quinta-feira, 2 de julho de 2020

A GEOGRAFIA DOS NOVOS CASOS



(Analiso neste post a evolução do número de casos nos últimos 15 dias, mais propriamente entre 18.06.2020 e 02.07.2020, confrontando valores publicados pela DGS por região e por concelho. Os resultados não são propriamente novidade mas há alguns valores por município surpreendentes, sobretudo quando relativizados pela massa demográfica.

Vejamos, primeiro, a evolução dos dados regionais agregados:

Região
Casos 18.06.2020
Casos 02.07.2020
Variação em 15 dias
Variação por 1000 habitantes
Portugal
38089
42782
4693
0,46
Norte
17208
17624
416
0,12
Centro
3934
4121
187
0,08
Lisboa
15971
19656
3685
1,29
Alentejo
295
499
204
0,29
Algarve
448
639
191
0,44
RA Açores
143
151
8
0,03
RA Madeira
90
92
2
0,01

Aqui os resultados correspondem ao esperado. As dificuldades do controlo na região de Lisboa são evidentes e mesmo relativizadas pela massa demográfica o valor encontrado tem significado. Deste último ponto de vista, a evolução no Algarve é praticamente equivalente à média nacional.

Vejamos agora em termos de NUTS III, o mesmo tipo de quadro, embora com valores calculados a partir dos valores publicados por município que, como sabemos, não resultam no mesmo valor agregado (em parte porque não são registados valores inferiores a 3 casos e existem questões de alocação administrativa dos números não resolvidas.

NUTS III
Casos 18.06.2020
Casos 02.07.2020
Variação em 15 dias
Variação por 1000 habitantes
Alto Minho
487
495
8
0,035
Cávado
1943
1947
4
0,010
Ave
1529
1544
15
0,036
AM Porto
9574
9688
114
0,066
Alto Tâmega
45
46
1
0,012
Tâmega e Sousa
1619
1728
109
0,262
Douro
417
431
14
0,073
Terras de Trás os Montes
240
253
13
0,121
Oeste
419
597
178
0,496
Região de Aveiro
1663
1737
74
0,203
Região de Coimbra
1110
1135
25
0,058
Região de Leiria
253
292
39
0,137
Viseu Dão-Lafões
375
385
10
0.040
Beira Baixa
26
39
13
0,162
Médio Tejo
140
172
32
0,138
Beiras e Serra da Estrela
143
162
19
0,090
AM Lisboa
12873
16329
3456
1,207
Alentejo Litoral
59
78
19
0,203
Baixo Alentejo
121
120
-1
- 0,009
Lezíria do Tejo
502
611
109
0,458
Alto Alentejo
24
31
7
0,067
Alentejo Central
63
221
158
1,037
Algarve
382
587
205
0,468

Registei densidades dos novos casos apenas para valores superiores a 0.4, assinalados a amarelo. Como é óbvio, as densidades próximas de AML e do Alentejo Central têm um significado totalmente distinto, dadas as diferentes massas demográficas em presença. Mas dá para perceber o impacto do surto de Reguengos de Monsaraz e a também expressão da Lezíria. Os valores do Oeste são também relevantes refletindo a proximidade a Lisboa.

Analisei ainda os casos de municípios com densidades de novos casos por 1.000 habitantes superiores a 0,4. Aqui há alguns valores surpreendentes:

Municípios
Casos 18.06.2020
Casos 02.07.2020
Variação em 15 dias
Variação por 1000 habitantes
Póvoa de Lanhoso
62
71
9
0,419
Espinho
99
119
20
0,678
Cinfães
28
92
64
3,508
Armamar
0
3
3
0,520
Freixo de Espada à Cinta
0
3
3
0,910
Tabuaço
0
3
3
0,497
Alcobaça
66
106
40
0,747
Alenquer
123
155
32
0,726
Bombarral
17
30
13
1,035
Cadaval
15
22
7
0,512
Peniche
26
47
21
0,792
Sobral de Monte Agraço
11
20
9
0,845
Sever do Vouga
48
58
10
0,883
Figueiró dos Vinhos
9
16
7
1,257
Penamacor
0
5
5
1,052
Ourém
41
66
25
0,568
Fundão
5
19
14
0,528
Almada
516
604
88
0,521
Amadora
1336
1739
403
2,189
Barreiro
293
339
 46
0,612
Cascais
747
997
 250
1,170
Lisboa
2979
3573
 594
1,166
Loures
1548
1872
 324
1,516
Mafra
178
232
 54
0,637
Moita
211
315
 104
1,615
Montijo
138
169
 31
0,538
Odivelas
847
1141
 294
1,817
Oeiras
599
821
 222
1,251
Seixal
520
622
 102
0,608
Setúbal
130
200
70
0,608
Sintra
2105
2753
648
1,656
Vila Franca de Xira
607
793
186
1,310
Grândola
11
21
 10
0,683
Lezíria do Tejo
502
611
 109
0,458
Almeirim
22
33
 11
0,488
Azambuja
100
111
 11
0,484
Benavente
61
81
 20
0,654
Cartaxo
74
85
 11
0,461
Golegã
0
4
 4
0,749
Santarém
137
179
 42
0,731
Évora
31
56
 25
0,477
Redondo
0
9
 9
1,417
Reguengos de Monsaraz
6
125
 119
11,882
Albufeira
81
121
 40
0,963
Lagos
11
83
 72
2,370
Monchique
0
12
 12
2,364
Portimão
51
81
 30
0,541
Tavira
25
36
 11
0,448
Vila do Bispo
0
4
 4
0,776

Sem vos querer maçar, para mim ressalta o drama da baixa densidade. Em alguns municípios, valores irrisórios de novos casos representam uma densidade por mil habitantes surpreendente. É uma outra faceta dessa baixa densidade. Que o diga o município de Reguengos de Monsaraz.

