Esquecemo-nos demasiado frequentemente de saudar as mudanças sociais consentidas por grandes maiorias de cidadãos, como foi o caso da Suíça no último fim de semana a propósito da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo por quase dois terços dos votantes em referendo dedicado. De facto, as sociedades não avançam por saltos mas por maturações graduais de opções ditas fraturantes que acabam por virar facilmente aceites, quase naturais, a um dado momento do tempo. Olhando um pouco para trás, resulta reconfortante percecionar como tanta coisa mudou nesses anos passados! E, tão ou mais importante, quanto até as nossas convicções foram sendo lentamente moldadas e quanto em geral as pessoas normais assumem hoje tais matérias como fontes de tolerância e contributo essencial para a felicidade do outro.
terça-feira, 28 de setembro de 2021
QUANDO A PUBLICIDADE ESTÁ PARA LÁ DA BELEZA
(Não sei exatamente se é a primeira vez, acho que não é, que uma imagem de publicidade ocupa espaço neste blogue, tantos anos tem já esta minha indissociável ligação com este espaço modesto de reflexão, cuja criação foi decisiva para mitigar a tristeza algo depressiva provocada pelo abandono das minhas funções universitárias. Mas há imagens que me fascinam ao ponto de me apetecer escrever sobre elas. É o caso de toda a campanha concebida em torno da nova embaixadora da marca LONGINES, particularmente algumas das imagens mais belas que algum dia a publicidade ousou construir sobre o rosto de uma mulher. Bem sei que a perceção que construímos das imagens que nos fascinam é uma construção nossa, sugerida pelo talento de quem fotografa e amplificada pelas nossas fixações. Mas tudo isso adquire outra amplitude quando a personagem em foco é Kate Winslet).
Impõe-se desde já a explicitação de possíveis conflitos de interesses do ponto de vista do enviesamento que possa existir no que vou escrever. Kate Winslet é nos dias que correm, no meu entender, uma das mais profundas manifestações de identidade e personalidade femininas no cinema e na televisão contemporâneos. Bem sei que os mais puristas e também pessimistas me dirão que tudo é encenação, que a força identitária e de verdade que atribuímos a uma personagem somos nós que as concebemos a partir de uma representação figurada do real, neste caso da mulher e artista Kate Winslet. Dir-me-ão mesmo que a decisão imposta por Kate aos produtores e realizadores para não ocultar as “imperfeições” do seu corpo, designadamente nas filmagens de Mare of Easttown, faz parte dessa sedução construída, que tudo é encenação para nos fazer mergulhar nessa representação.
Mas o produto real daquilo em que toca aparece marcado por uma tal autenticidade que apetece dizer que se for encenação mergulhamos na mesma.
Tal como o aqui pioneiramente documentei, Mare of Easttown é das melhores coisas que tenho visto em televisão como forma de representação de uma comunidade no coração de uma América desesperada. A agente policial Mare ocupa toda aquela representação como se arcasse nos seus ombros com todos os problemas daquela comunidade, percebidas por ela através dos problemas da sua própria família. O prémio de interpretação atribuído a Kate Winslet (e também a Evan Peters como ator secundário) é uma curta recompensa pela qualidade da série limitada e se fosse júri teria valorado mais Mare of Easttown do que o Gambito de Dama, embora esta me tenha impressionado bastante.
Tenho lido tudo o que se me tem oferecido em termos de entrevistas e testemunhos de Kate Winslet e só tenho encontrado coerência, testemunhos inteligentes sobre o valor da cooperação entre mulheres e percebo que a experiência de contracenar com Kate seja difícil de esquecer, aliás como o revelam todos os seus companheiros de cena.
As imagens belíssimas que a LONGINES nos faz chegar nos jornais que folheámos ou nos écrans dos IPADS que se iluminam para nos facilitar a leitura consagram algo que resumi no título deste post, “quando a publicidade está para lá da beleza”.
Acho que está na altura de substituir (ou de acrescentar?) a bela fotografia de Frankie Avedon da Catherine Deneuve que me faz companhia no escritório de Matosinhos com uma imagem da Kate Winslet, pode ser da Longines não faz diferença.
segunda-feira, 27 de setembro de 2021
A INCOMPREENSÍVEL ESTRATÉGIA DA SOBERBA PERDEU LISBOA
A noite eleitoral de ontem teve um certo ar de thriller, sobretudo por via do que ia sendo o crescendo de expectativa quanto ao resultado de Lisboa mas também quanto a vários outros apuramentos (como os da manutenção ou não da maioria absoluta de Rui Moreira no Porto e de Basílio Horta em Sintra ou o caso de Loures na particular e pouco mutacional disputa inter-geringonça, ou seja, PS-CDU).
