sexta-feira, 8 de novembro de 2019

QUE A ESPANHA AQUI TÃO PERTO CONTINUE LONGE!

(a partir de https://www.politico.com)

Nuestros hermanos vão novamente às urnas no Domingo. E sem grandes expectativas de que se desbloqueie uma situação política que parece absolutamente irregenerável. O gráfico acima, construído a partir de cinco cortes temporais selecionados para os últimos dois anos, é elucidativo da perturbação reinante e das oscilações do eleitorado. Assim, e muito genericamente: o PP estava à frente com 28% há dois anos, caiu até 17% nas eleições de abril passado e está agora em lento crescimento (21%); o PSOE esteve em queda até à saída de Rajoy (chegou a valer 20%), começou depois a subir até aos 29% das últimas eleições e ainda prosseguiu em ligeira alta depois para entrar em perda até aos 27% atuais (um provável vencedor mas uma manifesta falha, de todos os pontos de vista, da estratégia isolacionista de Sánchez); o Ciudadanos, que liderava as sondagens ao tempo do fim de Rajoy, foi caindo sucessivamente até despencar brutalmente depois dos 16% de abril para os 9% de hoje; o Podemos, que andou nos 16 a 20% até há um ano, perdeu expressão depois e encontra-se agora nos 12%; o Vox, que era uma extrema-direita sem significado até abril (2%), consegue chegar ao Parlamento em abril (10%) e está agora nuns 14% que poderão fazer dele o terceiro maior partido de Espanha. Se quisermos ser breves, Sánchez castigado, Rivera castigado, Iglesias castigado e, assim, Casado a aproveitar algum espaço e Abascal a capitalizar o descontentamento – perigosamente, aliás, como decorre de uma previsão média de 46 lugares parlamentares. Se a toda esta indefinição juntarmos o caldeirão da Catalunha, bem teremos de convir que temos aqui por perto um dos maiores barris de pólvora da Europa – uma excelente razão para olharmos para dentro de nós e não nos querermos continuar a tornar um parente pobre dessa Ibéria cada vez mais mal sonhada.




(Felipe Hernández, “Caín”, http://www.larazon.es)

OS GALEGOS A OLHAREM PARA NÓS


De vez em quando os nossos amigos galegos dedicam páginas dos seus jornais – e não só! – a analisar e denunciar a “ofensiva” do Norte de Portugal, que consideram um misto de alguma estratégia com alguma concorrência desleal. A mais recente dessas incursões é a que aqui deixo ao vosso conhecimento. Os eixos em que se focam os acusadores galegos são a nossa política de solos, a nossa mão-de-obra barata e as nossas vantagens fiscais, alegadamente determinantes para uma criação de emprego industrial do nosso lado bastante superior à deles (uma oferta de postos de trabalho no primeiro semestre de 2019 de 4437 contra 690, respetivamente). Não estou assim tão certo de que tenhamos um planeamento tão estruturado em termos de captação de investimento, mas conheço bem e de perto o modo atento e voluntarista com que uma boa parte dos municípios do Norte encaram a localização empresarial como uma dimensão vital das suas políticas de retenção e captação de pessoas num quadro de procura de uma maior afirmação no plano da criação de riqueza. Pena que não existam efetivamente condições objetivas para que daqui pudéssemos passar organizadamente a novos e possíveis saltos qualitativos numa área que é verdadeiramente decisiva para os nossos territórios e para a correspondente densificação da economia e da sociedade portuguesa.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

TESE VERSUS MANIFESTO


O “Diário de Notícias” apresentou há dias o resultado de uma importante investigação que fez em torno de André Ventura, o deputado do “Chega”. Não porque tenha grandes ilusões sobre o que de tal resultará de positivo quanto à avaliação no espaço público do dito novel membro da nossa Assembleia da República. Sim porque a história se repete sempre, embora sob variadas formulações, naquilo que é a expressão do oportunismo nojento e radical de gente desta e a evidência disfarçada dos temores acobardados e mais ou menos reverenciais dos seus adversários democráticos. E fica dito, sem mais delongas.

LOGO À NOITE NO VILA FLOR EM GUIMARÃES



(Hoje não é tempo de escritos para o blogue. É tempo de, num ato de pura descentralização cultural, ir ao Festival de Jazz a Guimarães para ouvir o Charles Lloyd. A última vez que o vi ao vivo foi nos jardins de Serralves onde o ruído dos aviões que por ali passavam nesse dia e o sax de Lloyd travaram um diálogo inesperado)

Espero que as marcas avançadas da idade amadureçam ainda mais aquela sonoridade que sai daquele vozeirão musical. É para usufruir, dar uma olhadela à sociedade vimaranense que vai ao Vila Flor.

