António Barreto (AB) brindou-nos ontem na sua coluna “Grande angular” do “Público” com um texto (“Artificial é, inteligente é que não!”) pouco menos do que genial, além de possuidor de um tom e conteúdo espirituoso (para não dizer brincalhão e zombeteiro, palavras que casam menos com qualquer descritivo, mesmo que justo, sobre a situação do País). Trata-se de uma análise feita pelo autor às 27 páginas da inenarrável moção de estratégia apresentada por Luís Montenegro ao 43º Congresso do PSD (“Portugal Maior” – onde é que eu já ouvi isto?), notoriamente uma obra elaborada com recurso a uma ferramenta de inteligência artificial de má qualidade e/ou utilizada por gente incompetente (também politicamente) – cito: “mesmo com a ajuda da inteligência artificial ou de qualquer outro dispositivo, foi necessário que alguém lesse e alguém aprovasse”.
Há situações, e já aqui dei conta neste espaço de algumas, em que mexer estraga. Razão pela qual limito este post à reprodução de alguns excertos de teor mais pitoresco ou mais risível, sem prejuízo de recomendar aos nossos frequentadores uma mais do que justificada leitura integral.
AB começa por sublinhar o incompreensível uso em 90 vezes da expressão “Portugal Maior” e o “resultado catastrófico” de uma “lengalenga burocrática e proclamatória”, “sem pensamento nem projeto” – o que resume, mais adiante, numa frase elucidativa: “raramente se escreveu moção tão tola e tão recheada de lugares-comuns”. A inspiração em Trump, patente no título, não se limita ao mesmo, abunda em toda aquela artificialidade. Embora, no final das contas, o saldo não resulte brilhante. Escreve a propósito AB: “Apesar da linguagem aparentemente grandiosa, a moção traduz um miar temeroso e envergonhado. Parece um bichano invejoso que, ao lado do leão, se limita a gaguejar ‘eu também!’, ‘nós também queremos!’, ‘nós também somos!’”
Deliciosos são os parágrafos seguintes, um assimilando o texto da moção à escrita cuneiforme – assim: “O texto recorre a expressões de delicado sabor, tão expressivas como a escrita cuneiforme! A moção propõe: Ampliar Portugal. Potenciar Portugal. Desbloquear Portugal. Transformar Portugal. Reformar Portugal. Além de querer fazer de Portugal um hubintercontinental. Os seus autores querem, naturalmente, criar um Portugal mais português, mais europeu, mais atlântico e mais lusófono. E inevitavelmente fazer de Portugal um país mais seguro e mais resiliente. As ameaças são tão aterradoras quanto as boas intenções. Ampliar? Potenciar? Receia-se o pior. Dá vontade de alertar os portugueses. ‘Fujam, que eles vêm aí!’” – e o outro arrasando-o pela sua completa vacuidade política – assim: “São mais de 20 páginas de lugares-comuns, de frases feitas e de slogans sem significado. Não tem uma proposta nova, uma orientação especial de trabalho para o país ou para o Governo, nem sequer para o partido. Afirmam-se desejos impróprios em adolescentes, quanto mais em pessoas maduras. Querem Portugal maior em tudo, no trabalho, na ciência, no desporto, na cultura, na justiça e na saúde. Maior na economia, nas empresas e na tecnologia. Maior na igualdade e no bem-estar. Maior em tudo. Maior do mundo. Além de maior, pelo menos 90 vezes, Portugal estará no centro e no foco, enquanto as pessoas estarão no centro, expressões diletas dos partidos. Não só as pessoas em geral, mas também os estudantes, os trabalhadores, os empresários, os professores, os idosos e os doentes. Todos estarão no centro do país maior.”
O sociólogo não se exime também de introduzir uma apropriada nota responsabilizadora de quem tiver votado a moção em causa no contexto do Congresso, o que é especialmente justo dada a muita boa gente que o fez sem qualquer rebuço ou palavra de ressalva: “É bom que os congressistas saibam que as suas decisões vão ficar nas biografias, com uma mensagem explícita: ‘Votou a moção de estratégia do Congresso de 2026’! Será pior do que um chumbo a Português ou a Desenho nos exames do secundário! Quem for capaz de votar esta moção depois de a ter lido é capaz de tudo.” Que se encham, pois, de uma vergonha insanável todos quantos, especialmente os militantes do partido laranja mais visíveis ou de pendor mais aristocrático porque para os outros “bacalhau basta” e, enquanto os lugares forem sendo distribuídos irmãmente em seu redor, é na postura de Hugo Soares que se reveem, encantados com tão intrépida macheza política.

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