O sucedido em Lisboa, que nos termos concretos em que sucedeu traduz uma situação absolutamente improvável e excecional (quase irrepetível, mesmo), quase abafou tudo o mais e desta vez com bastante legitimidade para um forte concentracionarismo lisboeta. Após uma noite dormida em cima deste resultado, sou dos que pensam que ele, sendo mérito de Carlos Moedas, é essencialmente demérito da estratégia geral de campanha do PS e do modo como esta foi ainda mais soberbamente interpretada por Fernando Medina. Vale o que vale mas assim leio a coisa, aliás em linha com alguns avisos que aqui fui deixando com alguma veemência.
Alguns comentários mais: (i) será de começar por sublinhar que o PS, como António Costa procurou focar, permanece como o maior partido nacional e autárquico (mantém 149 presidências, ou seja, num pouco menos de 50% dos 308 concelhos; é o único que elege presidentes em todos os distritos e regiões autónomas, quando ao PSD faltam Beja e Setúbal; governa uma maioria de câmaras em 10 daquelas 20 entidades, partilhando ainda essa maioria em mais 3); (ii) importará, contudo, matizar o atrás afirmado, salientando o facto da quebra relativa do PS (de 162 para 149 presidências, uma perda de 13) por contraponto de afirmação posicional do PSD (de 98 para 114, um ganho de 16); (iii) de notar também que, dos 32 municípios em que os respetivos presidentes saíram ao longo do último mandato ou ficaram impedidos de se candidatarem por terem completado três mandatos, foram 13 aqueles em que se verificou uma mudança de cor política (40,6%), assim validando parcialmente o discurso de Rui Rio em torno da oportunidade de alternâncias maiores em tais casos (4 deles a Norte e todos desfavorecendo o PS: Miranda do Douro, Barcelos, Mondim de Basto e Castelo de Paiva); (iv) outras considerações relevantes são as da continuação de uma queda por parte do PCP/CDU (de 24 a 19 presidências), as de uma total manutenção do peso (obviamente limitado) do CDS (6 presidências) e as de uma consolidação do fenómeno das candidaturas independentes (que elegeram 20 presidentes, sendo os special cases do Porto e de Oeiras adicionáveis de outros a merecerem investigação e análise (Ílhavo e Mealhada em Aveiro, Figueira da Foz em Coimbra, Caldas da Rainha e Marinha Grande em Leiria, Guarda e Manteigas na Guarda, São João da Pesqueira em Viseu, entre outros); (v) por fim, a ideia de um bom sintoma daquele fracasso estratégico traduzida no número de capitais de distrito ou regiões autónomas sob comando do PS e do PSD, a saber: 9 em 2017 e 6 em 2021 contra 8 em 2017 e 11 em 2021, respetivamente.
Não me querendo alongar muito para além do já dito, acrescento apenas uma referência àquelas que foram as maiores surpresas (ou talvez não...): as quatro capitais de distrito conquistadas pelo PSD (Lisboa, Coimbra, Portalegre e Funchal), a vitória do PS em Loures e quatro afirmações independentes simbólicas mas bem distintas entre si (Ílhavo, Guarda, Figueira da Foz e Marinha Grande). Mais em detalhe, referiria ainda o reforço do PS na Área Metropolitana do Porto (conquistando Espinho e Vila do Conde e passando a deter a presidência de 11 das 17 câmaras municipais em causa, o que deveria ser encarado como um adicional fator de responsabilidade para o partido na dimensão da gestão e do planeamento territorial) e os restantes ganhos e perdas do PS (além daqueles dois, e na dimensão positiva, Valença e Cerveira no Alto Minho, Póvoa de Lanhoso e Vizela no Ave e Freixo de Espada à Cinta no Douro; na dimensão negativa, Castelo de Paiva no Tâmega e Sousa, Mondim de Basto no Ave, Lamego no Douro, Barcelos no Cávado e Miranda do Douro, Mogadouro e Vila Flor em Terras de Trás-os-Montes).
