terça-feira, 3 de maio de 2022

A COMPLEXA QUESTÃO DA IDENTIDADE DOS UCRANIANOS

 

(Fotografia de Jérôme Sissini/Magnum para a New Yorker que abre o artigo abaixo citado de Massa Gessen)

(Desde os anos de 1970 que o monumento no espaço Babi (yn) Yar não faz qualquer alusão aos milhares de judeus chacinados pelos Nazis naquela que foi a ravina da morte)

(Uma das maiores perplexidades que a Guerra da Ucrânia me tem despertado é a manifestação identitária que os Ucranianos na sua corajosa resistência e bravura têm revelado. Essa perplexidade é tanto mais saliente quanto mais reportarmos os nossos referenciais à errada perceção revelada por Putin e seu séquito quanto à pressuposta pertença da Ucrânia à realidade inventada de “um só povo”. Ainda há dias, quando discutia na Casa Comum da Universidade do Porto os problemas do turismo e da identidade das Cidades, neste caso do Porto, referia que o conceito de identidade de um povo ou de uma nação é das construções mais complexas que as ciências sociais alguma vez forjaram. Tanto mais complexa quanto hoje se compreende que a identidade é uma construção social, dinâmica por natureza, em que não atuam apenas fatores internos à sociedade, mas antes opera uma simbiose nem sempre fácil de seguir entre influências internas e externas.

Putin já nos habituou a construções fantasiosas da realidade sobre a qual coloca a pata do seu autoritarismo, como se necessitasse de uma auto-validação para justificar os atropelos que provoca de uma relação normal entre os povos.

Em julho de 2021, numa das suas intervenções públicas, Putin afirmou o seguinte:

“(…) Russos, Ucranianos e Bielorussos são todos descendentes da Antiga Rus, que foi o maior estado na Europa. Eslavos e outras tribos ao longo de um vasto território – desde Ladoga, Novgorod e Pskov até Kiev e Chernigov – estavam ligados por uma língua (que hoje designamos de Russo Antigo), relações económicas, o papel dos príncipes da dinastia Rurik e – depois do batismo da Rus, pela fé Ortodoxa. A escolha espiritual feita por São Vladimir, que foi também Príncipe de Novgorod e Grande Príncipe de Kiev, ainda determina em grande medida a nossa afinidade de hoje.

O trono de Kiev assumiu uma posição dominante na antiga Rus. Essa posição prevaleceu desde o século nono tardio. A Lenda dos Anos Passados capturou para a posteridade as palavras de Oleg o Profeta acerca de Kiev, “que seja a mãe de todas as cidades Russas”.

Mais tarde, tal como outros estados Europeus desse tempo, a antiga Rus enfrentou um declínio do seu papel central e a fragmentação. Ao mesmo tempo, quer a nobreza quer o povo comum perceberam a Rus como um território comum, a sua casa-mãe.”

Nesta alocução, a clareza de Putin quanto à ideia de “um só povo” parece-me indiscutível, cedendo embora à errada ideia de que a identidade é uma coisa exclusiva do passado. Como já o referi, a identidade é uma construção social em que os diferentes grupos sociais interpretam as suas raízes históricas, à medida que se confrontam com toda a série de influências do presente e do exterior.

Não vou discutir, como o faz Aaron Erlich no War on the Rocks, se esta referência histórica e pretensamente identitária invocada por Putin explica ou não a aparente surpresa e revezes associados com a resistência ucraniana, que ao contrário do esperado, não estendeu a passadeira vermelha ao líder desse tal “um só povo” e matou generais e destruiu uma grande parte do potencial bélico colocado ao serviço da invasão. Essa discussão é infernal pois nos levaria a ter de analisar todos os mecanismos enviesados de informação, para lá do recurso literal à história, que teriam sido responsáveis pela errada perceção de que os Ucranianos se sentiriam irmanados nos símbolos de pertença à velha Rus. Esse enviesamento de informação é inexplicável, tanto mais que o próprio Erlich documenta inúmeros estudos de opinião que mostravam que esse sentimento de pertença era nulo, com evidência anterior e posterior à revolução de 2014 e ocupação da Crimeia.

