quinta-feira, 30 de outubro de 2014

DESTA VEZ É DIFERENTE



Invoco aqui o título da marcante obra de Kenneth Rogoff e de Carmen Reinhart sobre a história das crises da dívida para, com a ajuda da preciosa capa do The Economist da semana passada, me situar no declínio, que se espera não inexorável, da construção europeia.
As coisas parecem não ter ligação entre si mas as evidências mostram que é sobretudo após a crise de 2007-2008 que se acentua o declínio de um edifício cuja estrutura não estava manifestamente preparado para situações de tal stresse. 
 Confiança nas instituições europeias (% de respostas de confiança)
(Fonte: Eurobarómetro)
Por ângulos e perspetivas diversos, temos neste blogue sublinhado que o rei vai nu na política macroeconómica europeia, onde a imaginação do faz de conta parece não ter limites. Hoje, gostaria de trazer para a perceção do declínio uma outra característica, ainda mais perversa. Cecchetti e Schoenholtz no Money & Banking destacam um gráfico algo aterrador sobre a evolução dos níveis de confiança na União Europeia e nas diferentes instituições europeias. O aprofundamento de um projeto como o da União Europeia não sobrevive a um tal nível de desconfiança nas instituições que deveriam promover a adesão confiante ao projeto.

“NO ES SUFICIENTE”


A pretexto do mais atual caso de corrupção em Espanha, que já levou Rajoy a um pífio pedido de desculpas aos seus concidadãos – será moda nova? –, junto abaixo uns quadros muito reveladores recentemente dados a conhecer pelo “El País” (jornal que hoje respondeu, em editorial, ao perdão do presidente do Governo nos termos que fazem o título deste post).

O primeiro gráfico serve de bom enquadramento para situar a Espanha – e o seu semelhante vizinho Portugal – no fundo da tabela do ranking com que a “Transparency International” mede comparativamente a perceção da corrupção na Europa. Quanto ao segundo bloco de informação, relativo a Espanha e forçosamente extensível a Portugal em termos pouco diversos, é chamada a atenção para o enorme incremento recente da preocupação dos cidadãos com o fenómeno da fraude e da corrupção e para o facto de serem já de 95% a percentagem de cidadãos que considera que o problema é recorrente (“habitual”) no país (65% referenciando o mesmo como “muito habitual”).

A grande diferença entre o cá e o lá estará, do meu ponto de vista, na maior eficácia da Justiça espanhola. Ainda assim, também por lá são bem mais visíveis o interesse pelo tema e as pressões no sentido de o confrontar com uma abordagem séria – que passa largamente pela questão dos partidos políticos e da sua organização e financiamento – persistindo nós mergulhados nessa “apagada e vil tristeza” que tanto nos entorpece...


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

AVÓS SKYPE



Há uma forte controvérsia sobre o alcance da comunicação digital em termos da relevância do “face to face”. Há quem pense que por mais sofisticada que a comunicação digital possa apresentar-se ela nunca substituirá a comunicação presencial que resulta da interação entre duas pessoas, olhos nos olhos, frente a frente, expressiva, cheia de primeiros, segundos e terceiros sentidos, por vezes imperfeita, mas física, plenamente física. Mas há quem pense que, por via da comunicação digital, sobretudo a que se concretiza entre grandes grupos de pessoas, há aspetos em regra imputados ao “face to face” presencial que podem transmitir-se apenas com a presença digital e não com a irredutibilidade física. É o caso, por exemplo, do ruído e mexericos artísticos (buzz na expressão anglo-saxónica), crucial como material informativo de algumas indústrias culturais e que está demonstrado circula em redes de comunicação digital que não se concretizam sob a presença física dos que nela participam.
Esta é a expressão da teoria. Vejamos agora uma aproximação ao tema por via da afetividade.
Sempre que a vida profissional e familiar nos permite estadias mais prolongadas em Lisboa aproveitamos essa benesse do tempo para conviver mais diretamente com o crescimento fascinante do nosso neto Francisco. Nesses momentos de rara fruição da vida, apercebemo-nos que a comunicação digital quase diária via Skype é permanentemente retribuída pela interação física desses raros momentos. Ou seja, a comunicação digital via Skype não substitui a fruição da interação física mas não a penaliza e mantém viva a chama do conhecimento.
Os avós Skype resistem, o digital permite manter viva uma presença que mesmo pontualmente a interação física permite depois atingir a fruição plena dos afetos.
Por estas e por outras razões, tenho uma perspetiva positiva da tecnologia, que não se circunscreve ao espantoso incremento de bem estar material.

SÓ PARA DESCONGESTIONAR...


(Kamagurka, http://www.levif.be)

O MOMENTO THATCHER DE CAMERON

(Morten Morland, http://www.thetimes.co.uk)

Alguém me questionava há dias sobre as razões que levaram Cameron a revoltar-se de modo tão declaradamente raivoso contra a União Europeia, que designou tão despeitadamente por this organization. De facto, as peças televisivas sobre o assunto – como lamentavelmente acontece, aliás, com frequência – limitaram-se a passar o ruído (i.e., as imagens da fúria do primeiro-ministro britânico em relação a uma alegadamente súbita produção de uma fatura de 1,7 mil milhões de libras a pagar pelo Reino Unido até inícios de dezembro) e a dispensar a explicação dos factos subjacentes. E, afinal, só teria bastado que recorressem aos dois parágrafos do “Financial Times” que abaixo se reproduzem com a devida vénia.