segunda-feira, 29 de junho de 2026

A VULNERABILIDADE URBANA FACE ÀS ONDAS DE CALOR

(Escrevo pela manhã, fresca e amena cá pelas bandas de Vila Nova de Gaia, e pode parecer um paradoxo escolher este tema para regressar ao contacto com os nossos leitores. Face a tantas insuficiências que continuam a caracterizar a organização da nossa vida coletiva, tendemos a não avaliar bem a benesse que representa poder dispor de uma proximidade marítima para nos garantir temperaturas mais amenas. Sem ignorar as implicações que a severidade climática está a produzir em territórios de forte ruralidade e baixas densidades demográficas, acentuando claramente as condições de pobreza que atingem esses países e territórios, a tendência quase inexorável para que as populações se concentrem em áreas urbanas transforma as Cidades, qualquer que seja a sua dimensão, em áreas fortemente vulneráveis à intensificação das canículas. Na nossa indiferença cada vez mais instalada relativamente à mortalidade gerada por eventos extremos, tais como guerras, terramotos, incêndios e perturbações atmosféricas de toda a natureza, passam despercebidas as mortes anómalas causadas pelas ondas de calor e que os registos estatísticos das condições de morbilidade começam a registar. A impreparação da organização das Cidades para responder com inteligência (natural) a este problema severo alimenta-se das febres imobiliária e turística e, embora o tratamento do espaço público ocupe hoje um lugar mais notório, a realidade é que as Cidades e as suas unidades de planeamento são desenhadas de modo a defender as condições de vida dos seus residentes desta nova ameaça.)

A revista Le Nouvel Observateur dedica ao tema uma capa e um título bem duro – “Canícula uma catástrofe muito política”, na sequência da onda de calor que varreu a França, com a bela Paris no centro das atenções e a proporcionar pela sua grandeza e notoriedade a relevância ao tema que cidades mais desconhecidas não conseguem aportar. Como a revista bem o assinala, sucessivos recordes de temperaturas máximas, maio e junho, estão a ser ultrapassadas, desafiando os mais incrédulos, que continuam a desdenhar da atenção que outros concedem à ideia de mudança climática. E no meio de tanta patranha de falso combate que anda por aí, a revista cita ainda a trapaça que foi anunciada de que o Campeonato Mundial de Futebol organizada pelo México, Canadá e Estados Unidos da América seria o campeonato mais verde e com menos emissões de todos os tempos. A realidade é que o evento irá gerar mais de 9 milhões de toneladas de emissões de CO2, não sendo difícil de imaginar que a pulverização do evento por 23 estádios constituirá o principal elemento gerador dessas emissões.

Trata-se de facto de uma catástrofe com dimensão muito política e isso compreende-se já que a impreparação coletiva para pelo menos mitigar esta ameaça climática resulta de adiamentos sucessivos em matéria de políticas públicas, seja de modelo económico e energético, seja de engenharia de construção e habitação, seja ainda de organização do espaço público, não impondo travões ao avanço do betão. A onda de calor que atingiu a França e que parece agora deslocar-se para leste veio tornar mais evidentes insuficiências que se conheciam e que foram sendo sucessivamente diferidas no tempo em termos de abordagem mais ambientalmente sustentável. Lentamente, tal como a revista o documenta, as cidades, Paris incluída, vão alargando as autorizações de zonas de banho natural de maneira a fazer do mergulho urbano uma via minimizadora do calor insuportável que por estes dias atingiu as grandes concentrações urbanas.

No seio desta longa controvérsia, os tecno-otimistas quanto às maravilhas do ar condicionado esfregam as mãos pela oportunidade de negócio, embora nos países mais abundantemente dotados de aparelhos de climatização, Japão e EUA, as reduções de mortalidade anómala em ondas de calor tenham descido apenas de 15 a 20%, o que nos deveria fazer pensar se a recuperação de formas mais passivas de combate à canícula não deveria suscitar mais atenção. A luta entre o avanço do betão e a resistência verde tem de fazer parte da equação, com a eficiência energética dos edifícios a assumir novos cambiantes de importância.

Nesta amanhã amena que se pressente a partir da varanda do meu escritório, que se perfila diante de dois pujantes liquidâmbares que não param de crescer, a amenidade da proximidade face ao mar é cada vez mais uma preciosidade.

O corpo que o diga.

 

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