A resistência ucraniana é sinal de uma manifestação fortemente identitária de lealdade ao estado e à nação ucraniana, parecendo por isso que as questões da língua e da etnia da população não são fatores que comprometam essa lealdade revelada na e perante a força das armas.

Claro que a história conta e quer as invasões e ocupações nazi e soviética (com as atrocidades cometidas sobre judeus e outras minorias) da Segunda Guerra Mundial terão contribuído para esse sentimento de identificação com um território. Já agora relembro que a minha crónica sobre o Babi(yn) Yar de Anatoli Kuznetsov, com bastantes leitores diga-se, tem um desenvolvimento excelente no artigo de Masha Gessen na New Yorker de 18 de abril de 2022, designado de The Memorial, que se concentra nas diferentes operações urbanísticas que a ravina dessa tragédia foi objeto até à sua configuração atual.

Uma das explicações possíveis é a da influência confirmada pela literatura de que a guerra e a violência constituem processos com forte influência no refazer de identidades. A rejeição do ocupante (Crimeia em 2014) e do invasor sanguinolento geram processos complexos de rejeição que podem facilmente sobrepor-se a fatores identitários trazidos pela história comum.

Uma questão mais complexa para a qual não tenho nem evidência, nem reflexão acumulada, é a da pressuposta identificação com o ideário europeu que tem justificado o desesperado pedido de ajuda e de adesão à União Europa. Embora se perceba que a revolução de 2014 e a rejeição do representante fantoche-russo tenha despertado propensões ocidentais e de proximidade com os regimes políticos da democracia liberal, não tenho evidência suficiente para compreender que tensões identitárias terão sido desenvolvidas nesse processo que acabaria mais tarde por conduzir à chegada ao poder de Zelensky.

Mais complexa ainda é a relação existente entre a manifestação identitária de que falei e a presença na sociedade ucraniana de manifestações pontuais de extrema direita, em torno de cujo empolamento Putin construiu a bizarra tese da desnazificação da Ucrânia.

Mas neste caso, perante a heroica resistência dos Ucranianos, a manifestação identitária revelada no terreno pela e sob a força das armas sobrepõe-se a qualquer reflexão sociológica. Até porque quando comparamos as nossas identidades com as que são reveladas todos os dias perante o perigo da morte e da sobrevivência pura e simples a decência leva-nos a meter a viola no saco e reconhecer simplesmente que colocar a vida ao serviço de uma identificação com um território e com um Estado é coisa que nós, acomodados pelo progresso, começamos a entender como algo de anacrónico.

A perplexidade e a curiosidade intelectual podem permanecer, mas o respeito pela sua manifestação concreta é imenso.

UM PARÊNTESIS BREXIANO

 

Faz já algum tempo que aqui não nos referimos ao Brexit, em tempos não muito longínquos um dos nossos temas de eleição. Et pour causePois o “Financial Times” divulgou há dias o resultado de um estudo da LSE segundo o qual se observa uma forte queda no relacionamento comercial entre exportadores britânicos e importadores europeus a partir da entrada em vigor do TCA (Trade and Cooperation Agreement), o acordo de comércio livre assinado, em finais de 2020, entre o Reino Unido e a União Europeia por forma a constituir o novo framework orientador das trocas comerciais entre duas partes que vinham sendo parceiras comunitárias até então. Um impacto talvez maior do que era previsível mas bem revelador de que muita água ainda vai correr por debaixo de pontes britânicas que foram sendo alimentadas por promessas e ilusões apregoadas por uma gente estranha, tendo Boris Johnson ao leme, cujo grande desiderato mais não era, visivelmente, do que a promoção da sua própria carreira política e a consequente ostentação de um poder para que manifestamente não estava preparada.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

ACELERAÇÕES, CORREÇÕES E NOVAS PISTAS

 

(Com o sofrimento e resistência estoica dos Ucranianos como pano de fundo de todas as ideias, a guerra da Ucrânia suscitada por uma invasão tirânica do autocrata Putin e companhia próxima tem determinado, por si só, para a leitura do mundo de hoje três grupos de efeitos – acelerações de processos para os quais a vontade política escasseava, correções de ideias feitas que se revelaram erradas e novas pistas para o futuro, alimentando o nosso contínuo de interrogações. A importância destas tipologias de efeitos é similar, diferentes mas igualmente importantes. O post de hoje ocupa-se desta trilogia.

