quarta-feira, 17 de junho de 2026

O “ACORDO”


(Rebecca Hendin, https://www.theguardian.com) 

O “acordo de paz” entre os EUA e o Irão é afinal um memorando de intenções, ademais suscetível de interpretações subjetivas ao sabor de interesses próprios. Acresce que as declarações ziguezagueantes, ensandecidas e infantis de Trump se somam ao sentimento de emancipação que se observa em Netanyahu depois de ter ludibriado o presidente norte-americano nas conversas que conduziram a que capitaneasse uma guerra estúpida contra Teerão. Não obstante, a comunicação social e os responsáveis políticos de todo o mundo preferem manter o seu foco na enganosa assinatura de uns papéis de teor indefinido que poderá ocorrer na Sexta-Feira num luxuoso complexo hoteleiro localizado na Suíça (mais concretamente na estância alpina de Bürgenstock, perto de Lucerna) que é propriedade do fundo soberano do Qatar liderado pelo respetivo Emir.
 
Porque a verdade é que, no final das contas, o regime ditatorial do Irão permanecerá ao contrário dos apelos de Trump à revolta do povo, o enriquecimento do urânio e o perigo nuclear ficarão menos amarrados do que o que estavam com o acordo assinado por Obama em 2018 que Trump denunciou por mero espírito de contradição face aos seus antecessores, o estreito de Ormuz abrirá, na melhor das hipóteses, como já acontecia antes dos bombardeamentos americanos, haverá restrição das sanções e desbloqueamento de ativos, serão libertados fundos para investimentos no Irão e Israel não cessará as suas desumanas agressões ao Líbano.
 
Num plano mais estrutural, o papel geopolítico da China resultará objetivamente reforçado – o que também não é indiferente aos desejos de Putin – e passos adicionais foram dados no sentido da impensável morte de uma “civilização” que nos habituáramos a encarar, apesar dos múltiplos momentos embaraçantes registados ao longo de décadas, como um garante da liberdade e de uma convivência tendencialmente justa e pacífica entre as nações do mundo – uma façanha empreendida pela dupla Trump/Vance com o inestimável contributo ativo de uns quantos radicais e de uma profundamente lastimável capitulação histórica do Partido Republicano.


(Ilias Makris, https://www.ekathimerini.com)

(Nicola Jennings, https://www.theguardian.com)

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