quinta-feira, 6 de junho de 2019

A VISITA


Trump em Londres por uns dias e a debitar todo o seu descoco e falta de mínimos em termos de nível comportamental. Nada de novo, portanto, exceto no tocante à lata desmedida com que procurou deixar claro que só haverá um acordo comercial bilateral mediante uma contrapartida a conseguir na área do sistema de saúde britânico. Razão aquela para que aqui nos fiquemos por uma mera exploração da imagem em várias de muitas das opções que na matéria se nos têm vindo a oferecer – apenas, naturalmente, para memória futura de tempos que não me canso de insistir em classificar como absolutamente inenarráveis. Ah, e já agora, uma nota de aplauso para um personagem da vida britânica como é John Bercow – o Speaker da Casa dos Comuns, que aliás também andou por Trento, onde encheu o Teatro Central e impressionou pelo seu discurso articulado e moderado, deixando ainda a revelação extraordinária de ter comprado um gato para o ajudar a afastar os ratos da velha residência que oficialmente lhe está atribuída em Westminster e de o ter apelidado nada menos do que de Order! – pelo facto de não se ter coibido de uma farpa cheia de propósito em relação à indesejabilidade do presidente americano.

(Pierre Kroll, http://www.lesoir.be)

(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

(Dave Brown, http://www.independent.co.uk)

(Morten Morland, http://www.thetimes.co.uk)

(Jeff Danziger, http://www.nytimes.com)

(Matt Pritchett, http://www.telegraph.co.uk)

(Ben Jennings, http://www.guardian.co.uk)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

LIVERPOOL NO TOPO E CONSOLAÇÃO PARA CHELSEA

(cartoon de Omar Momani, http://www.goal.com)

(cartoon de Omar Momani, http://www.goal.com)

O futebol doméstico e continental está no seu defeso, após uma época longa e relativamente interessante a vários títulos, exceto alguns que sobremaneira se conhecem. Em plena silly season, com os tubarões em ação numa tremenda agitação de inconcebíveis milhões e os mais pequeninos a procurarem formas poupadas de refazerem os seus planteis, são quase horárias as notícias de negócios virtuais ou reais que se sucedem. Do nosso lado, e após tantas vezes aqui termos abordados os espetáculos mais salientes do ano, claro que não ficaríamos de bem connosco próprios se não acolhêssemos um breve registo dos dois momentos de encerramento da temporada de 2018/19: a consagração do Liverpool de Klopp e Salah na final da Champions e a vitória do Chelsea de Sarri e Hazard (ambos de saída, o treinador para a Juventus e o belga para o Real Madrid) na final da Liga Europa. Bom descanso e até breve!

AGUSTINA FICA ENTRE NÓS

(André Carrilho, https://www.dn.pt)


Como o nosso Presidente da República, também eu me curvo sem hesitações de qualquer espécie perante o génio de Agustina Bessa Luís, a irreverente, independente e inclassificável escritora que acaba de desaparecer aos 96 anos. Sobre ela encontrei por estes dias quase tudo quanto poderia importar deixar dito, pelo que remeto para tais textos e me abstenho de sequer tentar acrescentar algo de útil ou relevante a esse tanto. Fico-me, nessa linha, pela prosaica lembrança de “Os Meninos de Ouro”, uma obra publicada aquando da minha estada em Paris (1983), que li quando por lá escrevia a minha tese de doutoramento e que me impressionou a ponto de ter escolhido um seu excerto para nota de abertura da mesma. Sendo que o meu caso não foi singular já que, logo no ano seguinte, o livro receberia o “Grande Prémio de Romance e Novela” da Associação Portuguesa de Escritores. E é assim que, através desta implícita referência aos meninos do Douro e a José Matildes, um homem político fatal do pós-revolução com francas parecenças em relação a Francisco Sá Carneiro, aqui quero deixar expresso um singelo tributo sem fim à vida e à obra de uma mulher rara que se chamou Agustina.

terça-feira, 4 de junho de 2019

ATÉ ONDE IRÁ O BLUFF DE SALVINI?

(cartoon de Emilio Giannelli, http://www.corriere.it)