Comecemos pela aceleração de processos.

Tenho defendido que a transição energética é daqueles rosários mal resolvidos em que o capitalismo de hoje está mergulhado para mal das condições de vida de quem é obrigado a viver sem as utopias de outrora. A mais do que confirmada emergência climática não se tem revelado para os políticos que devem tomar decisões e para os cidadãos que têm de mudar consequentemente hábitos de vida, de consumo e de alimentação estímulo suficiente para criar condições para uma verdadeira transição. Sobretudo o que mais me espanta e irrita neste processo é a ausência de opções claras quanto à combinação necessária de fontes de energia para concretizar uma transição eficaz e já não estou a considerar o vazio das opções fiscais que devem ser assumidas para o tornar possível.

Aparentemente, a diabolização dos combustíveis fósseis foi conseguida, mas quando se discute o possível embargo do petróleo russo e se percebe a magnitude das receitas financiadoras da guerra que a sua exportação tem permitido aos russos rapidamente se conclui que essa diabolização é ainda mais aparente do que real. E há ainda a importância do gás natural, sobre o qual a discussão do possível embargo das importações com origem na Rússia permite também compreender a sua real importância num mix de fontes de energia que a transição ambicionada terá de acomodar. Ora, numa prova de força e de demonstração que o poder de iniciativa está do lado de Putin, o autoembargo russo de fornecimento de gás à Polónia e à Bulgária teve o condão de acelerar todo o processo de decisões europeias quanto a esta matéria, incluindo uma perplexa Alemanha que vê a cada dia desmoronar-se o princípio de opções consideradas inabaláveis. Ainda hoje, o economista Ricardo Cabral publica no Público uma crónica extremamente pedagógica para explicar a decisão russa de exigir os pagamentos de petróleo e gás em rublos, medida que pareceu suicidária para os interesses russos e que não obstante se tem revelado eficaz como medida de curto prazo para prolongar o financiamento da guerra através dessas exportações.

É uma tragédia não ser a emergência climática a assumir o papel de detonador e acelerador das grandes e necessárias decisões. Pelo menos na União Europeia, acaba por ser o autocrata Putin a acelerar esse processo e neste novo contexto muito dificilmente a transição energética poderá ignorar a questão dos mixes de fontes de energia que é necessário assegurar ao longo dessa transição. E talvez matérias como a do armazenamento de fontes de energia venham a adquirir a importância que tem sido ocultada, senão mesmo artificialmente desvalorizada.

Este é talvez o caso mais evidente de aceleração de processos que a guerra da Ucrânia irá determinar. Mas tenho para mim que também dificilmente o reordenamento do processo decisório da União Europeia escapará mais tarde ou mais cedo a uma profunda revisão, sobretudo impulsionada pelas questões da defesa e da segurança europeias.

Mas o prolongamento não esperado da invasão e da guerra tem determinado uma série de correções de ideias feitas que, uma após outra, tem caído face à nova evidência revelada.

Talvez a mais significativa seja a correção sobre o modelo político russo na era Putin. A ideia de que o modelo russo de Putin era uma oligarquia plutocrática caiu por terra com o inêxito das pesadas sanções dirigidas aos oligarcas russos. Não é de uma oligarquia que estaremos a falar mas sim de uma autocracia ditatorial rigorosamente vigiada com poder e repressão ferozes e uma gigantesca encenação comunicacional. A expressão que Branko Milanovic utiliza para descrever o falhanço das sanções é lapidar: “A influência dos oligarcas era, como sabemos, nula. Ironicamente, perderam os seus ativos porque não eram poderosos”. O economista sérvio tem dedicado alguma investigação a esta matéria e distingue claramente entre o poder político dos oligarcas que inicialmente tiveram uma influência de manipulação política e os oligarcas atuais, visados pelas sanções, cuja influência no regime de Putin está hoje largamente interrogada, senão mesmo anulada. Por isso, nos próximos tempos será importante acompanhar quais vão ser os próximos destinos das exportações de capital realizadas pelos oligarcas russos agora sob o fogo das sanções. E julgo que não me enganarei que irá surgir toda uma série de possíveis candidatos, dispostos a ocupar o lugar das grandes praças ocidentais.

