanto, Rio soma ao seu balanço o mérito de ter reunido os “notáveis do Porto” e gargalha com o basismo parolo dessas elites que manipula. Elites sem norte, sem memória, sem ética e sem estética. Elites que tudo branqueiam em nome de um prato de lentilhas, sejam umas letras/fotos na comunicação social ou a mera esperança de não serem esquecidas em banquetes futuros. Um assunto sobre o qual tantas e tão enojantes têm sido as loas que acabará por ficar a crédito deste blogue, na pessoa do António Figueiredo, a única análise digna desse nome e que consta de um post de 25 de maio intitulado “Mobilização e união à moda do Porto”…

sábado, 1 de junho de 2013

AS ESQUERDAS

(http://letraseconteudos.blogspot.pt/2013/06/libertar-portugal-da-austeridade-sob.html)


Daniel Oliveira (DO) tem hoje um bom texto no Expresso centrado na reunião magna da Aula Magna. Mário Soares volta à carga, revigorado, federando de novo uma frente de personalidades, constituída em fator de pressão sobre o governo e sobre a presidência da República. O artigo de DO é muito sugestivo porque distingue bem o que é uma frente convergente de esquerda em termos de personalidades que, apesar das suas filiações político-partidárias, pensa pela sua própria cabeça e uma possível frente de esquerda em termos de ação política para uma governação de convergência. E, em meu entender, estes dois campos de convergência possível (à esquerda) tendem cada vez mais a distanciar-se, a primeira com uma forte probabilidade de aproximação sistemática, a segunda transformando-se numa miragem e numa impossibilidade.
Explico-me.
Se residisse em Lisboa, bastaria saber que António Nóvoa seria um interveniente ativo na sessão para estar convictamente presente e não apenas por isso. O contexto atual, tal é a enormidade da teimosia da governação nacional e europeia, proporciona uma ampla aproximação de gentes que pensam pela sua própria cabeça e que sabem que, historicamente, quando o período europeu e nacional forem vistos com a distância necessária, ele será visto como um dos mais surpreendentes erros de política económica. O detonador de alerta que a situação espontaneamente provoca é logicamente frentista e há por isso espaço para um vasto ajuntamento de “compagnons de route”. É isso que explica o poder federador de Soares e sobretudo o entusiasmo com que o discurso de António Nóvoa foi recebido.
Porém, imagino-me nessa sessão e admitamos que a mesma não era apenas um detonador de alerta de consciências e que na “ordem de trabalhos” constava a discussão de “o que fazer” do ponto de vista da ação política. Provavelmente, não teria pachorra para ouvir o anunciado. DO é certamente mais otimista do que eu quando afirma que: “O parto pode ser difícil, mas os políticos da oposição acabarão por ser obrigados a seguir a vontade dos portugueses. Sabem que se não o fizerem, um qualquer Beppe Grillo tomará o seu lugar. Se PS, PCP e BE o entenderem a tempo talvez façam parte da solução. Sou otimista: talvez o tenham começado a perceber na quinta-feira, quando viram muitos eleitores seus de pé a saudar com tanto entusiasmo o apelo do reitor que exigia a renovação da política e dos partidos”.
A equação a que DO se refere não é necessariamente resolúvel. Se lá estivesse aplaudiria certamente com entusiasmo a frescura clarividente de Nóvoa. Mas muito provavelmente como eleitor de esquerda a minha influência para uma solução de governação convergente com aquela frente esgotar-se-ia por ali. Espero sinceramente que muitos dos que aplaudiram entusiasticamente Nóvoa não estejam a pensar na sequência déjà vue de elegerem um Presidente e em torno dele se criar uma dinâmica de governação alternativa. Para essa linha já não dou mais, enquanto as funções presidenciais continuarem no limbo existente. Acredito mais no robustecimento da opinião pública, na criação de um contraponto crítico à ação dos partidos da governação, não enjeitando aqui que mais tarde ou mais cedo PCP e Bloco não poderão permanecer indefinidamente no limbo da capitalização do voto de protesto.
Ontem, à noite, em Esposende moderei um debate com 3 deputados europeus (Marisa Matias, Bloco, uma força da natureza; José Manuel Fernandes, PSD, um intuitivo hiperativo; a jovem Inês Zuber, PCP, a renovação da força), centrado nas perspetivas do próximo período de programação de Fundos Estruturais e outros fundos. Momento que foi uma espécie de ligação direta entre o Cávado e Bruxelas. Mas mais do que isso foi a demonstração de que é possível superar as limitações dos quadros partidários quando os intervenientes se libertam dessas vestes, o que não é a mesma coisa que abdicar das suas ideias.
Uma pequena nota final: a intervenção final do Dr. João Lobo, presidente da Assembleia Intermunicipal da CIM do Cávado e ilustre causídico daquelas paragens, é um raro momento de uma política que já não se faz, um hino à beleza e à força da palavra.

