domingo, 3 de outubro de 2021

ESTRANHOS MODOS DE ESTAR NA VIDA

 

A nova condenação do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy vem demonstrar que o cada vez mais necessário reforço de sociedades democráticas estruturadas e sólidas pressupõe e exige que as formas de acesso ao poder e o seu exercício não possam autorizar atropelos de qualquer tipo e devam ainda ser objeto do mais cuidado escrutínio. Mas também evidencia a imensa dimensão de efémero que envolve manifestações correlacionadas como as da arbitrariedade, do absolutismo e da inimputabilidade que alguns poderosos insistem em tentar explorar tão imaginativa quanto despudoradamente. Sarkozy, com quem anos atrás aqui ironizávamos frequentemente pelos seus ridículos modos e tiques e pelos seus comportamentos dominantemente alheios ao interesse europeu, tornou-se claramente um caso contemporâneo de estudo na matéria em causa. Petit Nicolas vai agora passar uns tempos numa humilhante prisão domiciliária, a qual apenas poderá ter alguma eventual compensação num convívio mais presente com a sua musa Carla Bruni, alguém que estranhamente acabou por conseguir seduzir após um casamento cheio de traições rasteiras e de remates nada curiais. E assim se vão sucedendo clássicos elucidativos das fraquezas humanas, mesmo quando se torna por demais percetível que esta vida são dois dias e que poder e dinheiro parecem ajudar a bem a levar mas não trazem nem substituem a felicidade enquanto única realização plena.

 

(cartoons de Pierre Kroll, http://www.lesoir.be e Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

sábado, 2 de outubro de 2021

QUALIFICAÇÕES E PRODUTIVIDADE


(Através de um post no Facebook do Professor João Cerejeira da Universidade do Minho, fui alertado para um artigo de João Moreira Rato no Novo Semanário, link aqui, que importa aqui comentar pois suscita uma boa discussão sobre um intrigante aspeto da economia portuguesa. Recordar o título desse artigo acaba por ser a melhor maneira de justificar a sua invocação para o post de hoje, “Porque será que a melhor geração de sempre não é muito mais produtiva?”).

Citemos, por isso, o argumento:

“Quando olhamos para os dados económicos, deparamo-nos com um enigma: a produtividade da nossa economia, medida como o produto interno bruto por hora trabalhada, diverge das médias da União Europeia e da OCDE há mais de sete anos. Este fenómeno é enigmático porque parece não ser explicado pela variação do stock de capital na economia (um trabalhador com mais maquinaria para trabalhar deveria ser mais produtivo) e porque a evolução da formação dos trabalhadores (a tal geração mais qualificada de sempre) e das medidas de inovação e desenvolvimento de novos produtos (patentes, por exemplo) nos fariam esperar o contrário. Ou seja, se olharmos para a evolução do país em termos de formação e de desenvolvimento de novos produtos, deveríamos estar a observar não só uma evolução mais rápida da produtividade, como uma convergência para níveis europeus, e não uma divergência”

A questão colocada por João Moreira Rato, que ele invoca como algo que tem de ter uma resposta no âmbito do diálogo e negociação com investidores estrangeiros, é complexa e tem a meu ver várias respostas possíveis.

A primeira questão prende-se com o suporte de literatura e investigação económica que permite ao economista colocar a questão. O suporte teórico está essencialmente ligado com as ligações relativamente robustas que vários estudos identificaram existir entre a dotação de capital humano de uma economia e o seu produto e produtividade do trabalho (produto por hora trabalhada). O capital humano, medida pela formação secundária, superior e avançada, é uma variável independente que controlada por uma série de outras variáveis parece explicar crescimentos de produto e produtividade. Mas esta relação, convém reconhecê-lo, exige uma variedade de mediações, uma das quais de maior relevância é a organização em que essa relação se processa. Todos nós conhecemos a evidência de que os trabalhadores portugueses quando inseridos em empresas multinacionais de grande porte e rigor organizacional, seja em empresas estrangeiras localizadas em território nacional, seja no exterior, estão na origem do estatuto de campeãs da produtividade no interior dos respetivos grupos.

