quinta-feira, 18 de junho de 2026

DEZ HOMENS E UMA ESTÁTUA

A estreia da Seleção Nacional no Mundial de Futebol, empatando em Houston com a República Democrática do Congo e – pior! – realizando uma exibição confrangedora, apenas foi ultrapassada em péssimo pelas prestações inconcebíveis de Roberto Martinez e Cristiano Ronaldo (até nas declarações foram arrogantes, o primeiro dizendo que “falar em ganhar o Mundial não ajuda a ganhar jogos” (!!!) e o segundo dizendo que “o futebol é isto” sem olhar por si abaixo para assumir alguma culpa própria no acontecido). Esse é hoje o tema dominante das conversas de rua e dos comentários televisivos, já que a perplexidade tomou conta dos portugueses, tão afirmativos eles se mostravam de que a qualidade ímpar dos nossos os ia levar à vitória (como diz o hino) e tão depressivos logo ficaram após o jogo inaugural – o velho “oito e oitenta” em que somos mestres e que, insisto, tanto nos prejudica!
 
Voltando ao assunto, o que há que registar de mais lamentável é a completa ausência de autoridade da parte dos responsáveis federativos, começando pelo selecionador e acabando em Pedro Proença. Atirar areia para os olhos dos portugueses (e se há coisa de que não gostam é de que façam deles parvos!) como faz aquele ou silenciar o que está mal com declarações asseticamente triunfalistas (“Vai dar Portugal!) como faz o último, evitando incorporar nas suas decisões o que todo o mundo está a ver – veja-se abaixo o magistral título do “The Independent” a propósito do jogo, sublinhando ter-se tratado de “dez homens e uma estátua” e do sacrifício das ambições nacionais perante o ego de Ronaldo –, eis o que importa denunciar de modo inequívoco. Até para libertar os restantes jogadores, que foram generalizadamente mais humildes ao admitirem que não estiveram bem, das correntes com que CR7 e o seu patrono Jorge Mendes os coagem (em termos de presença pública ou de presença no campo).
 
Depois, e só depois, há outras coisas, como sejam um Bernardo Silva escalado para extremo-direito, um Vitinha a médio defensivo ou a ausência de um desequilibrador de apoio ao avançado-centro (que devia ser Gonçalo Ramos, como se infere do que mais atrás ficou dito). E mais ainda: uma convocatória com vários elementos inexplicáveis, como sejam a insuficiência óbvia dos quatro centrais convocados (ademais alguns em má forma física, como Rúben Dias ou Gonçalo Ramos), aquela ideia peregrina de que não se podem chamar jogadores que não estejam habituados a fazer parte do grupo (impedindo-se assim a presença do defesa-central, Tiago Gabriel do Lecce, ou do defesa-direito, Alberto Costa do FC Porto, que mais se destacaram ao longo da época) ou a secundarização das caraterísticas diferenciadoras de atletas como Ricardo Horta, Rodrigo Mora ou Mateus Fernandes (comparativamente a Rúben Neves, João Félix, Samuel Costa ou Gonçalo Guedes, todos estes menos submetidos a uma continuada pressão competitiva por força de atuarem na Arábia Saudita uns ou em clubes menores de Espanha outros).


Aqui chegados, o que mais importa proclamar é que não vale a pena chorar mais sobre o leite derramado. E se a vedeta CR7 – cada vez mais irreconhecivelmente assumida à medida que envelhece – não vai ceder o seu lugar assim à pressa e ninguém o vai forçar a aceitar o facto visível da sua crescente insignificância (talvez nem mesmo a D. Dolores!), espera-se que pelo menos que os restantes 25 que estão em Palm Beach possam ser dignos das carreiras internacionais que ostentam e, apesar de Martinez e Ronaldo, demonstrem em campo contra o Uzbequistão a classe que se lhes reconhece. Não porque vamos vencer a Copa mas porque temos uma imagem que temos de honrar pelos mínimos – e até pode suceder, porque Deus é grande e os brasileiros são nossos irmãos, que venha a ser o tal egocêntrico a surgir como concretizador de um golinho que o aproxime dos 1000 que tão obsessivamente persegue.

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