Entre as correções determinadas pelo prolongamento da guerra, está também a confirmação do modelo de expansão russo ambicionado por Putin. Já me ocupei de tal correção noutros posts. Trata-se simplesmente da tentativa de reconstituição de uma mancha imperial que bebe a sua inspiração na época dos czares e que rejeita a cedência dos bolcheviques a um modelo de maior descentralização das Repúblicas soviéticas.

Finalmente, há novas pistas para o futuro.

Para hoje, deixo-vos com dois exemplos.

A primeira pista aponta para a necessidade de maior compreensão e seguimento futuro dos nexos existentes entre o financiamento russo e as forças políticas que a ocidente têm mantido uma posição de proximidade relativamente a Putin, não integralmente quebrada com o posicionamento face à invasão da Ucrânia. São conhecidos os volumosos empréstimos bancários concedidos, por exemplo, por grandes bancos russos ao partido do Rassemblement de Marine Le Pen. Dadas as características do regime de Putin, sempre poderei dizer que não acredito em bruxas, mas que las hay, las hay. Estou em crer que no Brexit existiram influências dessa natureza. E certamente que uma investigação jornalística mais profunda poderá revelar novas surpresas …

Finalmente, haverá interesse em seguir a evolução da economia russa, sobretudo porque vai ser um laboratório de experimentação de saídas e soluções que julgávamos ter desaparecido do radar das opções económicas estratégicas. Neste caso, opções forçadas na sequência da invasão russa que não poderia ficar impune. É também o economista sérvio Branko Milanovic que dá o mote. Diz ele que a economia russa irá praticar nos próximos tempos uma substituição de importações tecnologicamente regressiva. A razão é simples. Toda a modernização da economia russa estava dependente de moderna tecnologia estrangeira que comprava com as receitas da sua economia extrativa. Ora, no futuro próximo essa possibilidade está coartada. A Rússia vai ter de recorrer a tecnologia de segunda ou terceira escolha, já que a de primeira escolha estar-lhe-á vedada. É a isto que se chama uma substituição de importações regressiva, pelo menos tecnologicamente falando. E contradição suprema, uma população muito qualificada vai ter de trabalhar com tecnologias que não estão ao nível da sua formação. Também por aqui irá passar o êxodo de talentos. Para alguém como eu que estudou de perto os modelos de substituição de importações latino-americanos mais intervencionistas e os asiáticos mais leves e claramente orientados para a substituição de exportações, parece um contrassenso e algo anacrónico falar de substituição de importações tecnologicamente regressivas. Mas é a isso que a ambição desmedida do autocrata vai conduzir a economia russa.

AS ESQUERDAS FRANCESAS: UM CAMINHO?

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be

Terminadas as presidenciais francesas, e realizado o respetivo rescaldo, a constatação mais clara é a de um país completamente partido, social e geograficamente dividido e sem grandes perspetivas de reabilitação política no sentido de uma mudança renovadora e com esperança. À “derrota triunfante” de Marine Le Pen e à “vitória modesta” de Emmanuel Macron, dois sinais visíveis da estagnação reinante, somam-se o “ódio” das camadas mais jovens ao presidente, a presença significativa deste estar unicamente situada no eleitorado mais idoso, a ideia cada vez mais arreigada de ele ser meramente o “presidente dos ricos” e a sua implantação estar praticamente limitada a zonas urbanas (com os 85% dos votos em Paris a serem o caso-limite); e vice-versa. Veja-se também na infografia abaixo o curioso caso do voto muçulmano, brutalmente concentrado no radicalizado candidato de esquerda Jean-Luc Mélenchon. Neste quadro, é com alguma expectativa que se assiste às negociações visando uma candidatura unida da Esquerda (gauches réconciliables?, pergunta hoje o “Libération”), com os “insubmissos” e os “ecologistas” a já terem chegado a uma primeira base de entendimento e os socialistas a hesitarem muito fortemente (François Hollande já veio dizer que um acordo seria mau para o PSF, esquecendo o triste estado moribundo de um partido que viu a sua candidata Anne Hidalgo ficar reduzida a 1,75% dos votos). Claro que uma difícil união das esquerdas, a ocorrer, terá sempre de ficar de algum modo subsumida ao peso dominante obtido por Mélenchon na primeira volta das presidenciais, mas ainda assim poderá abrir algumas perspetivas de debate e caminho (mesmo que sinuoso) que não se vislumbram se quase tudo ficar ao dispor da extrema-direita (Le Pen mais Zemmour) na hipótese provável de o partido de Macron vir a ser alvo da débâcle que se lhe vaticina nas legislativas de junho.