Como se pode constatar pelos recortes destes dias, as coisas estão feias em Itália. Coisa que, aliás, se pressente visivelmente nas conversas discretas de ruas e cafés ou nas preocupações patentes nas gentes mais informadas. Por um lado, é o tanque Salvini a atuar, impulsionado pelos bons resultados das eleições europeias (em contraponto aos maus do parceiro de coligação da sua “Liga Norte”, o “Movimento Cinco Estrelas”, determinando uma muito provável rotura que o primeiro-ministro Conte ainda tenta evitar) e procurando simultaneamente apropriar o momento para se afirmar como uma peça essencial na luta pela liderança da extrema-direita europeia. Por outro lado, é o braço-de-ferro com a União Europeia a propósito do défice público, uma verdadeira incógnita para quem acompanha as questões da Europa – no caso, e voltando a Trento, foi o ex-ministro grego das Finanças que pediu o regate do país em 2010 (Giorgios Papaconstantinou) quem por lá deixou uma imagem que diz tudo: à época, o camião alemão deslocava-se numa estrada estreita em direção a uma trotinete grega que vinha em sentido contrário, mas agora o mesmo camião depara-se com a possibilidade de chocar com um Ferrari italiano em alta velocidade – porque, como é óbvio, não é de todo indiferente (sobretudo para os caminhos europeus) virmos a saber quem vai ceder, desviando-se, e em que condições. Os mercados estão atentos, embora ainda expectantes mas já penalizadores, e a subida do spread peggio della Grecia aí está para o provar. Um autêntico quebra-cabeças que transporta consigo os principais ingredientes que subjazem às atuais preocupações dominantes, dos riscos populistas às grandes incertezas quanto ao futuro da Europa.

(cartoons de Emilio Giannelli, http://www.corriere.it)


Em tempo (início da manhã de 4/6): os jornais de hoje já dão conta de uma desavença grave entre Conte e Salvini (ver abaixo), ao mesmo tempo que assinalam um countdown europeu para a abertura de um processo de infração por défice excessivo ao país. A crise latente está assim transformada numa guerra aberta com várias vertentes.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

AGUSTINA



(A notícia da morte de Agustina apanhou-me em Lisboa, entre reuniões daquele tipo que se poderiam concretizar perfeitamente por skype ou vídeo-conferência, mas que continuamos a suportar pagando o tributo do centralismo que se reproduz tanto melhor quanto mais visitas tiver. Em meu desfavor, há ainda o facto de grande parte da minha generosa biblioteca com obras da autora estar em Seixas o que inviabiliza a possibilidade de rever passagens, anotações, espantos, rendição.)

Agustina Bessa -Luís já nos tinha deixado há muito tempo, como se pretendesse que fossemos cortando os laços com a sua prosa e com o seu pensamento irredutivelmente crítico e a sua morte tivesse menos impacto por isso. Da literatura que domina parte dessa estante inserida na parede branca de Seixas brota um espírito prodigioso, uma forma incomparável de recriação dos ambientes de um Norte que se vai esfumando no tempo que transforma a Região. Parte desses ambientes serviu para um diálogo estranho entre a sua prosa e o cinema de Manuel de Oliveira. Mas para além do cinema de Oliveira, nas obras de Agustina passeiam-se rostos e personalidades femininas que são verdadeiros tratados psicológicos, não precisando para isso do catálogo feminista antes do tempo.

Creio que pela observação atenta de alguns ambientes com os quais manteve forte proximidade, Agustina é uma analista imparável do mundo dos negócios que já não se fazem assim. Li uma vez algures no tempo uma passagem de uma das suas obras, primeiro pensei que fosse a sua notável biografia do Marquês de Pombal, mas não a consegui encontrar, que concebia uma diferença espantosa de significado entre os economistas e os financeiros, ou homens da finança como lhe queiram chamar. Naquela passagem havia mais conteúdo de perceção dos fenómenos económicos e financeiros e dos seus protagonistas do que numa bateria de manuais e de jornais e revistas especializadas.

A edição pela Fundação Calouste Gulbenkian das suas crónicas completas, dispersas por longos anos de trabalho de publicação em diferentes jornais, palestras ou outros escritos, demonstra-nos a sua ampla cultura e sabedoria do mundo. E do ponto de vista das suas referências territoriais não conheço mais ninguém capaz como Agustina de ler com o mesmo quadro interpretativo as famílias do Minho e do Douro.

A esquerda em Portugal e as suas famílias culturais nunca tragaram a obra de Agustina com o requinte e a sabedoria como a autora tomaria uma taça de champagne na sua intimidade ou num sarau familiar ou com amigos próximos. Se ser de esquerda implica essa renúncia que se dane a esquerda.

RESPIRANDO ARES DE UMA INTELIGÊNCIA QUE TERÁ DE PASSAR!


Regresso ao normal, ainda em choque com o subjugante volume de conhecimento e informação a que fui sujeito, no curto espaço de três dias, numa vibrante cidade de Trento a respirar Economia por todos os poros. Todos os grandes espaços citadinos estavam cheios de remissões para o Festival, entre fotos de economistas nas ruas e praças, telas reproduzindo alguns debates de interesse mais geral e barracas de venda de livros, para além da ocupação de todos os locais imagináveis para a realização das conferências e mesas-redondas (com destaque para vários palácios belíssimos e para o magnífico teatro municipal). Tudo isto acompanhado de uma catadupa de grandes nomes em ação sucessiva, alguns dos quais proporcionando um autêntico privilégio de estimulação para a minha humilde cabeça. Um fim de semana alargado simplesmente extraordinário e absolutamente arrasador.

domingo, 2 de junho de 2019

EVOLUTION OR REVOLUTION?