Um outro aspeto menos referido dos estudos que suportam o argumento-interrogação de JMR é o facto da relação robusta existir entre dotação de capital humano num certo momento do tempo e o desempenho do produto e da produtividade. É por isso o stock total de capital humano com formação secundária, superior e avançada que conta e não os novos fluxos de gente mais qualificada que chega ao mercado de trabalho. Assim sendo, à pergunta “porque será que a melhor geração de sempre não é muito mais produtiva?” poderemos responder que essa geração mais qualificada insere-se em organizações cuja grande maioria acolhe outro tipo de trabalhadores, cuja qualificação não se aproxima da nova geração. A fundamentação para este argumento encontramo-la em estudos que seccionam a variação da produtividade por tipos de empresas, designadamente do ponto de vista do peso do trabalho qualificado. A variação da produtividade parece responder à mais elevada qualificação da estrutura do emprego e isso também pode dever-se ao facto dessas empresas tenderem muito provavelmente a apresentar modelos de gestão mais profissionalizada, maior inovação e capacitação tecnológicas e modelos de organização mais favoráveis à produtividade.

Uma outra questão que tende a ser fortemente esbatida senão mesmo ignorada no debate sobre a produtividade em Portugal prende-se com o modo de cálculo da produtividade por hora trabalhada. Esta produtividade só muito raramente é do tipo “físico-físico”. Ou seja, se no denominador não há dúvida de que é uma grandeza física que está lá calculada, as horas trabalhadas, no numerador é na maioria das vezes uma grandeza monetária que calculamos, o produto ou o valor acrescentado. Isso significa que o preço a que conseguimos vender o produto, seja no mercado internacional, seja no interno, a remuneração do trabalho e do capital influenciam o numerador e, consequente, o rácio relativo às horas trabalhadas. Assim sendo, não apenas as baixas qualificações influenciam negativamente a produtividade, mas também o preço através do qual nos inscrevemos na competição internacional, as remunerações do trabalho e do capital podem exercer um efeito de rebaixamento. Creio que uma larga parte da inércia que parece dominar a evolução da produtividade do trabalho se deve a estes fatores que são de ceto modo a face oculta do nosso modelo de especialização.

Claro que poderíamos falar de outras matérias mais macro, o perfil de especialização da economia portuguesa e a própria estrutura empresarial, como matérias influenciadoras da referida inércia.

Quanto ao primeiro aspeto, uma larga parte do nosso tecido empresarial, têxtil-vestuário, calçado, mobiliário de madeira e metálico, metalomecânica, por exemplo, esgotou já praticamente os ganhos de produtividade possíveis com o seu processo incremental de inovação e modernização. Ganhos mais disruptivos exigiram mais inovação radical em Portugal e o que sabemos é que isso só será possível em determinados nichos de mercado e não de forma generalizada.

Quanto ao segundo aspeto, obviamente que um processo de destruição criadora das empresas com maior propensão à utilização de trabalho desqualificado tenderia a fazer aumentar o nível médio de produtividade do trabalho. Mas aí emergiria o velho conflito emprego-produtividade. Mas, nas condições atuais de declínio demográfico que enquadrará a economia portuguesa durante algumas décadas e de força de trabalho reduzida para rejuvenescer o mercado de trabalho, é a variável produtividade que pode mitigar os efeitos penalizadores do declínio demográfico sobre o produto potencial da economia portuguesa.

Em resumo, a interrogação colocada por João Moreira Rato não pode ser remetida para a família dos paradoxos. Há razões objetivas para que a melhor geração de sempre não chegue para abanar a inércia da produtividade. Mas isso não é razão para esmorecer na continuidade da qualificação da economia portuguesa. Aliás não vejo outra saída. O que teremos é de segmentar a análise e mostrar que essa inércia não existe para as empresas em que o peso do trabalho qualificado e a devida remuneração por essas novas qualificações caracteriza a estrutura empresarial.

