sábado, 20 de junho de 2026

HUGUINHO E LUISINHO OU DOIS MESTRES DA TÁTICA POLÍTICA

 

Poucas vezes a política à portuguesa nos deu algo tão patético como o ocorrido entre anteontem e ontem na Assembleia da República. Reterei para sempre a imagem da compenetrada gritaria de Hugo Soares (“por muito que vos custe, amanhã esta proposta vai ser aprovada”) e o seu ar embaraçado (ver acima) ao constatar que o voto do “Chega”, no tocante ao pacote laboral do Governo, foi o contrário do que tão confiantemente anunciara, ou seja, como o brilhantismo da sua alegada inteligência política se converteu numa manifesta esperteza saloia que não visivelmente prevaleceu na hora da verdade.
 
André Ventura, esse “verdadeiro artista”, fez o que sempre faz: esconder o seu jogo até ao fim, dando crescentes sinais de estar a ser seduzido pelas exibições parolas do primeiro-ministro e do líder parlamentar do PSD e proclamando em berrarias insuportavelmente ressonantes a sua razão e coerência (por exemplo, que “o Chega fez o que o PS devia ter feito também e não fez neste Parlamento, que era trabalhar em prol dos trabalhadores e trabalhar em prol de quem precisa”), para acabar a retirar o tapete aos néscios que o vinham acarinhando sem perceberem que era a habitual lógica do escorpião que estava em execução.
 
Protagonistas menores mas igualmente merecedores de uma menção desaprovadora foram o “verbo de encher” Paulo Núncio – cuja irrelevância e reacionarismo despropositado são de bradar aos céus! – e toda aquela franja de deputados que à Esquerda aplaudiu comovida e copiosamente o desfecho de uma votação que apenas a inconsequência de Ventura tinha permitido. Ficou assim patente o desfasamento desta gente em relação a uma realidade em que já pouco conta e consegue mexer, situação que lhes deveria merecer um profundo “exame de consciência” e, seguramente, uma profunda alteração de estratégia e posicionamento.
 
Enfim, quando é deste modo que as coisas acontecem e não se tendo qualquer capacidade efetiva para influenciar esse miserável rumo, como disfarçar a vergonha alheia e fingir que não se tem nada a ver com tanta “infelizmência”?

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