domingo, 10 de dezembro de 2023

NA LISTA DE JANCIS ROBINSON PARA O NATAL

 



(O universo dos críticos ou especialistas de vinho é algo de fascinante, por vezes misturado com aspetos mais sórdidos e presença desmesurada do poder. Mas, obviamente, para um país de produção vitícola relativamente pequena, a presença nos escalões mais elevados de notação dos grandes especialistas ou a simples inclusão em propostas de aquisição recomendável emanadas de jornalistas prestigiados constitui um fator extra de competitividade. Imagino o entusiasmo de algum pequeno produtor de vinho de qualidade quando o seu vinho é incluído numa lista prestigiada. Na mesma linha, tendo a percorrer essas listas ou classificações com a intenção de encontrar um vinho português, sabendo embora que essa probabilidade é mínima, mas simplesmente retribuído quando enfim encontro uma ou duas referências, ficando com a ideia de que está salva a honra do convento, embora sabendo que a probabilidade de alguma vez beber uma dessas referências é também muito baixa, não necessariamente devido ao preço, mas simplesmente devido à exiguidade do nosso mercado.)

A jornalista Jancis Robinson, que escreve regularmente para o Financial Times e que já esteve em Portugal repetidas vezes, lembro-me que terá tido uma refeição de eleição no Gaveto em Matosinhos em companhia, se a memória não me atraiçoa, de Dirk Niepoort, é uma dessas personalidades cujo toque de Midas todos os produtores esperam um dia receber.

Foi, por isso, com curiosidade, que li avidamente a lista de propostas de aquisição que a jornalista do FT publicou ontem com o horizonte do Natal como referência.

Não foi fácil encontrar a desejada referência a vinhos portugueses e foi apenas numa segunda leitura que as encontrei.

Os felizardos com a escolha de Jancis Robinson foram os seguintes:

  • Um vinho do Douro de 2020, chamado de Invincible nº 2 Tinto (Rita Marques com Marc Kent of Boekenhoutskloof), com preço de 25 libras no Reino Unido, produzido na quinta adquirida pelos dois enólogos, em Casais do Douro.
  • Um vinho da Bairrada de Filipa Pato(uma grande enóloga), Nossa Calcário 2021, Tinto, com registo de preço de 30 euros, de uma casta que me tem encantado em compras recentes, a Baga

A probabilidade destes vinhos estarem esgotados é alta. Por vezes, uma distribuidora espanhola com sede em Valência, a Bodeboca, resolve-me os problemas, mas não estou seguro que desta vez possa provar a opinião de Jancis Robinson. De qualquer modo, está salva a honra do convento.

 

 

ANTES QUE ME ESQUEÇA

 

Ontem à noite, na Lello, o Francisco Seixas da Costa apresentou no Porto o seu recente livro “Antes que me esqueça” (belo título!), um “tijolo” com quase 700 páginas. O apresentador, que depois se tornou mais propriamente animador, foi Augusto Santos Silva (ASS) e a conversa entre os dois fluiu de modo agradável e cheia de motivos de interesse. O Francisco explicou que não estamos perante as suas memórias, apenas se tratando de uma seleção de escritos ligeiros de múltiplas naturezas que diariamente inscreve, desde fevereiro de 2009, no seu blogue “Duas ou Três Coisas”. O que ASS aproveitou para lhe deixar o desafio de vir a elaborar um manual da diplomacia portuguesa, ele que foi um reputado e experiente embaixador (desempenhando funções, como recordou, nos dois países detentores das maiores comunidades portuguesas, Brasil e França) e que andou pela política externa durante quase quatro décadas.

 

Falou-se da diplomacia como “arte de conduzir o inevitável” (citando a definição adotada, a partir de autor incerto, por Jaime Gama, autor do prefácio), das metamorfoses no tempo da função (hoje “uma espécie de legitimação”), da liturgia dos “sinais exteriores da carreira” (citando Medeiros Ferreira), da “Casa” (o MNE, as Necessidades) e seu enorme sentido de serviço público (sem prejuízo de algumas manias, como o “fascínio pela diplomacia russa”, “snobeiras”, como as suas referências aos outros ministérios como “setoriais”, ou resistências, como em relação a Aristides Sousa Mendes), da constância da política externa portuguesa, dos 21 ministros que Francisco conheceu e “serviu” (todos alinhados com os interesses nacionais, apesar de momentos de exceção como a Cimeira das Lages), dos bastidores da candidatura de Guterres à ONU e de algumas coisas mais. Com o Francisco a sublinhar que optou por tentar evitar o cinismo e a ironia (nem sempre o tendo conseguido) e por “não poluir” a obra com alguns detalhes que correram mal numa vida profissional que considera ter sido plena de realização e quase, adaptando a canção de Amália, “uma estranha forma de boa vida”.