O OCASO DE CLINT

Ontem resolvi celebrar o por alguns chamado “dia da libertação” com um regresso ao cinema. Hesitei entre os novos filmes dos anciãos Woody Allen (a caminho dos 86) e Clint Eastwood (91 anos), tendo optado circunstancialmente por este. Um filme inenarrável em termos de má qualidade, que ajuda a corroer a imagem que o ator que se foi tornando realizador nos foi deixando ao longo de uma carreira extensa e cheia de bons momentos (gosto, especialmente, do período entre a última década do século passado e a primeira deste, com destaque para “Imperdoável”, “As Pontes de Madison County”, “Mystic River”, “Million Dollar Baby”, “Gran Torino” e “Invictus”). Quase nada naqueles 105 minutos tem ponta por onde se lhe pegue, exceto talvez a banda musical (entre algum country e bocados de música tradicional mexicana) e uma ou outra passagem fílmica mais bela e um ou outro momento mais expressivo ou bem disfarçado de um homem carismático e que anda nisto há quase setenta anos. Não conhecendo o adaptado romance original, não consigo dizer se a sua má qualidade contribui para o resultado ou se o resultado correspondeu a uma desvirtuação da sua melhor qualidade. Mas o resto é deprimente, pelo basismo quase infantil com que é relatada a história, pela péssima direção de atores que revela, pela visível e dominante preocupação de proteger as irremediáveis marcas do envelhecimento de Clint (apesar da sua louvável vontade de resistir) em detrimento de uma maior intensidade do produto. Em suma: uma perda de tempo completamente não recomendável e que, quase como na questão das sondagens, me faz duvidar dos críticos e da sua possível agenda (designadamente no tocante àqueles que respeito e mais influenciam as minhas escolhas, como Jorge Leitão Ramos, João Lopes ou Mário Augusto) — salvou-se a intenção e o resto do dia!


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

ALMA EUROPEIA, PROCURA-SE!

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be) 

Chegou o Outono e chega agora Outubro, é tempo de voltarmos a refletir sobre os assuntos mais sérios que nos envolvem enquanto coletivo. E de entre eles sobre a nossa construção europeia, já velha de 64 anos (lembram-se da canção dos Beatles?) e ainda tão cheia de lacunas e contradições, para não dizer de contracorrentes e boicotes internos, por um lado, e de ausência de estratégia por falta de um verdadeiro sentido europeísta comum (será que alguma vez poderá existir?), por outro.



Mesmo sendo justo reconhecer que os esforços da atual Comissão e da sua Presidente já produziram alguns resultados interessantes (sem prejuízo das suas nuances defensivas, a mutualização da dívida que subjaz ao lançamento dos fundos nacionais de recuperação é disso uma boa e não exclusiva ilustração, embora seja de temer que corresponda a uma exceção confirmativa de uma regra dominantemente nacionalista e autoritária que já se pressente a voltar ao de cima e que acabará por assentar arraiais). Matérias inquietantes e relativamente às quais talvez possamos ir arrumando melhor as ideias e ajustando as expectativas enquanto esperamos pelo governo alemão tripartido que há de surgir e pelo programa de continuados “equilíbrios” que o mesmo necessariamente ostentará...

CICLOS POLÍTICOS

 

                                (Capa do Expresso, de hoje)

(Com a flutuação que caracteriza o nosso tempo mediático, os casos do tiro no submarino que não é amarelo na batalha naval que envolveu ministro da Defesa, Primeiro-Ministro e Presidente da República e da fuga para uma estadia de papo para o ar de uma das figuras mais execráveis do sistema financeiro português rapidamente se sobrepuseram ao debate de estarmos ou não na lenta passagem para a antecâmara de uma viragem de ciclo político. Como os casos assinalados se limitam a reiterar dimensões cavernosas dos nossos sistemas político e judicial que tardamos em erradicar, talvez valha a pena continuar a discutir a questão dos ciclos políticos em curso. É o que vou tentar fazer hoje, sobretudo porque começam a surgir novos dados sobre os resultados eleitorais do passado dia 26).

Há quem pense, e se calhar não pensa mal, que a genuinidade das eleições de proximidade pode por vezes ocultar mudanças mais amplas no eleitorado nacional, sem deixar de meditar na abstenção que mesmo em contextos de luta local se manifesta. Julgo que é o Miguel Sousa Tavares hoje no Expresso que destaca na eleição de Lisboa que, para além da impressão suscitada no eleitorado pelas características pessoais de Medina e Moedas, à dose de bruto de política nacional que António Costa transportou para as locais respondeu o eleitorado lisboeta com uma tomada de posição política e que deve ser assim lida.