E termino com uma modesta súmula pessoal de vencedores e derrotados (seis mais seis), tal como leio o balanço do ocorrido e por ordem descrescente de significância e merecimento/demerecimento (ainda que desconsiderando muitos heróis menos populares que tiveram sucessos específicos, entre vitórias em locais sociologicamente desfavoráveis e vitórias estrondosas): Carlos Moedas (Lisboa), Mário Constantino (Barcelos), José Manuel Silva (Coimbra), Inês de Medeiros (Almada), João Campolargo (Ílhavo) e Carlos Silva Santiago (Sernancelhe), por um lado; Fernando Medina (Lisboa), Manuel Machado (Coimbra), Suzana Garcia (Amadora), Tiago Barbosa Ribeiro (Porto), Ângelo Moura (Lamego) e Humberto Cerqueira (Mondim de Basto), por outro. E tenho dito.
QUE ESTRANHA NOITE!
(Mudanças de Câmaras Municipais, Jornal Expresso)
(Não imaginei, e pelos vistos não fui o único, que apesar da dança habitual dos ganhos e perdas e das mudanças de coloração em alguns municípios, a noite eleitoral autárquica fosse marcada pela vitória de Carlos Moeda em Lisboa e pela primeira derrota amarga que Fernando Medina sofre na sua trajetória política. Ainda que sociologicamente Lisboa continue claramente à esquerda, com sete vereadores do PS, dois da CDU-PCP e um do Bloco de Esquerda contra 7 da coligação liderada por Moedas, ninguém pode ficar indiferente à vitória deste último e sobretudo ao seu mapa de vitórias nas freguesias da capital, que deve merecer melhor análise. Tenho a sensação que a matéria de reflexão está para além de um simples post, mas ainda assim vale como primeira reflexão).
Com exceção de Lisboa, todas as novas vitórias relevantes do PSD e da sua coligação com o CDS (bem escondido nesse agrupamento) praticamente que as anunciei nas minhas reflexões pré-eleitorais.
O caso de Coimbra era bem evidente. A chama de governação e de inventiva municipal de Manuel Machado (extensiva à sua paupérrima liderança da Associação Nacional de Municípios) já há muito se tinha extinguido e o PS arriscava muito na promoção dessa candidatura. Mesmo que José Manuel Silva não seja propriamente alguém entusiasmante, percebia-se que a capitalização dos seus resultados de 2017 com uma coligação mais alargada iria assumir a imagem de mudança que a longa carreira de Machado (aliás sem preparação de sucessão) já era incapaz de protagonizar. Surpresa no resultado apenas na dimensão da diferença e na amplitude da maioria absoluta. Coimbra representava muito das mudanças que o PS necessita de empreender, não as realizou a tempo e o coelho da cartola com a nova Maternidade e a lengalenga da transferência do Tribunal Constitucional não dariam para compensar essa falta de mudança.
Antecipei também o caso de Barcelos. A gestão política do antigo Presidente da Câmara Miguel Costa Gomes foi desastrosa, agravada com as questões judiciais em que se envolveu. A Câmara Municipal sempre enfrentou problemas de organização interna que datam dos tempos em que o PS arrebatou a câmara ao PSD. Trata-se de um concelho difícil dado o seu número elevado de freguesias e a coligação PSD-CDS integrava ainda um dissidente do PS que vendeu cara a sua derrota interna. Uma vitória anunciada como se previa e aconteceu.
O mesmo se diga em relação ao Funchal em que a estabilidade organizativa da Câmara Municipal nunca foi alcançada após a coligação liderada pelo PS ter arrebatado a Câmara ao PSD, agravada pela saída de Paulo Cafôfo para a liderança do PS regional e para o Parlamento Regional. Pedro Calado é um peso pesado da política madeirense, vice-Presidente do Governo Regional de Miguel Albuquerque com grande visibilidade e o eleitorado regional aprecia esta capacidade de assumir riscos na vida política. Vitória talvez menos anunciada do que em Coimbra, mas antecipável por razões lógicas e sobretudo pela incapacidade de colocar a Câmara do Funchal a um nível organizativo similar ao que Albuquerque conseguiu atingir antes da ida para a liderança regional. Percebe-se que a Cafôfo se tenha demitido da liderança do PS regional, o que significa que prossegue o calvário dos socialistas na Madeira em busca da credibilidade para uma alternativa regional.
Claro que há outras vitórias do PSD, com Câmaras arrancadas ao PS, que têm algum significado, mas ele é manifestamente local, como é o caso de Miranda do Douro, Mondim de Basto, Mogadouro e Vila Flor, por exemplo. Portalegre é uma vitória a registar, arrancando a Câmara a um força independente. A vitória em Reguengos de Monsaraz é curiosa pelas peripécias em que o PS se colocou. Recorde-se que, depois da cena Covidiana na Misericórdia local, o ex-Presidente José Calixto foi proposto pelo PS a Évora, em que não conseguiu derrotar a CDU, abrindo o flanco a uma vitória do PSD em Reguengos.