 

Regressado a casa, percorri aquelas páginas de modo avulso e lá me encontrei nelas, num momento que partilhei com o Francisco em Singapura nos finais de 1996. Reza assim, a pretexto de uma entrada referente a Sir Leon Brittan, então vice-presidente da Comissão Europeia (presidida por Jacques Santer): “Uma outra vez [recordações pouco agradáveis] foi em Singapura, durante a reunião de lançamento da OMC, em 1996. Pedimos-lhe um encontro, eu e o Fernando Freire de Sousa, secretário de Estado do Ministério da Economia, à margem da reunião preparatória da UE. Foi difícil mobilizar Brittan para a ocasião. Transmitimos-lhe a nossa reação negativa face a um inesperado ajuste à lista de ‘oferta’, que excedia o mandato que antes tínhamos acordado em Bruxelas. Eram mais concessões, sempre à nossa custa. Leu o ‘non-paper’ que lhe entregámos, olhou para as posições pautais nele inseridas e exclamou: ‘Oh! Your textiles, again!’ (Ah! Os vossos têxteis, de novo). Ouviu então uma ou duas coisas de que não gostou. Transmitimos à presidência da União de então a nossa posição e o mandato acabou por evoluir um pouco a nosso favor. Mas não por cedência de Brittan, suponho.” Esta presença pessoal naquelas páginas, necessariamente modestíssima, não deixa de ser para mim gratificante, até pela memória do que foi a realidade daquela semana de trabalho e convívio; isto dito, volto ao conteúdo de um livro altamente recomendável pelo tanto que contém de boa escrita, de episódios engraçados, de indicações com traça histórica e de manifestações visíveis de uma inquestionável espessura pessoal.

ESVAÍDO E VIRÓTICO

 


(Devo confessar que a vontade de blogar é mínima, arrancada a ferros, no meio de uma daquelas viroses respiratórias (se assim posso dizer a minha parte nasal é o meu calcanhar de Aquiles) que nunca se sabe, pelo menos enquanto nos mantemos no recato de casa, se evoluirão para qualquer coisa de incidência bacteriana. Assim, com a parte nasal transformada em centro de produção de muco, consumindo tudo que é papel ou lenço, não fico imune à irritação, ainda por cima com uma atmosfera de permanente humidade em cima de nós. Elejo de novo o tema da apressada sucessão no PS como tema de reflexão, até porque a dinâmica concreta evidenciada pela preparação do ato eleitoral interno do PS nos traz imensos materiais e poderosos jogos de sombras que fazem normalmente o encanto dos analistas.)

Fiz parte dos que pensaram que dificilmente o universo eleitoral português aceitaria a impetuosidade de Pedro Nuno Santos como ganhador de umas eleições nacionais. Mas a política é mutável e, segundo o que as sondagens recentes nos têm dito, essa impossibilidade parece estar resolvida, mostrando o eleitorado não só do PS mas em geral disponibilidade para acomodar o novo candidato a Primeiro-Ministro.

Não tenho elementos para avaliar se para esta mudança terá concorrido o alinhamento das principais figuras do PS em torno dos dois candidatos. Já aqui o referi que esse alinhamento tem uma explicação difícil, senão mesmo impossível. Os alinhamentos de Francisco Assis, Álvaro Beleza e Vasco Cordeiro (candidato de novo a uma Presidência regional na Região Autónoma dos Açores) introduziram na questão uma nebulosidade que surpreendeu muita gente, claramente reforçada com o facto dos que alinharam, com José Luís Carneiro serem sobretudo personagens institucionais (senadores e outras personagens mais ou menos vetustas do partido).

É uma questão complexa, podendo mesmo baralhar o eleitor do Partido e por isso, à míngua de informação mais objetivo, terei de recorrer a outros materiais.

Entre os materiais objetivos que temos à nossa disposição estão as sucessivas declarações de José Luís Carneiro sobre o candidato concorrente e mais do que isso sobre o próprio legado de António Costa, leia-se os seis anos de geringonça. Não faço a mínima ideia de quem aconselhou José Luís Carneiro a ir por esse caminho. Mas que se trata de um caminho errado disso não tenho qualquer dúvida. Agravado pelo facto de José Luís Carneiro ter pretendido envolver a figura e o legado de Mário Soares, que António Costa se apressou a cortar cerce, mostrando que Mário Soares na parte final da sua longa vida teve intuição política bastante para compreender que aquela solução respondeu a um contexto pós-Troika demolidor para as condições de vida dos Portugueses. A geringonça não foi uma invenção artificial. Correspondeu a um claro desígnio do eleitorado.

