quarta-feira, 2 de novembro de 2022

GLOBALIZAÇÃO DESCONCERTANTE OU DESCONCHAVO

 


(Já há algum tempo que não trazia os escritos de Martin Wolf no Financial Times a este espaço de reflexão. A evolução do pensamento de Wolf é curiosa pois começou por ser um fervoroso apaniguado da globalização para se transformar num dos críticos mais incisivos do atual estado de coisas do capitalismo. No seu último artigo para o Financial Times ele traz-nos elementos de análise que dão que pensar. Justifica-se por isso que retomemos neste espaço a sua inspiração.)

Os dois elementos de análise combinados justificam o título do post de hoje. A globalização tanto pode ser desconcertante nos seus efeitos (por exemplo o tema de reflexão de há poucos dias em que nos últimos 30 anos a desigualdade a nível mundial e a desigualdade país a país não coincidiram nos seus efeitos), como pode ser também um valente desconchavo.

No seu artigo (link aqui), Martin Wolf começa por registar uma regularidade histórica surpreendente: a todos os períodos de aprofundamento e intensificação da globalização sucederam períodos de desglobalização de efeitos por vezes devastadores. Problemas de geopolítica podem adensar a gravidade desses problemas e a natureza de desconchavo afirma-se.

Este é o ponto em que estamos. Estamos num período de sinais de desglobalização, não sabemos ainda se profundamente disruptivos ou se o mundo e os seus governantes serão sábios a ponto de evitar o pior. A história não pode ser interpretada deterministicamente. Mas as regularidades não podem ser ignoradas, avisam, mesmo que tenhamos de estar atentos aos novos contextos.

O segundo elemento, ainda que assente numa correlação que tem de ser olhada com cautela, pois pode não traduzir uma causalidade, sugere-nos um ponto interessante: entre as economias avançadas, os mais abertos ao exterior são os menos desiguais e, em contrapartida, os menos abertos tendem a ser os mais desiguais.

Sinais de desconchavo possível e elementos porventura desconcertantes, que estão em linha com a natureza contraditória da globalização. O que também corrobora a conclusão de parte da literatura da globalização que vê como pouco rigorosa a tentativa de estabelecer uma relação direta entre globalização e desigualdade, sem pelo menos ter em conta a mediação do progresso técnico.

O que aumenta a complexidade da compreensão dos tempos que atravessamos.

PUDERA!

Estamos em pleno momento “Web Summit”, uma dessas realizações típicas de um país que vive sentado em cima de um passado imperial (aliás cheio de ineficiências), que quer mas não pode e que insiste em parecer poder por via de uma fingida subida da parada (desta vez a tecnológica, necessariamente comprada a bom preço). O evento beneficia de um acordo estabelecido em 2018, mediante o qual é garantida pela CIL (Connected Intelligence Limited) de Paddy Cosgrave a sua organização em Lisboa durante dez anos com a contrapartida de investimentos anuais de 11 milhões de euros (sendo 3 municipais e 8 governamentais, através de entidades tuteladas pelo Ministério da Economia, com destaque para o Turismo de Portugal, o AICEP e o IAPMEI), ao que sempre acrescerão mais responsabilidades a serem nacionalmente assumidas (aluguer da FIL, festival gastronómico, Wi-Fi, equipamentos de palco, várias receções e a campanha promocional, entre outras) num total que Cosgrave um belo dia estimou em 24,5 milhões a serem suportados pelo Estado. E há também a não esquecer os custos extraordinários que em cada ano não podem deixar de se ir impondo, como os do ano corrente com relação a obras de expansão do recinto que, alegadamente por não estarem ainda implementadas, já levaram a Câmara de Lisboa a atribuir 6,3 milhões de euros à edição do ano em curso. Em suma, eu ainda gostava que alguém sério consagrasse um tempo a avaliar com cuidado e competência o retorno desta iniciativa em termos de imagem de marca e de divulgação do País, um retorno que começou por ser declarado como rondando um valor de 300 milhões (apesar dos 105 milhões a que chegava um estudo dedicado da Universidade do Minho) mas que é atualmente encarado mais modestamente em torno dos 50 a 100 milhões (deixo o cálculo de eventuais taxas ao leitor, muito naquela linha do “é só fazer as contas” com que António Guterres uma vez nos brindou). Não duvido que o evento obviamente contenha vários tipos de realizações meritórias ― que não as inenarráveis passagens e passeatas políticas a que temos assistido ao longo dos anos! ―, mas certamente que a sua consideração em sede de política pública não irá ao ponto de resistir a uma boa análise custo-benefício. Daí que Cosgrave se prepare para por cá ir continuando, circunstancialmente deixando cair alguns elogios a propósito de assim adoçar os pouco exigentes beiços dos nossos governantes.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