domingo, 1 de maio de 2022

POR TERRAS DE MACEIRA (VIMEIRO)

 


(Umas breves notas para justificar a gazeta dos últimos dois dias, para gozar o aniversário da companheira e reunir a família próxima, sobretudo permitir que os netos do Porto e de Lisboa pudessem conviver um pouco mais. A nostalgia do Oeste Litoral e do Vimeiro em particular, praia de Santa Cruz incluída, determinou a opção, já em tempos de serviço militar em Mafra, já lá vai uma eternidade, as praias daquela zona foram a compensação num outono que foi nesse ano de 1973 extraordinariamente ameno. O hotel Golfe Mar na Maceira, praia de Porto Novo, é um três estrelas datado mas com uma qualidade preço apreciável e deve ser essa a razão para a PwC o utilizar regularmente para semanas de formação e de “team building”.)

A evolução infraestrutural recente deste território do Oeste litoral, que evidencia cada vez mais a sua proximidade à aglomeração de Lisboa e a sua dinâmica de florescimento agrícola, tem feito que a qualidade infraestrutural da costa e das amenidades de praia coexista com um modelo urbanístico que esse não tem remédio possível. Temos assim de louvar o esforço notável de qualificação da costa e habituar o olhar ao que não tem remédio.

Esta avaliação começa no próprio hotel que hoje por certo não seria construído, já que está praticamente na falésia. Hoje, é gerido, pela aparência e dinâmica bem gerido por um gestor de ativos, pois tinha o nome do BES associado, fazendo assim parte de tantas outras peças infraestruturais que aguardam o desfecho de um malfadado processo.

 

Mas a infraestrutura hoteleira é extremamente apelativa, com uma piscina interior excelente, além da exterior, um Centro Hípico que pela animação deste fim de semana respira qualidade e animação, um complexo de divertimento infantil com imensos equipamentos, dois campos de ténis e um acesso rápido e relativamente fácil a Santa Cruz, que continua a ser uma praia de referência.

Nesta vila é perfeitamente visível a qualidade habitacional de outros tempos, o descontrolo posterior que já não tem remédio, o apuro do arranjo costeiro e aquela imagem do que já foi expoente e se aguenta como pode nos últimos tempos.

Certamente mais apelativo para o raio de influência da aglomeração lisboeta, mas de qualquer modo a justificar uma viagem mais longa que a combinação da A29 até Aveiro (ou da A1 nesse percurso), da A17 de Aveiro a Leiria e da A8 de Leiria para baixo pelo litoral torna menos stressante, este território do Oeste litoral não perdeu o seu encanto. É uma questão de habituar o olhar urbanístico.

ÀS ARMAS!

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 

Já lá vão dois meses e uma semana desde que Putin mandou as suas tropas violarem, sem qualquer tipo de apelo ou remissão, o território nacional ucraniano. Inaugurando uma guerra brutal e estúpida, daquelas que já julgávamos impossíveis de acontecerem no Século XXI (cito Guterres) mas que foram objeto de cruel ressurreição por força das ambições hegemónicas globais da Federação Russa. E tudo abanou a partir deste novo período bélico, nomeadamente também o crescendo a que se assistia de entendimentos contrários a corridas ao armamento e derivados, um ganho de prevalência que a maioria dos cidadãos do mundo começa hoje a contrariar perante o horror que mediaticamente os assalta em cada dia ou até em cada hora. Sobra, claro, a exemplar e irredutível coerência do PCP e de outros espécimes raros de tipo semelhante que por aí flanam entre divagações e devaneios...