Fiquem com uma gravação do concerto de julho deste ano em Paris, com o quarteto composto pelo próprio Lloyd, Julian Lage na guitarra, Reuben Rogers no baixo e Eric Harland na bateria (link aqui).

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

(RE) QUALIFICAR PARA COMPETIR



(A convite da AEP estive hoje de manhã na sala do Conselho daquela associação em Leça da Palmeira num workshop destinado a recolher material de discussão e de testemunho para uma conferência pública a realizar com o objetivo de marcar o tema da requalificação profissional na agenda política. Sob o comando do estimável Engº José António Barros e do ex-Reitor da UP Professor Sebastião Feyo de Azevedo esgrimi ideias com a Professora Isabel Braga da Cruz responsável pelo Centro Regional do Porto da Universidade Católica, Professora Ana Côrte-Real Diretora da Business School da Católica, Isabel Meireles da EGOR, o Dr. António Pego da AEP e o Professor Hélder Vasconcelos da Faculdade de Economia do Porto e atualmente Diretor da UPTEC)

A ambição do debate era enorme, o que pode ser ilustrado pelos cinco temas propostos à discussão e sobre os quais os convidados tinham liberdade de optar por uma abordagem mais seletiva ou mais extensiva cobrindo a sua generalidade na perspetiva das organizações:

  • O Sistema de Educação e Formação consegue responder às necessidades das empresas / organizações (em qualidade e em quantidade)? Quais as principais lacunas encontradas?

  • Qual o impacto do desenvolvimento tecnológico (automação / indústria 4.0 / …) na evolução das profissões (emergentes e em declínio) e respetivas competências?

  • Como adaptar os modelos de negócio face às novas gerações (Y, Z, …)?

  • Quais os novos desafios no relacionamento das empresas / organizações com a Academia?

  • Como devem as empresas conciliar a entrada das novas gerações com os trabalhadores mais velhos (devido ao prolongamento da idade de reforma)? 

O posicionamento que a AEP pretende assumir nesta matéria parte da evidência/avaliação de que os problemas de qualificação da população ativa portuguesa continuam a penalizar o produto potencial da economia portuguesa e a traduzir-se em gaps de produtividade e, consequentemente, de competitividade. Nas palavras iniciais de José António Barros que introduziram o debate e foram antecâmara das nossas intervenções senti o regresso de algum pessimismo, inclusivamente sobre o que de novo terá acontecido nestes últimos anos em termos de capacitação empresarial. Com referências a alguns problemas conjunturais nas indústrias têxtil e do calçado e à concentração do potencial de exportação nacional num conjunto relativamente reduzido de empresas, o pessimismo de JAB surpreendeu-me em parte, sobretudo do ponto de vista de alguém que tem uma presença relevante na própria AEP e no movimento associativo em geral.

Fiel às minhas convicções sobre estas matérias das qualificações e competência, comecei por introduzir a minha preocupação sobre a necessidade de ser concretizado um maior equilíbrio entre os desígnios nacionais de valorizar a formação inicial de jovens e de requalificar ativos empregados, segundo a minha reiterada metáfora de equilíbrio entre stocks (combatendo a inércia das baixas qualificações) e fluxos (valorizando as capacidades dos jovens para a empregabilidade). Neste último período de programação que corre ainda, as políticas enviesaram-se para a formação inicial e desvalorizaram excessivamente a formação de ativos. A mensagem passou, até porque tenho um aliado neste tipo de ideias no Dr. António Pego da AEP, que sente essa desvalorização a um nível de maior proximidade da formação.

Após esta introdução-recado, discuti sobretudo o primeiro tema. Por mais afinação que consigamos imprimir entre a oferta de qualificações pelos sistemas educativo e de formação e a procura de competências e profissionais pelas empresas, o matching nunca será perfeito. As empresas procuram competências para as trabalhar em contextos reais de trabalho gerando profissionais competentes e os sistemas educativo e de formação, por mais que se aproxime da simulação de contextos de trabalho formam qualificações e até podem formar para as competências. Mas como diz brilhantemente o meu amigo Guy Le Boterf, ter e adquirir competências não significa necessariamente que sejamos competentes em práticas profissionais reais.