OS VENTOS DA POLARIZAÇÃO

 


(Não sei se os leitores deste blogue sentiram o mesmo que eu. Terão seguido em tensão permanente a evolução minuto a minuto dos resultados da segunda volta das presidenciais no Brasil, mostrando entre outras coisas as contradições de um país enorme – num país dilacerado pela desigualdade, tensão e violência, o sistema eleitoral brasileiro deu uma lição de modernidade ao mundo pela rapidez de publicação de resultados. Terão também experimentado a sensação estranha de alegria pela derrota do espantalho Bolsonaro e pela vitória da democracia, ou seja, de Lula da Silva, mas um cenário oculto de preocupação pairou sobre essa alegria. É sobre essa sensação estranha que gostaria de refletir hoje, aproveitando para criticar o cada vez mais tonto e inconstante João Miguel Tavares. Sim, com todas as dúvidas que o passado de Lula nos possa inspirar, a sua vitória difícil e apertada não é uma vergonha como o jornalista do Público nos quer fazer crer. É antes uma talvez derradeira esperança para o Brasil encontrar uma trajetória de dignidade, uma perspetiva mais inclusiva do crescimento brasileiro. O teste definitivo já está feito: o modelo de crescimento não inclusivo a que os apoiantes de Bolsonaro aspiram conduzirá inevitavelmente o Brasil à sua própria negação, ao caos, à barbárie e à defesa da desigualdade como ar que se respira ou água que se bebe para sobreviver. )

Tenho de vos confessar que hesitei bastante em referir-me ao momento que o Brasil tem vivido neste último mês. Nos bons anos da minha atividade universitária pude sem falsa modéstia considerar-me um estudioso da economia brasileira, particularmente do período apaixonante que foi a transição do modelo de industrialização altamente protegido da substituição de importações para a inevitável internacionalização do vastíssimo mercado interno brasileiro e consequente mudança do perfil de exportações brasileiras. Ilustres mestres como Celso Furtado (do qual assisti por acaso a uma aula na Sorbonne), Maria da Conceição Tavares, Aníbal Pinto, Fernando Henrique Cardoso e outros acompanharam-me nesse processo. Algumas hipóteses universitárias se colocaram de visitar o Brasil em trabalho mas quis a vida que não se confirmassem e como também em turismo nunca se proporcionou essa possibilidade fui-me afastando do conhecimento cúmplice da economia brasileira. Progressivamente, foi-se enraizando a ideia de estranheza explicativa face aquele modelo, eu próprio polarizado entre duas visões da sociedade brasileira, a que nos chegava via televisão e a que nos era oferecida por gente praticante do amor e vivência do Brasil como Alexandre Lucas Coelho (Vai Brasil de 2013, Tinta da China e Deus Dará de 2016 também da Tinta China continuam a ser as minhas principais inspirações).

As eleições de domingo passado oferecem-nos uma sociedade brasileira que culmina a evolução de todos estes anos. Meio por meio como o dirão os próprios brasileiros, a imagem simultaneamente perfeita mas também trágica da polarização em torno de um modelo desigual. Quando situações deste calibre se instalam, as diferenças em torno do que fazer e como fazer esbatem-se e formam-se dois grupos: o dos que por mera sobrevivência não querem abdicar da sua posição no topo social e da distribuição do rendimento e o querem prolongar por todos os meios possíveis (a ponto de poderem abdicar da democracia) e os que protagonizam a parte mais desfavorecida que se estão a marimbar para a eventual corrupção se conseguirem assegurar a sobrevivência diária e alguma quota de esperança para os seus filhos. Não quero crer que todos os brasileiros apoiantes de Bolsonaro se revejam na sua figura e nos seus métodos. Para muita gente, Bolsonaro é meramente instrumental, foi o que se pôde arranjar para assegurar a reprodução do status quo da desigualdade, do crescimento não inclusivo e da irresponsabilidade ambiental. Do mesmo modo, nem todos os que votaram Lula no domingo se reconhecem no passado do PT (em meu entender uma coisa é a corrupção institucionalizada de que o PT se aproveitou para financiamento do partido, outra diferente são os deslizes pessoais de Lula). Mas compreenderam que o valor da defesa dos valores da democracia cantava mais alto do que a recriminação de Lula.