De facto e apesar da relativa folga política de desgaste que a gestão da pandemia trouxe ao governo, contrariando frontalmente os analistas políticos que viam um António Costa destroçado passado o pior da pandemia, a verdade é que talvez valha a pena não abandonar a ideia de desgaste. Não de um desgaste pandémico, mas de desgaste político associado à própria governação, que existiria com ou sem pandemia. E, sobretudo devido à mediatização da política que se faz em Portugal, desgaste também pela sucessão sem fim de tiros no pé suscitados por situações menos ponderadas, resolvidas mais pelos pés e não pelas cabeças. O rol dessas situações que deixam mossa e marcas não caberia neste post, sucessivamente prolongada pelos dois casos referidos no início deste post e já com um outro na calha, anunciando dificuldades de relacionamento entre Pedro Nuno Santos e o ministro das Finanças. E já não falo no moer lento que a TAP irá trazer à governação, tudo porque não ousamos questionar a ideia de companhia de bandeira.

Tudo isto vai moendo a governação. E o tempo conta em política, especialmente num eleitorado como o nacional que é intuitivo e que, ao contrário do catastrofismo de tiradas parvas e tontas como a da mexicanização do regime, mantém viva a sensibilidade quanto aos momentos em que a alternância democrática se sobrepõe a tudo o resto.

E há ainda a errada maneira como o PRR saltou para a campanha eleitoral. Atenção que não alinho com aqueles que, transformados em virgens ofendidas, se insurgiram quanto ao modo como António Costa trouxe para a campanha o PRR. A importância do processo justificaria essa ênfase mas não com a perspetiva quantitativa da bazuca. O PRR pode trazer à economia e à sociedade portuguesa projetos bem interessantes para dimensões necessitadas de inovação e qualidade. Teria sido, assim, bem mais eficaz se o primeiro-Ministro tivesse vincado as transformações que o PRR pode gerar na economia portuguesa. Mas os assessores de comunicação e, está nos livros, a partir de um certo momento a entourage política mais próxima deixa-se subjugar pelas métricas da comunicação, só vê números à sua frente e espanta-me que um político experimentado como António Costa se tenha deixado ir nessa onda.

Em resumo, alinho com os que sustentam que os resultados de 26 de setembro são para ser lidos também na perspetiva dos sinais emergentes ou tendenciais para ciclos políticos diferentes. Quanto a Lisboa em si, a minha posição é a de que para uma maioria sociológica de esquerda clara que existe na capital as soluções políticas devem refletir essa maioria, como o já saudoso Jorge Sampaio intuiu e praticou com êxito. O perdedor Rui Tavares também o reconheceu na sua primeira crónica após eleições.

O tempo de preparação dessa viragem vai ser entretanto lento. Essencialmente porque à direita as questões não estão resolvidas. A tensão continua a existir. A direita mais jovem sai revigorada com a presença na campanha de Moedas de gente claramente associada a Passos Coelho e com fortes laços ao que chamo a direita Observador (não necessariamente a revanchista e desiludida da política que por ali escreve). É pura futurologia saber se Rio foi sincero na escolha de Moedas ou se cedeu a alguém próximo mais maquiavélico, não faço a mínima ideia. O que me interessa discutir é se Rio poderá ou não capitalizar e cavalgar internamente a vitória de Moedas como património. Tenho dúvidas que o possa fazer e talvez tenha de limitar-se a outros resultados que não o de Lisboa.

Por isso, compreendo bem os alertas de Lobo Xavier na Circulatura do Quadrado quanto à inconsistência ainda visível na ideia de alternativa para a viragem. Ou seja, a preparação do caminho que Rio fará até 2023 não vai ser concretizada com a pacificação interna que desejaria.

Quanto ao PS tem nessas condições tempo para se focar numa governação mais estruturada, transparente e focada em resultados que impactem a vida dos portugueses e sobretudo suster de vez a prática dos tiros nos pés.