Mas tudo isto é infinitamente menos importante que a vitória simbólica em Lisboa, a qual paradoxalmente pode ser, por um lado, o fôlego que Rui Rio necessitava, sobretudo pelos termos em que foi conseguida (contra sondagens e comentadores tão ao gosto do que Rio gosta de cavalgar), mas também pode indiciar o início de uma mudança, sobretudo se a projeção política de Carlos Moedas for por ele utilizada para mais largos voos. Por agora, os críticos de Rio ficaram caladinhos que nem ratos e estarão assim muito provavelmente até às eleições de 2023. O que impressiona neste resultado de Lisboa é a ambivalência da sua interpretação. Rio pode invocá-la ao seu jeito, mas ao fazê-lo não pode ignorar que o candidato vitorioso é o que os seus detratores imaginaram para o PSD, alguém mais cosmopolita, Comissário Europeu e sobretudo com o banho inconfundível do poder da Gulbenkian.
A noite é também estranha para o PS e para António Costa. Com perda controlada de algumas Câmaras (perdeu mais do que ganhou), a noite seria bem mais calma se não fosse a derrota em Lisboa. Algumas vitórias importantes, arrancadas seja à CDU seja ao PSD, Valença, Espinho, Vila do Conde (regresso ao poder com derrota de Elisa Ferraz), Póvoa de Lanhoso, Penela, Sertã, Montemor-o-Novo (quebrando um longo domínio da CDU), Monchique, Vila Real de Santo António, confirmações de grande expressão em Matosinhos e Vila Nova de Gaia, a imagem final fica ensombrada pela falta de intuição coimbrã, pela trapalhada no Porto que lhe valeu um péssimo resultado, mas Lisboa é que representa o murro no estômago.
Não tenho o domínio da gestão autárquica em Lisboa para tentar analisar o significado da derrota de Medina. O que eu sei é que Medina não tem, por muito que o valorizemos, o estofo que tinha Jorge Sampaio e este não enjeitou a coligação à esquerda para vencer a sua aposta em Lisboa. Não tenho ainda elementos que me permitam compreender a transferência de voto que penalizou a candidatura de Medina. Mas não me custa admitir que a qualidade da proposta de João Ferreira e da CDU para a questão da habitação terá custado a Medina alguma perda de votos. Até porque a passagem de Manuel Salgado pela gestão deixou marcas negativas e sabe-se lá se o dossier da informação veiculada para as embaixadas internacionais em Lisboa deixou também marcas.
Estive de sexta a domingo de manhã pela zona de Alcântara, uma freguesia em que o PS venceu em toda a linha, com um projeto de gestão de freguesia cuja qualidade foi largamente sufragada nas urnas. O que terá então acontecido nas outras freguesias em que houve significativa transferência de voto? Espero que o PS o compreenda, pois trata-se de eleitorado a ter em conta nas eleições de 2023 e como sabemos é essencialmente este eleitorado urbano, mais o novo eleitorado jovem que passa a votar, que costuma estar por detrás das alternâncias.
O que me parece evidente é que, quaisquer que sejam os contornos da governação até 2023, com ou sem remodelação governamental, dificilmente António Costa não poderá ir a jogo, no que pode ser o combate eleitoral mais tremendo da sua já longa política. E também dificilmente poderá ir a jogo sem pensar no que de simbólico e premonitório poderá esta derrota de Medina representar.
Por fim, quanto à merecida vitória de Rui Moreira, a sua não maioria absoluta tem também uma forte implicação: uma eventual perda de mandato ditada por questões judiciais (que eu espero que não aconteça) colocaria a governabilidade da Câmara em situação difícil.
domingo, 26 de setembro de 2021
ÂNGELA
(Patrick Leger para o NYT)
(Depois de uma visita de fim de semana ao afeto dos meus netos de Lisboa, escrevo praticamente em cima do encerramento das urnas na Alemanha, por conseguinte sem qualquer perspetiva de resultados. Mas esse é provavelmente o contexto ideal para escrever umas notas sobre a saída de Ângela Merkel, com aquela interrogação inevitável de não saber o futuro político da ex-Chanceler).
A sensação que tenho ao escrever algumas notas sobre o significado da personagem e da sua saída da cena política alemã, pelo menos da mais imediata, tem muito de paradoxal. E vou tentar explicar esta sensação estranha.