E O DEBATE CONTINUA …



Como previa, a controvérsia que envolveu Reinhart e Rogoff versus Krugman, DeLong e outros está a dar origem a uma vasta densidade de contributos relevantes na blogosfera económica, a única capaz de ajustar-se ao ritmo do confronto das ideias, sobretudo a partir do momento em que os dados de base que deram origem ao artigo de R&R de 2010 se tornaram acessíveis a todos os investigadores.
O limiar terrífico dos 90% de peso da dívida pública no PIB já lá vai, já que de todos os intervenientes ninguém parece interessado apostar as barbas ou outra qualquer preciosidade pessoal para confirmar o realismo desse limiar. Como já aqui referi, R&R encontraram no deixar cair dessa bandeira uma escapatória para se manterem vivos na defesa das suas ideias.
Na última semana, a questão que foi mais desenvolvida foi da causalidade reversa entre dívida e crescimento. Ou seja, não seria (ou não seria apenas) o peso excessivo da dívida a determinar a penalização de crescimento, mas antes pelo contrário o fraco crescimento a determinar o incremento desse peso. O assunto presta-se a que a econometria entre na discussão, ocupe o palco e se sucedam os testes a orientar a discussão para uma ou outra causalidade.

Miles Kimball and Yichuan Wang no Quartz desenvolvem um exercício sugestivo relacionando os pesos da dívida pública no PIB com crescimentos médios dos últimos 5 anos e dos próximos 5 anos. Independentemente dos apuros e acertos econométricos que transcendem o âmbito deste blogue, a verdade é que os dados sistematizados por Kimball e Wang vão no sentido de sugerir que são os baixos crescimentos passados que determinam mais altos pesos da dívida. Já o exercício com os crescimentos médios nos 5 anos posteriores aos anos de observação de peso da dívida a relação descendente é muito menos clara e tende a perder significância para valores mais altos do peso da dívida.
Dito de outra maneira, os ritmos de crescimento económico dos países nos últimos 5 ou 10 anos conseguem prever com alguma consistência a evolução do peso da dívida pública no PIB, invertendo o sentido da causalidade que foi inicialmente associado aos estudos de Reinhart e Rogoff.
O crescimento anémico da economia portuguesa na década de 2000-2010 indiciaria assim o aumento do peso da dívida pública no PIB português, hoje agravado pela inconsistência da consolidação fiscal a todo o preço. A orientação do debate parece começar a dar razão a uma das últimas frases de Krugman: “We’ve spent three years letting policy be dominated byu nwarranted fears”.
 

SÓ ME FALTAVA MAIS ESTA!



Depois das agruras futebolísticas suportadas em silêncio e com alguma resignação (quem frequenta o deserto acaba por adquirir resistência de camelo), só me faltava ter a companhia do Gaspar a pedir simpatia solidária por ter vivido intensamente os infortúnios do SLB. Mas o que é que a personagem pretenderia com tal dislate, desajeitado, a destempo e despropositado?
Não será possível exterminá-lo e mandá-lo gozar com o tio Schaϋble?

DIA DA CRIANÇA




A crise, a política e a matemática explicadas às crianças pelo criativo lápis de Bernardo Erlich, cartunista do “El País” (http://elpais.com). A ver se elas entendem melhor o mundo em que as meteram…