A HORA DE ANGELA


Iniciou-se ontem a Presidência Alemã da União Europeia. Poucos acreditariam se, dez anos atrás, alguém vaticinasse que estaríamos hoje suspensos de uma ação diferenciadora de Merkel visando a recuperação, quiçá a salvação, da Europa enquanto projeto coletivo. Mas o facto é mesmo esse e ele é de tal monta que não posso deixar de abrir este mês das primeiras grandes decisões com as devidas figas e um esperançoso voto nesse sentido. Os detalhes, muito importantes sem dúvida, ficam para uma ocasião próxima.

(Pierre Kroll, http://www.lesoir.be)

(Klaus Stuttman, http://www.tagesspiegel.de)

quarta-feira, 1 de julho de 2020

AINDA A TAP



(Na altura em que escrevo não é ainda claro se a saída anunciada para a TAP consistirá na nacionalização pura e simples ou se poderá envolver a compra da percentagem de capital de David Neeleman numa parceria Estado português – Grupo Barraqueiro que implicaria uma maioria de capital público. Mas esse não é o meu ponto já que as duas soluções em cima da mesa, atrapalhadas pela modalidade de transformação do empréstimo da Azul de Neeleman à TAP, são demasiado próximas. Não estou sinceramente a ver em que medida, mesmo no caso da segunda hipótese vingar, a gestão poderá deixar de ser pública. O meu ponto é velho, o da fundamentação do interesse estratégico da TAP.

Tenho perfeita consciência de que a minha posição não é simpática e alguns dirão que é mesmo pouco patriótica. Ou seja, trata-se de uma posição dificilmente assumível por qualquer força política em Portugal, mas isso não implica que dela prescinda, até porque há uma matéria que me é cara, a das escolhas públicas e para isso é que há escrutínio e posicionamento políticos.

Tenho o Luís Aguiar – Conraria como um economista honesto, mesmo tendo em conta a sua euforia (sempre propensa a deslizes circunstanciais) pelo mais recente protagonismo que tem adquirido na comunicação social. Ora, num tweet de ontem, LAC apresentava as quotas de mercado da TAP nos aeroportos nacionais:

Aeroportos nacionais
Quota % da TAP
Lisboa
52
Porto
19
Faro
3
Funchal
29
Ponta Delgada
19
Fonte: Luís Aguiar-Conraria . Twitter

Bem sei que as quotas de uma companhia de bandeira nos aeroportos nacionais não são um indicador exaustivo do alcance estratégico nacional dessa companhia. Em matéria de quotas de mercado teríamos que adicionar alguns aeroportos-alvo e juntar outro tipo de variáveis.

Mas os dados calculados por LAC são, mesmo assim, deveras impressivos e significam que a TAP se apresenta sobretudo como uma companhia de bandeira do cosmopolitismo da capital, o que não chega para a alcandorar ao estatuto de ativo estratégico indiscutível, isenta da submissão ao tema das escolhas públicas.

A importância como ativo estratégico da TAP tem sido apresentada como um daqueles dogmas aparentemente indiscutíveis, assumido essencialmente para contrariar, inibindo-o, qualquer dedo no ar que coloque em discussão essa pretensa evidência. Fala-se muito da diáspora portuguesa mas ainda ninguém me convenceu que essa diáspora não pudesse ser servida por outras modalidades que não a da figura da companhia de bandeira e já agora gostaria de saber o que conta essa diáspora no número de passageiros transportados pela TAP.

E há ainda os PALOP, algo que me começa a dar vontade de rir, embora seja mais de tragédia do que de humor que devíamos falar. Qual é o estado atual das relações de Portugal com as suas ex-colónias? Uma tragédia e que me perdoe a nossa esforçada diplomacia. Angola é neste momento uma grande embrulhada para Portugal, penalizando seriamente ativos nacionais, para além de estar no coração de alguns desvarios bancários nacionais que nos custaram o impensável. Quanto a Moçambique, bem pode Marcelo jogar os seus afetos e memórias que a situação não se altera. Trata-se de um país às voltas com níveis internacionalmente reconhecidos de corrupção insensível à pobreza do seu povo e com um surto islâmico em Cabo Delgado devastador da já descontrolada pobreza. A Guiné roça os limites de um Estado inviável e ainda não consegui perceber o alcance da diplomacia portuguesa neste campo. Timor já há muito que escapou à diplomacia dos afetos e o respeito pela presença de Portugal no território já viveu melhores dias. Quanto a S. Tomé e Príncipe continuamos insensíveis ao seu baixo nível de desenvolvimento e interrogo-me qual o papel da diplomacia dos PALOP em mais este problema.Talvez Cabo Verde seja o único fator de esperança.

Perguntar não ofende: para que é necessária uma companhia de bandeira nestas circunstâncias? Dirão alguns que é preciso uma lógica de serviço público para assegurar uma presença mínima portuguesa nesses territórios. Certo. Mas para tal será necessária uma companhia de bandeira?

Ainda e sempre temos aqui uma questão de escolhas públicas e nos tempos que correm há tantas prioridades que suplantam o putativo interesse estratégico da TAP.

SIMPLIFICAR?

(Francesco Tullio Altan, http://www.repubblica.it)

Regresso paulatino à normalidade. Escolho para tal alertar-vos para a enorme complexidade da simplificação. Em praticamente tudo que nos rodeia, impera a complicação da incompetência, da ambição e da vaidade malsã, da desonestidade e da má fé. E tudo fica ainda mais difícil quando se juntam a tudo isto fatores exógenos largamente incontroláveis e, pior, os imponderáveis do destino...