(MIT Press, 2019)

(Olivier Blanchard e Lawrence Summers assinam o livro que se esperava. Convocam o pensamento de vários economistas, incluindo o deles próprios, para nos dar se a Grande Recessão de 2007-2008 deixará frutos em termos dos rumos da macroeconomia. Sei que outros economistas exigirão uma perspetiva mais radical, mas realisticamente contentar-me-ia com a conclusão de que, incorporados todos s ensinamentos da abordagem à Grande Recessão, a macroeconomia será ensinada e praticada de maneira diferente.


A história económica e da evolução das ideias que lhe anda associada já nos permitiu identificar no passado duas importantes revoluções, antagónicas e figadalmente opostas.

Na Grande Depressão de 1930, produziu-se o contexto histórico apropriado para que a revolução keynesiana emergisse e mudasse completamente o modo de ler, praticar e gerir a macroeconomia. O keynesianismo na sua origem cristalina, toda a fonte é mais cristalina do que as suas cópias, e não o neokeynesianismo que se tem passeado por aí, é ainda hoje fruto de novas interpretações, como eu espero que aconteça proximamente com os escritos do meu Amigo José Cerqueira, economista angolano, licenciado pela FEP e doutorado em Dijon com o Professor Bernard Schmidt. A finura e a elevação do pensamento de John Maynard Keynes tornam difícil apagá-lo da memória e das referências dos macroeconomistas. Keynes é um daqueles ombros gigantes em que nos podemos apoiar para pensar o futuro, mas a sua dimensão não é fácil ser superada.

Entretanto, nos anos 70, com um contexto macroeconómico incomparavelmente menos pesado, caracterizado pela coexistência até aí estranha de inflação elevada e desemprego, assistiu-se ao que cada vez mais considero ser um apagamento precoce da revolução keynesiana. Os economistas pensaram ter domesticado o ciclo económico ao mesmo tempo que demoliram as bases da política económica keynesiana. O “trade-off” entre mais ou menos desemprego e menos ou mais inflação, respetivamente, foi rompido, tendo a maior parte dos protagonistas deste revisionismo feito o funeral à chamada curva de Philips que representava o referido trade-off. A partir daqui vai ser o tempo da política monetária e da chamada regra de Taylor para conduzir a política monetária em torno de um objeto de inflação estável em torno dos 2%. A política fiscal quase que foi considerada pecaminosa e condenada ao fogo pela inquisição dos equilíbrios naturais e dos estabilizadores automáticos. Essa ortodoxia monetária galgou mundo e entrincheirou-se na formação do Banco Central Europeu, com plena permissão e anuência dos socialistas e sociais-democratas europeus (não lhes perdoemos porque sabiam o que faziam!).

Em 2007-2008, tal como zombies, Mortos-Vivos à Guerra dos Tronos, o ciclo económico regressou com toda a força e arrasou a vida de uma percentagem enorme de indivíduos e famílias, nos Estados Unidos da América e na Europa. Mesmo que doze anos depois os economistas ainda não se tenham inclinado para uma causa determinante, com a controvérsia ainda a existir, a ideia de que o ciclo económico estava domesticado custou a vida aos seus domadores. E, pior do que isso a forma como as sequelas da Grande Recessão foram geridas, com particular incidência na subsequente crise das dívidas soberanas, foi possível concluir que não era afinal possível ignorar acintosamente os fundamentos keynesianos. Apesar do relativo êxito com que a duração do impacto da Grande Recessão foi encurtada, doze anos depois as condições de equilíbrio estrutural das economias avançadas alteraram-se radicalmente, designadamente com duas evidências principais: (i) o quase pleno emprego da economia americana não precipitou as temidas pressões inflacionárias; (ii) a taxa de juro real de equilíbrio a longo prazo continua baixa e com perspetivas de aí permanecer durante longo tempo.

A tentação de reconhecer que uma terceira revolução macroeconómica poderá surgir para acolher e interpretar estes novos factos estilizados é irrecusável. Pelo menos, há duas ideias que estão adquiridas e essas são fortemente revolucionárias: (i) as grandes recessões têm fortes efeitos a longo prazo pois tendem a debilitar o produto potencial das economias; (ii) a política fiscal regressou em toda a linha, pois a política monetária pode fazer todas as acrobacias flexíveis e criativas que entender mas não consegue apagar a necessidade da política fiscal. E assim se percebe hoje melhor o pecado da ortodoxia dos princípios que conduziram à criação do BCE.

A obra de Blanchard e Summers vai ter de ser lida pelos que ensinam macroeconomia básica e não poderá deixar de ser uma leitura obrigatória para a formação pós graduada e avançada em macroeconomia. Há obras assim na história da economia. Obras que não são elas próprias revolucionárias como a Teoria Geral de Keynes. Mas obras que situam e organizam a controvérsia do pensamento e que darão origem aos avanços mais consolidados de pensamento. Estou em crer que assistiremos a essa transformação.