Hoje, grassa por aí uma deriva analítica de decompor as competências em famílias de competências cada vez mais declinadas, multiplicando o que Le Boterf chama de listas de competências. Ora, enquanto os sistemas educativo e de formação e os analistas declinam e seccionam famílias de competências, procurando por essa via enriquecer os processos educativos e de formação, os gestores de proximidade e empresários falam cada vez mais que necessitam de profissionais que saibam trabalhar. O saber trabalhar, o ser um profissional competente, não resulta de facto de uma adição de competências, ou seja, quanto mais adquirirmos melhor. Brilhantemente. Le Boterf fala de competência como combinatória de recursos, os saberes ou conhecimentos, os saberes-fazer e os saber-estar ou agir. É necessário saber combinar esses ingredientes e os franceses têm uma expressão que diz tudo – SAVOIR Y FAIRE. Há instituições dos sistemas educativos que se concentram nos saberes-conhecimentos e outras especializam-se nos saberes-fazer. Hoje em dia, atravessamos a moda dos saberes-estar ou agir, que se espraia pelas competências comportamentais, soft skills para alguns e competências transversais para outros.

Defendo já há algum tempo que as instituições de educação e formação privilegiam tempos letivos (de formação) excessivos, reduzindo os tempos, oportunidades e condições de trabalho para a auto-formação a mínimos incomportáveis com os tempos de hoje e com a capacidade essencial de aprender a aprender e a motivar-se para aprender. Aliás, sempre defendi que uma instituição universitária ou politécnica, uma escola secundária ou profissional ou um centro de formação não é pelo curriculum de estudos ou de matérias de formação que formarão para as competências transversais. É pelo seu funcionamento como organizações, abertas à sociedade e às empresas ou fechadas em si próprias, pelos espaços de iniciativa e de criatividade que abrem e suscitam junto de alunos e formandos, que uma instituição desse tipo socializa esse tipo de competências. Como dizia hoje o Professor Hélder Vasconcelos há uma deriva moderna para a história do jovem escuteiro que queria ajudar uma velhinha a atravessa uma rua que ela não queria atravessar. É a deriva dos programas de liderança como se todo aluno ou formando tivesse nascido para liderar. Santa ingenuidade, a maioria tem de aprender a ser liderado. Os sistemas têm uma capacidade infinita de geração de vulgatas a partir de ideias relevantes. É esse o mundo das soft skills. Não esquecer que antes dessas competências transversais há traços de personalidade. Ou seja, há traços que a formação não consegue influenciar.

E por hoje é tudo.

PARA NÃO ESQUECER O BRUCE..


Foram três semanas desportivas fantásticas as do Mundial de Râguebi do Japão, há dias terminado em Yokohama com a inesperada vitória da seleção da África do Sul. Vi em direto o que pude, revi o melhor do que não pude ver em direto e ainda assim perdi bastante. No todo, os pontos mais altos do torneio estiveram em dois jogos excecionais: o da surpreendente e algo folgada vitória (19-7) da Inglaterra sobre a favorita Nova Zelândia nas Meias-Finais, certamente a melhor partida da competição, e a magnífica vitória do Japão sobre a Escócia na fase de grupos que valeu aos nipónicos um inédito apuramento para os Quartos-de-Final. No jogo da final, a Inglaterra era encarada como uma vencedora antecipada – sobretudo após a eliminação acontecida às suas mãos de uma Nova Zelândia que vencera com naturalidade os sul-africanos na fase de grupos (23-13) –, mas foram estes a impor-se com razoável facilidade (32-12) num encontro interessante mas só espetacular pela exibição tática dos novos campeões. Curioso registar que, fruto desta série de resultados, nenhuma seleção acabou invicta o torneio.


Em termos individuais, o meu limitado conhecimento do jogo não chega para destaques pessoalizados que não os mais óbvios. Mas sempre recolhi vários nomes notórios, alguns dos quais nomeados para o prémio atribuído na gala do dia seguinte (infografia abaixo) ao jovem sul-africano Pieter-Steph du Toit. Além destes, o maior concretizador da competição (Handre Pollard, designadamente com seis penaltis e duas conversões na final) e o marcador do primeiro ensaio da final (Makazole Mapimpi), na equipa campeã, e o capitão inglês Owen Farrell mais o neo-zelandês Beauden Barrett (frequentemente considerado o melhor jogador do mundo), nas equipas que ocuparam os restantes lugares do pódio. Duas referências conclusiva, uma à organização – porque, rezam as crónicas, foi simplesmente impecável, apesar das perturbações provocadas pelo tufão que andou por aquelas bandas a meio do programa – e outra ao Bruce Manson, um amigo australiano que viveu no Porto e me fez apreciar este incrível desporto que primeiro se estranha e depois se entranha.