Quem sou eu, é um facto, para emitir aqui algum juízo condenatório ou menos favorável da Chanceler alemã. Ângela Merkel fica para sempre ligada a momentos difíceis do projeto Europeu e muitos de nós se interrogam sobre o que poderiam ter sido os rumos de tais acontecimentos sem a presença de Merkel. Isto não significa que a Chanceler tenha sempre conduzido o barco como o desejaríamos que fizesse, num equilíbrio altamente desafiador de olhar para dentro e segurar os cavalos nesse plano e velar em simultâneo pela defesa do projeto Europeu, evitando que ele ruísse ou que desse origem a um puzzle balcânico entre as suas principais forças. Pode mesmo discutir-se se esse equilíbrio é viável e se a contenção dos cavalos no plano interno não terá sido a melhor forma de viabilizar algumas decisões no plano europeu. Apesar de ter visto a extrema-direita AfD entrar no Bundestag, a verdade é que a força eleitoral extremista foi contida e espera-se que os resultados de hoje confirmem esse estancamento. No plano da União, Merkel demonstrou alguma rigidez em entender o problema da crise das dívidas soberanas na Europa do sul e não se livra do pensamento cínico dos que afirmam que Merkel só o compreendeu depois de por a salvo os bancos alemães envolvidos nesse sobreendividamento.
Mas talvez a sua decisão mais corajosa, sobretudo pelo que ela representou do ponto de vista de coragem política interna e assomo de dignidade no plano europeu tenha sido a de dar o peito às balas abrindo as fronteiras alemãs aos refugiados sírios, numa escala face à qual todas as outras liberalidades de outros países são insignificantes.
Mas se é esta a minha avaliação então qual a razão para o referido pensamento paradoxal?
Devo confessar que um longo artigo de opinião no New York Times internacional deste fim de semana, assinado pela jornalista Anna Sauerbrey (link aqui) teve o condão de explicitar com rigor de evidência o tal sentimento de paradoxo que tinha intuído, não com a credibilidade da jornalista americana.
A ideia central que tinha já intuído e que agora o artigo explicita em toda a extensão de implicações é que o papel central desempenhado por Merkel nos destinos da União Europeia acontece com um conjunto relativamente elevado de pontos que Merkel deixa enrolados e por desatar.
Vejamos, por exemplo, o da sua sucessão política na CDU. Falava-se hoje que o candidato da CDU, Armin Laschet estaria em frança recuperação nas sondagens e a verdade é que uma sondagem à boca das urnas lhe dá um número de mandatos superior ao do SPD, com a mesma percentagem de votação popular (25%). Quer isto significar que, qualquer que seja o resultado final, a sucessão de Merkel está em banho maria e muito provavelmente Laschet vai ser mais um nome numa longa transição.
Depois se é verdade que a decisão de Merkel quanto à imigração foi notável, não podemos ignorar que ela foi acompanhada de um bizarro acordo com a Turquia de Erdogan, cuja sustentabilidade parece hoje comprometida, não só porque o parceiro não é de confiança, mas também pelo facto da dimensão do fenómeno ser excessiva para o poderio do tampão turco. Aliás, a ameaça permanente de Erdogan usar o acordo e a sua interrupção como arma de arremesso é uma bomba de relógio permanente.
Para além disso, em matéria de geopolítica externa, Merkel deixa dois volumosos rabos de palha, que resultam em grande medida do próprio posicionamento alemão. A sua relação com a Rússia e com a China, dada a dimensão da economia alemã, introduzem no simulacro de política externa europeia uma infinidade de contradições que devem por a cabeça em água ao pobre do Borrell. O problema do pipeline do gás natural Nord Stream 2 e a forte dependência que a indústria alemã apresenta da China são permanentes desafios à reformulação do papel da Alemanha nas cadeias de valor globais, já não falando nos problemas de desconfiança gerados relativamente à indústria automóvel alemã com o escândalo da falsa regulação das emissões dos motores alemães.
E claro que a brevidade acrítica com que Merkel acolheu as posições do seu ex-ministro das Finanças Schäuble quanto às políticas de austeridade representará sempre um ponto no seu curriculum que não encontrará consenso, tal como aliás a gestão pandémica o revelou.
Mas a verdadeira dimensão do paradoxo é a perceção de que apesar todas estas heranças de difícil digestão, quando imaginamos o contrafactual de nos interrogarmos o que teria sido este momento de evolução da União sem Merkel alguns arrepios incómodos percorrem-nos a espinha dorsal.








