sexta-feira, 26 de junho de 2026

O PATRIMÓNIO DO DOURO VINHATEIRO

 

(Ontem, 25 de junho, cumpriam-se 25 anos em que o Douro Vinhateiro decidira criar uma equipa liderada pelo Professor Bianchi de Aguiar da UTAD para elaborar a candidatura do Douro a património cultural mundial UNESCO baseada na singularidade da sua paisagem cultural, em cerimónia realizada no Palácio de Mateus em Vila Real. O Professor e Amigo Fontainhas Fernandes com o seu entusiasmo peculiar pelas coisas do Douro e de Trás-os-Montes em geral organizou ontem no mesmo cenário do Palácio de Mateus uma sessão de comemoração dessa data. No e-mail que definia o convite para a participação nessa reunião, dizia essencialmente o seguinte: “À medida que se aproxima o dia 14 de dezembro, data em que se assinalam 25 anos da inscrição do ADV na Lista do Património Mundial da UNESCO, importa recordar o significado desta distinção para a região e para o país.  Neste contexto comemorativo, a Liga iniciou um conjunto de iniciativas destinadas a homenagear personalidades e instituições que tiveram um papel determinante na preparação e concretização da candidatura à UNESCO. Recordar este percurso significa reconhecer a capacidade de mobilização coletiva que tornou possível alcançar um objetivo de enorme relevância para o Douro e para Portugal. No próximo dia 25 de junho, no Palácio de Mateus, serão lembradas figuras que tiveram um papel relevante na transformação do Douro, na elaboração do dossiê de candidatura e do estudo prévio que confirmou a viabilidade da inscrição do ADV na Lista do Património Mundial da UNESCO”.

Não tendo participado nessa candidatura coordenada pelo Professor Bianchi de Aguiar e com a minha ligação ao Douro essencialmente e apenas determinada pelo meu apreço e devoção pelos néctares que por lá se vão produzindo, vinhos do Douro ou Vinho do Porto, não seria seguramente por alguns estudos que coordenei para o IVDP sobre os vinhos da região demarcada que a amabilidade do Professor Fontainhas Fernandes poderia justificar-se. Imagino, assim, que o leitor mais assíduo deste blogue estará a questionar-se porque carga de razões terá sido este vosso Amigo convidado para essa sessão comemorativa?

A razão é simples. Nas minhas atividades de andarilho do planeamento, tive o privilégio e a experiência única de participar no estudo de viabilidade da candidatura atrás referida, num trabalho que envolveu a participação da Quaternaire Portugal por mim e pela Amiga Elisa Babo, dos meus amigos da Oficina de Planeamiento da Corunha e a Spidouro, com o dinamismo do Engenheiro Sarmento Beires e do Engenheiro Jorge Dias, alguém que mais tarde iria assumir importantes funções no IVDP e depois como gestor de uma companhia importante do Douro. Esse trabalho precedeu na prática a aceleração da candidatura que a equipa de Bianchi de Aguiar iria protagonizar e teve a particularidade de partir do vale do Douro na designação feliz do Douro-Duero para integrar o Douro espanhol até Soria, para ir definindo de forma gradual mas sustentada como o Douro Vinhateiro da região demarcada preenchia todos os requisitos que as exigências do conceito de paisagem cultural da UNESCO exigiam.

Tal como tive oportunidade de afirmar na intervenção que preparei para a sessão de ontem, no primeiro painel que Fontainha Fernandes preparou para a moderação de Luís Figueiredo, o referido estudo de viabilidade permitiu reafirmar com distinção o meu conceito lúdico do trabalho. Aprecio muito mais o durante destes trabalhos do que o após dos mesmos, mesmo quando têm algum impacto e recebem reconhecimento e notoriedade.

As duas ou três imersões no território do Douro-Duero e depois no Douro Vinhateiro português em particular representaram das experiências mais estimulantes de usufruição para estudo de um dado território, não só pela qualidade e proficiência profissional e científica da equipa que traçou a viabilidade da elaboração com êxito da candidatura, mas pela excelência estimulante de alguns temas que foram por nós trabalhados e objeto de debate acesso entre a equipa. Questões como a sustentabilidade global de uma paisagem cultural como a do Douro Vinhateiro, a relevância prospetiva da então incipiente concertação intermunicipal, que considerávamos essencial para a gestão futura da classificação de património mundial UNESCO, a emergência da excelência turística no Douro, também incipiente na altura, traduzida no quase nulo envolvimento turístico das grandes companhias do Douro, que algumas recebiam em helicópteros jornalistas influentes para glorificar tão só a qualidade do terroir ou a discussão do quadro regulamentar deveria ser criado numa região já abundantemente regulada pelas questões do vinho tornaram o trabalho numa experiência lúdica inesquecível.

A sessão em que participei homenageou personalidades que viabilizaram ou protagonizaram a preparação da candidatura e o sucesso da classificação UNESCO. O ainda em forma Luís Valente de Oliveira recordou a experiência vital do Plano de Desenvolvimento Rural Integrado de Trás-os-Montes (PDRITM) que coordenou a pedido do falecido Francisco Pinto Balsemão e insistiu na sua mensagem mais recente da relevância do conhecimento em todos os processos de desenvolvimento, que o PDRITM configurou. O Engenheiro Virgílio Folhadela, então Presidente da Associação Comercial do Porto, trouxe aos presentes a sua experiência de participação no processo enquanto instituição de promoção e suporte da candidatura. O Dr. Miguel Cadilhe, então Presidente da Fundação Rei Afonso Henriques (FRAH), com sede em Zamora, que encomendou o estudo de viabilidade em que participei e promoveu depois a elaboração da candidatura com financiamento exclusivamente português, trouxe um testemunho interessante sobre o contexto institucional de uma Fundação Luso-Espanhola apoiar uma candidatura que se focou num território singular português. Nesta intervenção, falou-se de alguma “hostilidade” por parte do patronato espanhol da Fundação, que terá suscitado dificuldades ao exercício de Miguel Cadilhe, que depois acabou por desvalorizar esses sinais de hostilidade.

O Professor Bianchi de Aguiar focou-se na odisseia do trabalho da sua equipa que haveria de conduzir a uma candidatura bem-sucedida. O Engenheiro Luís Braga da Cruz focou-se no seu curto período de passagem pela FRAH e na sua perspetiva a partir da CCDR Norte de como a candidatura e o seu êxito foram acarinhadas. O Engenheiro Sarmento Beires focou-se na experiência da Spidouro, mas também no modo como no interior da nossa equipa nos ajudou a palmilhar o terreno do Douro Vinhateiro e a compreender a sua singularidade. E, finalmente, José Luís Prado, o primeiro presidente espanhol da FRAH, falou sobretudo do trabalho atualmente desenvolvido pela Fundação, reafirmando a já referida lógica do Douro-Duero.

Uma tarde bem passada, talvez para meu gosto excessivamente voltada para o passado e menos para o futuro, ainda que compreensível pelo objeto da convocatória. Mas alguns temas que tanto apaixonaram a nossa equipa são ainda atuais, sobretudo a questão da sustentabilidade global do Douro, que talvez merecesse e justificasse uma reflexão daquelas experiências tão ricas, protagonizadas pelos participantes no painel.

 

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