(Partilho com o meu colega de blogue alguma necessidade de desanuviar a escrita neste blogue e estou a fazê-lo gozando um fim de semana um pouco mais longo do que o habitual em Seixas, apreciando esta calma relativamente fresca que se vislumbra da minha varanda fronteira ao Coura e a Caminha. Vou, por isso, concentrar-me em algumas divagações tenísticas, não para vos falar das minhas proezas e falhanços de atleta de 77 anos, mas para tirar partido do Roland Garros que se aproxima do fim. E que torneio mais atípico tivemos pela frente, de que o melhor indicador é a composição das meias-finais de singulares masculinos e femininos: Zverev-Mensik (3-1) e Arnaldi (desistência)-Cobolli, nos homens e Mirra Andreeva-Kostyiuk (2-0) e Chwalisnska-Shnaider (2-0) nas mulheres. Os astros inclinam-se para que finalmente Zverev possa ganhar um título de Grand Slam, mas a atenção à armada italiana. Mas o Roland Garros deste ano tem sido atípico atendendo sobretudo aos casos de derrocada total de alguns dos principais favoritos, o que sugere que os melhores do circuito estão a jogar nos limites da resistência física e psicológica. Era essencialmente sobre esse aspeto que gostaria de concentrar as minhas divagações tenísticas.)
Os dois casos mais salientes de verdadeiros “crashs” foram as derrotas de Sinner, nº 1 mundial masculino face a um dos irmãos Cerundolo argentino e a de Sabalenka, nº 1 mundial feminino face a Shnaider. São crashs de natureza diferente, o de Sinner mais físico do que psicológico e o de Sabalenka exatamente o inverso.
Nunca tinha visto num espetáculo tenístico algo de semelhante à quebra física de Jannik Sinner, no que poderia designar de verdadeiro colapso físico, como se o corpo tivesse perdido a capacidade de resposta e a vontade de reagir. A derrocada de Sabalenka é talvez o melhor exemplo de alguém que tem o jogo dominado, que começa a pensar noutra e que à mínima adversidade tudo se desvanece e entra numa espiral descendente de perda sucessiva de pontos (6-0 na última partida) após ter perdido a segunda partida que pensara ter dominada. O estado de desespero em que a nº 1 mundial ficou depois da derrota, afirmando que naquele momento a única coisa que lhe apetecia era abandonar o ténis, é dos casos de colapso mais incrível que o ténis alguma vez terá presenciado. São casos diferentes, mas ambos revelam, em meu entender, que os melhores estão a jogar no limite das respetivas vidas e forças.
Pelo meio tivemos ainda uma partida excecional para recordar o que podemos entender como um choque de gerações. O jogo que opôs o talentoso brasileiro João Fonseca e o consagrado e entradote sérvio Novak Djokovic é um monumento para análise futura, retratando fielmente o que é a luta destruidora entre o jovem emergente e o incumbente prestes a retirar-se. Fonseca, nas declarações de celebração de vitória, mencionou com toda a honestidade que Djokovic estava a destruí-lo com o seu jogo, tamanha foi a impetuosidade que colocou no jogo e que foi por muito pouco que não se viu ultrapassado pela força física e mental do sérvio. Não sei se Djokovic voltará a pisar uma vez que seja aquele court central de Roland Garros, mas mesmo perdendo para o talento inesgotável do brasileiro podemos considerar essa derrota uma despedida triunfal, tamanha foi a qualidade que o sérvio imprimiu ao seu jogo.
Mas o melhor estava para vir com a chegada à final de Maja Chwalisnka depois de uma vinda triunfal do qualifying. A polaca esteve em Portugal há pouco mais de um ano num daqueles challengers que são o tormento do (a)s jogadores (as) classificadas entre o 300º e o 500º lugares do ranking mundial, até conseguirem uma oportunidade de brilharem num torneio com alguma expressão monetária. Se há quem diga que o ténis pode ser mais um produto da cabeça (mental) do que do corpo (físico), então Chwalinska é um verdadeiro caso de estudo. A tenista polaca não tem aquilo que possa chamar-se um ténis espetacular do tipo por exemplo que Sabalenka apresenta. Mas a consistência defensiva que ostenta, e sobretudo a capacidade de concentração praticamente em todos os pontos de uma partida, explicam a sua meteórica vinda do qualifying e a sua chegada à final.
Posso enganar-me, e oxalá me engane, mas acho que Chwalinska não vai ter talento suficiente para superar a impetuosa Andreeva , treinada pela nossa conhecida Conchita Martinez. Mas se o fizer, então o Roland Garros deste ano ficará nos anais da atipicidade da grande prova parisiense.
A tarde de sábado está conquistada.

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