(Confesso que o Mundial dos irritantes períodos de hidratação começou por me interessar bastante menos do que outras edições no passado. Provavelmente pelo modelo utilizado e porque o senhor Infantino é uma daquelas peças que gostaríamos de ver banidas do futebol, facto agravado com a sua cumplicidade face a Trump. Mas também porque já não há pachorra para aguentar as trapaças comunicacionais de Roberto Martinez e sobretudo a sua bajulação doentia de Ronaldo, que estimo deva ter um valor económico apreciável, que aproveite, pois futebol também é negócio e chorudo. Mas, à medida que a prova foi evoluindo, a minha costela emotiva-intelectualizada com que gosto de ver e sofrer o futebol foi encontrando muita matéria de reflexão na sucessão de resultados. E é disso que venho dar conta provavelmente num dos raros escritos que o Mundial me vai suscitar. A revolta dos emergentes é talvez um título demasiado ousado para a fase da prova em que nos encontramos, mas a força, dinâmica e resultados com que os países da África e da América Latina se têm apresentado vêm ao encontro da metáfora dos emergentes, que é relevante para as minhas reflexões em torno do desenvolvimento. É verdade que tivemos a eliminação precoce do Uruguai, mas isso deveu-se em meu entender ao fenómeno Bielsa que já não é fenómeno nenhum e cuja inventiva futebolística já nem fogacho é e aos azares de um destemperado Muslera, guardião seguro de outros tempos, mas que, ao que parece, os ares da Turquia fizeram bastante mal.)
O futebol de Marrocos já nos tinha deliciado em provas anteriores e Portugal provou desse veneno. Com um novo selecionador, não tão arrojado como o anterior, Marrocos apresentou-se de novo em grande nível neste Mundial e depois da vitória sobre os Países Baixos de Koeman, que é hoje mais uma tangerina do que uma laranja mecânica, a interrogação está sem saber até onde pode este emergente chegar. Estimo que bastante longe.
Mas a eliminação que melhor se ajusta à minha metáfora dos emergentes é a desconcertante vitória nas grandes penalidades do Paraguai sobre a Alemanha, seleção que evidenciou no jogo de ontem uma baixa inteligência de jogo ao insistir naquela catadupa de cruzamentos dirigidos a uma defesa coriácea, onde Gustavo Goméz e Canale representam aquele tipo de defesas relativamente aos quais a segurança de Lenglet, recentemente contratado pelo SLB, constituirá sempre uma réplica imperfeita. As palavras do selecionador do Paraguai, o argentino Gustavo Alfaro, ajustam-se como uma luva ao que eu pretendo transmitir com a ideia da revolta dos emergentes: ““Eles formam-se em academias de primeiro nível na Europa. Nós viemos da terra colorada, jogando descalço nessa terra, com o sacrifício dos pais para levar a criança ao treino.”
O prodígio de superação que a equipa do Paraguai deu prova só é compreensível nesse contexto de emergência difícil. A equipa está praticamente limitada a uma defesa de grande consistência e a dois artistas que carregam a equipa às costas, Enciso e Almirón, vendo-se o selecionador obrigado a jogar com um avançado centro tipo torre, já com 35 anos, para substituir os espaços deixados por lendas como Roque de Santa Cruz e Óscar Cardoso. Mesmo depois de Enciso se ter lesionado, a equipa não quebrou e foi suficiente para superar a falta de inteligência alemã, sendo visível que o emproado Nagelmann, selecionador alemão, nunca entendeu a substância do futebol que tinha pela frente.
Estou ciente que os exemplos de Marrocos e do Paraguai são ainda insuficientes para dar consistência à minha metáfora. Fico assim na expectativa de que a República Democrática do Congo, a Costa do Marfim, o Gana de Carlos Queirós e Cabo Verde possam ainda dar um ar da sua graça para dar corpo e consistência à força dos emergentes. Estou convicto de que se o Irão não tivesse sido tão mal-tratado desportiva e socialmente neste Mundial, a equipa de Taremi poderia ter acrescentado força à minha metáfora.
Com a força dos emergentes já evidenciada e com a evolução significativa que se observa noutros mundos que não a Europa (a qualidade dos EUA, a impetuosidade da Austrália e a garra do Japão que poderia ter perfeitamente estragado a vida ao Brasil de Ancelotti), percebe-se que a sustentação do futebol europeu neste Mundial está agora limitada à França, a minha favorita, à Espanha e à Inglaterra. Não quero ser velho do Restelo, mas só um milagre de Fátima ou alguma onda sobrenatural poderá erguer a equipa das quinas a esse estatuto de salvaguarda dos incumbentes europeus.
O fenómeno dos emergentes prolonga a metáfora cada vez mais próxima da essência dos processos de desenvolvimento. Potencial de talento enorme combinado com processos eficazes de transferência de conhecimento (a experiência dos que jogam em ligas mais evoluídas e a influência de treinadores estrangeiros que trouxeram conhecimento prático e organizativo) explicam a revolução operada. O que contrasta com o nosso caso. Talento não escasseia, temos formação do melhor que há por esse mundo, mas uma incapacidade organizativo e de liderança impede que o talento individual se transforme em força coletiva.
Metáfora ousada e que corre o risco dos resultados sequenciais do Mundial atraiçoarem toda a sua consistência.
Mas quem não arrisca …

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