terça-feira, 2 de junho de 2026

O SÍNDROME CHINÊS DA UNIÃO

 

(A China e a pujança do seu modelo industrial e dos seus avanços nas indústrias elétricas estão de novo a colocar as autoridades europeias de cabeça à roda. Depois de Trump e a sua camarilha mais próxima terem trocado as voltas à chamada aliança atlântica, a União Europeia regressa às interrogações de como tratar a ameaça chinesa. Os números não enganam e o défice comercial da Europa com a China não para de aumentar, sabendo nós que a conquista do mercado interno europeu por uma corrente contínua de importações chinesas não pode deixar de ter consequências para o modelo económico europeu. Já não é apenas a evidência de que as importações de produtos manufaturados chineses correntes ocupam um lugar de destaque na norma de consumo das classes desfavorecidas e médias europeias. Dizia uma nossa empregada no passado que ia ao El Corte Inglês dos pobres quando comparava alguma coisa nos grandes armazéns de produtos chineses que pululam nas nossas cidades e vilas. Agora é a evidência declarada de que em termos de indústrias elétricas e de produtos intermédios a dependência face às importações chinesas é flagrante, a Alemanha de Merz que o diga. O Conselho Europeu reunirá nos dias 18 e 19 de junho com este tema na agenda, embora com a preocupação manifesta de nunca referir a palavra China nos textos e nas discussões a realizar, para não abrir uma guerra comercial com as autoridades chinesas. Até porque é cada vez mais evidente que a posição de animosidade dos diferentes estados-membros relativamente à ameaça chinesa é bastante heterogénea, bastando para isso ter em conta os mais recentes posicionamentos da França, da Alemanha e da Espanha.)

Entretanto, começam já a ser visíveis os efeitos da decisão europeia de em 2024 ter aumentado os direitos aduaneiros sobre a importação de carros elétricos provenientes da China, em alguns casos atingindo valores em torno dos 30%, o que já é um forte incentivo de deslocalização para solo europeu de fábricas chinesas para produzir os referidos veículos.

Por estes dias, na sequência destes efeitos, o setor automóvel da vizinha Galiza esfrega as mãos de contentamento pela decisão assumida por um gigante elétrico automóvel chinês, a SAIC MOTOR, de localizar na zona de Ferrol – As Pontes a sua primeira fábrica de automóveis elétricos na Europa. Esta decisão vem na sequência da diplomacia económica de Pedro Sánchez, bastante agressiva na China, com contactos com os grandes produtores de viaturas elétricas, à qual se seguiu iniciativa complementar do Presidente da Xunta de Galicia Alfonso Rueda. Apesar das acusações de traição económica que o presidente do PP Feijoo dirigiu a essa viagem de Sánchez, partidos, partidos, negócios à parte, terá pensado Rueda. Os industriais galegos nunca perderam de vista a ambição de transformar a Galiza numa região de fortíssima predominância da especialização automóvel e a nova fábrica da SAIC MOTOR vem mesmo a calhar para dar um impulso nessa direção, criando um momentum suscetível de atrair novas iniciativas. Não ignoramos a atenção que as autoridades galegas e os meios de comunicação regionais têm dedicado à dinâmica automóvel no Norte de Portugal. Se é verdade que algumas dessas vozes clamam por uma região transfronteiriça orientada para a especialização automóvel, outras persistem na ideia da ambição de colocar a Galiza no mapa industrial europeu por essa via.

Entretanto, o que parece evidente é que se estivermos atentos ao parque automóvel elétrico que vai preenchendo as nossas estradas é cada vez mais difícil acompanhar o número de marcas chinesas que se perfilam diante dos nossos olhos. Não será obviamente o mesmo se essa diversidade resulta apenas de mercado de importações ou se começará a refletir a deslocalização da produção chinesa para a Europa.

A história da inovação tecnológica mostra, por exemplo, que a ascensão industrial da Coreia do Sul resultou de uma estratégia própria de inovação concebida e implementada através da transferência de tecnologia possível pelo mercado de importações, designadamente na indústria automóvel e nas telecomunicações. O mesmo poderá consumar a União Europeia se tiver unhas e orientação para isso, transformando a transferência de tecnologia em inovação própria. Não devemos, porém, esquecer um facto importante: hoje, a dependência europeia face aos consumos intermédios chineses que a produção de um veículo elétrico exige é bem mais forte do que a indústria coreana à época enfrentava. O que não é uma questão de somenos. Mas não estou a ver outra via.

 

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