terça-feira, 5 de dezembro de 2023

ISRAEL: O MASSACRE COMO ESTRATÉGIA

(Jeff Danziger, http://www.nytimes.com)

Pouco tempo para “blogar” neste dia intenso em atividades. Fico-me, por isso, por uma referência mais ao que nos chega do Médio Oriente, designadamente ao recrudescer da chacina israelita na faixa de Gaza, agora no sul do território. Surgindo como único elemento de alguma esperança o cansaço e aparente afastamento que as autoridades americanas vão evidenciando em relação ao extremismo inconsequente do atual governo de Israel, liderado por Netanyahu e comandado por inconcebíveis radicais de diversa ordem. O tempo escasseia de uma forma visível e algo tem, por isso, de acontecer forçosamente ― com a União Europeia fora de jogo e o resto do mundo sem grande espaço de manobra (excluindo um mundo árabe que ainda não encontrou um rumo mas pode estar em vias disso), chegarão os louváveis esforços de Biden e Blinken para que uma solução milagrosamente possa emergir?

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

FRACOS SINTOMAS

 

O “Expresso” sai agora à Sexta-Feira mas eu, como seu assinante, acedo normalmente ao seu conteúdo à Quinta, antes de me deitar. E há algumas leituras quase obrigatórias que tendem a não escapar logo nessa noite, como sejam as das colunas do Diretor (João Vieira Pereira) e de Miguel Sousa Tavares. Nem sempre concordo com os escritos de qualquer dos dois mas neles reconheço qualidades que aprecio, como as da frontalidade e da independência. Esta última edição do jornal foi uma de alinhamento, designadamente nos respetivos parágrafos finais, ambos algo desligados do tema que é tratado centralmente para largarem um breve recado que aqui não quero deixar de registar, um em relação à posição adotada pelos dois improváveis apoiantes moderados de Pedro Nuno Santos (Francisco Assis e Álvaro Beleza) ― “cambalhotas políticas” que “às vezes quase que doem”, “cada uma [das explicações] é mais incompreensível e contraditória do que a outra” e “a vida partidária está cheia de intimidades não frequentáveis” ― e o outro em relação às promessas de Luís Montenegro no congresso do PSD ― “é eficiente [tentar comprar votos com promessas que não sabe se terá condições para cumprir], mas diz muito pouco sobre o que quer de facto para o país”. Dois momentos inspirados que inteiramente assino por baixo e sem necessidade de quaisquer acrescentos, independentemente de poder ser verdade que os primeiros estejam do lado certo (i.e., vencedor, embora interno) e de o segundo estar provavelmente a caminho de vir a ser o próximo primeiro-ministro de Portugal. Porque uma coisa é uma coisa (Pedro Nuno derrotar Carneiro) e outra coisa é outra coisa (Montenegro derrotar Pedro Nuno), estando eu convencido (falo menos em termos voluntaristas do que em termos analíticos, tentativamente objetivos à luz de uma interpretação sempre subjetiva da realidade político-social que temos em presença) de que, apenas se a primeira coisa não ocorrer, é que a segunda coisa pode tornar-se mais duvidosa. Voltarei ao assunto.


(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

UM COMBOIO DE PROBLEMAS

 