A isto pode chamar-se a tempestade perfeita da polarização, que está declaradamente instalada no Brasil e também nos EUA, anunciando tempos difíceis para a preservação dos valores e dos métodos democráticos.

Desafios ciclópicos de governação vão colocar-se. Não ignorando os tempos turvos que irão formar-se até à tomada de posse de Lula da Silva e a entrada em funções do seu governo, de novo vai ser necessário criar uma mínima base inclusiva. O próprio Bolsonaro já em desespero de causa nos últimos dias da contenda eleitoral teve de engolir as suas ideias de que não havia fome no Brasil e aumentar apoios sociais. Com um Governador pró Bolsonaro na Amazónia e outro apoiante do derrotado em São Paulo (o emergente Tarcísio), mas muitos mais, temos uma ilustração das dificuldades que vão colocar-se à governação. No caso da Amazónia, uma externalidade para todo o mundo, os pesados interesses da desflorestação e do agro-alimentar intensivo só em meu entender poderão ser travados com um grande apoio mundial à preservação da Amazónia, se é que nestes dois meses o faroeste da sua exploração não irá intensificar-se para lá do não-retorno. Dificilmente o governo de Lula poderá arcar sozinho com essa responsabilidade.

Em síntese, o mundo democrático estará com os olhos postos no Brasil para encontrar elementos válidos e credíveis para responder a esta questão: como é que se sai virtuosamente de uma polarização extrema, do tipo meio por meio?

 

DA FINITUDE

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 

É objetivamente normal mas subjetivamente desesperante a sucessão de desaparecimentos ou manifestações de doença que de modo crescentemente cíclico se vai abatendo sobre nós (uso o plural majestático para significar toda uma geração que se vai tornando a mais envelhecida). Não há grandes consolos possíveis ou imagináveis quando vamos conhecendo ou experienciando situações dramáticas ou tendencialmente dramáticas a afetarem familiares, amigos, colegas ou simples conhecidos (e só em outubro foram múltiplos os casos...); é “a lei da vida” a que ninguém escapa, dirão os mais positivos ou realistas, uma lei inexorável que devemos procurar ir contornando serenamente enquanto o limite parecer longínquo ou arrastável. Porque, e a verdade também é essa, a criação de condições de vida e saúde conducentes a um significativo prolongamento vital (fenómeno a que vamos assistindo à escala global, com especial incidência nos países desenvolvidos e, consequentemente, a nível nacional ― após evoluções muitíssimo marcantes e relativamente rápidas, a nossa esperança de vida à nascença situa-se atualmente em 80,72 anos, sendo de 77,67 para os homens e de 83,37 para as mulheres) não deixa de vir acompanhada por enganosas esperanças de vida dos estatisticamente idosos (19,35 anos para o total dos cidadãos portugueses com 65 anos, sendo de 17,38 para os homens e de 20,80 para as mulheres) em virtude de tais esperanças de vida surgirem fortemente limitadas pelas deficientes e constrangedoras capacidades sobrantes em termos físicos e/ou intelectuais para que o cidadão possa levar uma vida de essencial normalidade ou disso próximo (a expectativa de vida saudável aos 65 anos anda em torno dos 7,3 anos em Portugal, um valor que fica ainda 3 anos abaixo da que se observa na média europeia). O que vale por dizer quanto as questões da geriatria ainda carecem de muita intensidade em ciência e de uma balanceada dose de aprofundamento, sempre na procura de compatibilizar uma desejável extensão das fronteiras do saber com a necessidade de evitar que fantásticas e inequívocas conquistas humanitárias não venham a desembocar em tragédias pessoais e sociais difíceis de suportar e enfrentar.