(Por repetidas vezes, tive oportunidade de neste blogue chamar a atenção para as peripécias suscitadas pela modernização e eletrificação da linha do Minho, a tal que passa no horizonte da minha varanda de Seixas em que frequentemente trabalho. Chamei então a atenção para a manifesta desproporção existente entre as expectativas criadas em torno desse projeto, que os diferentes poderes políticos não contrariaram ou arrefeceram. Volto ao tema para dar conta de um excelente artigo publicado pelo Diário de Notícias sobre a matéria, sugestivamente intitulado de “Comboio de problemas na Linha do Minho após intervenção de 83 milhões de euros”. A importância da questão não se prende com a relação sempre complexa entre a dimensão do investimento e as realizações alcançadas, mas antes pelo que ela revela de total descoordenação entre a CP, empresa que opera na linha e as Infraestruturas de Portugal (IP) que gere a infraestrutura. Nas condições de cultura existente em matéria de coordenação e cooperação entre diferentes serviços públicos, que é deficiente para não dizer pornograficamente atentatória do interesse público, mantive desde o início fortes dúvidas quanto à divisão entre as dimensões operacional e infraestrutural. O relato da notícia do DN é um verdadeiro monumento de identificação de incongruências e de descoordenação absoluta entre os dois interesses. O jornalista do DN informa que “a CP alega que informou a gestora da infraestrutura [IP], antes da abertura da linha, sobre as características necessárias para a realização segura e eficiente da operação”. As incongruências que saltam à vista no dia a dia dos utentes que usam a linha a partir de Nine até Valença são um chorrilho de incongruências. E pelos vistos nenhum dos responsáveis políticos (deputados pelo distrito de Viana do Castelo, autarcas, Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, membros do Governo) se dignou prestar alguma atenção ao acompanhamento do investimento, apetecendo perguntar o que é que realmente andam a fazer.)

As incongruências identificadas pela notícia do DN preenchem as condições de manual destas coisas. Em alguns apeadeiros, como a sempre atrativa Moledo, o modelo de locomotiva elétrica mais utilizada e as três carruagens que integram as composições de circulação mais local não cabem nos 80 metros de comprimento da plataforma. Noutros casos, só ao longo da plataforma é possível subir ou descer em segurança das composições, já que fora dela será necessário uma escada ou um exercício de ginástica para especialistas o poder fazer. E há mesmo quem diga que em situações de grande afluência de público os comboios têm de parar duas vezes no mesmo apeadeiro para garantir que se desça ou suba em segurança.

A notícia do DN desenvolve depois novos elementos de estranheza sobre sinalização eletrónica com implicações no tempo de viagem e que ajudam a perceber porque razão o investimento não se traduziu em melhorias visíveis de tempo de viagem-

Já tinha percebido que aquela ideia peregrina de ver o Alfa Pendular a circular na linha do Minho a partir da minha varanda tinha sido uma das mais gloriosas patranhas políticas por Terras do Alto Minho. Coordenei em tempos um estudo para o Eixo Atlântico em que demonstrava a não fiabilidade dessa promessa. É uma promessa que já lá vai. Mas agora é pedir menos. É tão só exigir que a eletrificação dê origem a toda a obra necessária de adaptação de plataformas para que a mudança seja consequente e beneficie e não penalize a qualidade de vida do utente do serviço da Linha do Minho.

Entretanto, o Celta Porto-Vigo continua a fazer-se em material diesel e melhorias de tempo de viagem nem vê-las.

E assim se vê a desvalorização do transporte ferroviário e a incompetência das empresas majestáticas.

 

sábado, 2 de dezembro de 2023

NA MORTE DE KISSINGER

 

Não quero deixar passar em claro neste espaço o facto da morte do marcante político e diplomata centenário que foi Henry Kissinger. Um desaparecimento que não deixou ninguém indiferente, fazendo capas nos jornais de todo o mundo e trazendo à tona memórias de toda a espécie da sua boa e má influência na geopolítica mundial e em variadas evoluções políticas nacionais (com destaque para o seu apoio ao regime de Pinochet no Chile). Obituários à parte nas suas diferentes dosagens de foco no grande e experiente diplomata (architect of US cold war ties with China and Soviets, como refere o “Financial Times, ou powerful voice who reshaped the world, como escreve o “The Times”) ou no seu lado controverso e polémico, quiçá sombrio e até sinistro (fazendo com que Ana Gomes tenha assim intitulado o seu pequeno artigo dedicado no “Público”: “Descanse em paz, se puder”). De toda a maneira, e sendo certo que “a História o julgará” a seu tempo e com a devida distância, nada apagará a perceção da importância e da influência de Kissinger ao longo de todas estas décadas e, portanto, a obrigatoriedade de estudar desapaixonadamente o que foi a sua complexa prática em termos políticos ou de aconselhamento e o que foi explicando detalhadamente nos múltiplos e diversificados escritos que deixou.


(Gallego & Rey, http://www.elmundo.es)

A POESIA DE BOLAÑO

 


(A Quetzal acaba de publicar numa edição de grande apuro estético a Poesia Completa do escritor latino-americano Roberto Bolaño, que constitui um evento de grande alcance cultural, tamanhã é a importância do escritor e da sua obra meteórica. Nascido no Chile e tendo a cidade do México como residência a partir dos 15 anos, Bolaño acabou os seus dias de uma vida relativamente curta na Costa Brava, Catalunha, produzindo uma sequência de obras revolucionárias, das quais Detetives Selvagens e 2666 são expoentes a que ninguém fica indiferente. Pelo que pude compreender das páginas iniciais desta bela obra e do excelente prefácio do escritor Manuel Vilas, o conhecimento da poesia de Bolaño é essencial para perceber o sentido último da sua obra, em que a sua obsessão pelos fracassados, falhados, perdedores, desenraizados, gente que parece ter morrido antes do tempo constitui a sua marca de água. Essa obsessão pelos angustiados que a leitura compulsiva do 2666 evidencia, não houve romance que tivesse lido com tanta avidez, só adquire pleno significado com a leitura desta poesia, por vezes sobre a forma de prosa.)

É muito curiosa a ideia de que só os poetas são incorruptíveis, sobretudo devido ao facto de não terem dinheiro, não terem nada, começando por ser o maior exemplo de despossuídos. A poesia segundo Bolaño emerge assim como uma forma de compreender a miséria e a promiscuidade que grassa no Terceiro Mundo, terreno fértil para a identificação de toda a série de perdedores e despossuídos.

Mas, apesar disso, capaz de nos proporcionar o lirismo de um Amanhecer à Bolaño:

“Amanhecer

Acredita, estou no meio da minha casa

à espera que chova. Estou sozinho. Não me importa

acabar ou não o meu poema. Espero a chuva,

enquanto tomo café e olho pela janela uma bela paisagem

de pátios interiores, com roupa estendida e imóvel,

silenciosas roupas de mármore na cidade, onde não há

vento e apenas se escuta ao longe o zumbido

de um televisor a cores, observado por uma família

que, a esta hora, também toma café reunida à volta

de uma mesa: acredita: as mesas de plástico amarelo

desdobram-se até à linha do horizonte e mais além:

até aos subúrbios onde estão em construção edifícios

de apartamentos, e onde um rapaz de 16 anos sentado sobre

tijolos vermelhos contempla o movimento das máquinas.

O céu no momento de pausa do rapaz é um enorme

Parafuso oco com que a brisa brinca. E o rapaz

Brinca com ideias. Com ideias e com cenas paradas.

A imobilidade é uma neblina transparente e dura

que lhe sai dos olhos.

Acredita: não é o amor que aí vem,

mas a beleza com a sua estola de almas mortas”.

Espero que vos desperte o apetite da leitura.

 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

RESPIRAR É PRECISO!

 
(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

Abro o último mês do ano de 2023 com duas referências absolutamente incontornáveis para os tempos que correm, já pensando especialmente no 2024 que está aí à porta e se anuncia como pleno de incerteza(s) e perigo(s) de toda a espécie, seja cá por dentro do nosso incorrigível retângulo, seja nessa caixinha de permanentes surpresas que é a Europa que nos envolve, seja no resto de um mundo cada vez mais desregrado que nos ameaça como de há muito não vinha ocorrendo. Um quadro largamente tremendista sem dúvida mas infelizmente marcado por um indesmentível realismo, um quadro cuja responsabilidade maior só pode ser assacada à má qualidade de intérpretes desafinados e um quadro em que importa cada vez mais que procuremos deixar o ar circular à nossa volta para assim melhor resistirmos a tentações e capturas provenientes de quaisquer dos fanatismos destrutivos que incessantemente rondam os nossos espaços vitais.


(Riki Blanco, https://elpais.com)