Uma questão bem diferente consistirá em saber se ela é ou não reeditável. José Luís Carneiro teria de demonstrar que no novo contexto a solução não é reeditável. Está no seu direito e o eleitorado agradecerá essa clarificação. Mas terá de ser uma demonstração inequívoca, indicando evidências para essa impossibilidade. José Luís Carneiro tem toda a legitimidade para defender a aproximação do PS ao centro, mas confundir essa opção com a crítica passadista aos seis anos de geringonça equivale a um posicionamento errado quanto ao legado de António Costa e isso, penso, que pode sair caro a José Luís Carneiro.

Acho que tudo isto é um desperdício de capital político que José Luís Carneiro granjeou ao longo destes tempos, desde a sua ligação a António José Seguro, à sua aproximação à linha vencedora de António Costa e sobretudo a um Ministério da Administração Interna em que conseguiu apagar a imagem de má memória que Eduardo Cabrita deixara. É pena e é tanto mais estranho quanto não consigo identificar em Augusto Santos Silva e Vieira da Silva, apoiantes de JLC, os autores possíveis desse aconselhamento errado. E a pergunta óbvia é quem seria o iluminado que aconselhou o candidato.

 

sábado, 9 de dezembro de 2023

POR FALAR EM DESFAÇATEZ...

Recupero a palavra principal em título no último post do meu colega de blogue e dela me sirvo para apontar um dedo acusador a dois acontecimentos internacionais bem ilustrativos da mesma em todo o seu irresponsável esplendor.

 

Refiro-me, por um lado, ao registo de que está a terminar, com saldo altamente dececionante, a Cimeira Global do Clima, que decorre espantosamente no Dubai (capital de um dos grandes produtores mundiais de petróleo, os Emiratos Árabes Unidos), onde os dois maiores poluidores mundiais (China e EUA, representando, respetivamente, 26% e 11% das emissões totais) se mostraram cinicamente alheados da necessária dimensão dos compromissos esperados de redução de emissões (com a enorme agravante, no caso chinês, de uma recusa de envolvimento na eliminação de combustíveis fósseis). 

(Robert Thompson, https://www.spectator.co.uk Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt) 

Refiro-me, por outro lado, ao registo das recentes evoluções relacionadas com a guerra na Ucrânia, designadamente no tocante à séria ameaça de uma queda determinante nos apoios ocidentais (leia-se americanos, no essencial) àquele país invadido. Com o terreno de guerra em crescentes dificuldades para o lado ucraniano, o ditador russo sorri confiante com o aparente sucesso da sua estratégia de aposta na paciência (a tal fadiga, em geral, mas também e principalmente a aproximação das eleições americanas e as correspondentes manobras no seio do Senado por parte de uma franja importante do radicalizado Partido Republicano). E aproveita até para de passagem marcar eleições presidenciais para março, assim se preparando para garantir uma permanência no poder por mais uma dúzia de anos.

 

Triste estado de desordem a que chegou a ordem internacional que os EUA continuam a patrocinar, tendo ontem dado mais um passo disso clarificador ao suportarem objetivamente o genocídio israelita em Gaza com o seu veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas de uma resolução no sentido de um cessar-fogo imediato.


(Patrick Chappatte, https://chappatte.com)

(Pierre Kroll, http://www.lesoir.be)

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

DESFAÇATEZ QUE BASTE!

 


(Já aqui enunciei a opinião de que o trabalho técnico apresentado pela equipa coordenada pela Professora Maria Rosário Partidário honra nos seus termos gerais o planeamento português. Caberia, por isso, depois de tantas tentativas goradas de preparar com pés e cabeça a decisão política, uma palavra de regozijo pelo trabalho concluído, sobretudo pelo facto de ter recuperado um atraso de quase seis meses, o que poderia ter protelado a apresentação de resultados para depois das eleições de março. A figura calma e sensata da coordenadora afirmou-se neste contexto de grandes expectativas e de interesses latentes: Mas, apesar disso, a coordenadora do trabalho não se inibiu, para que não restassem dúvidas, de denunciar pressões para a não publicação dos resultados antes das eleições de março de 2024 e, imagina-se, também dos interesses associados a algumas das opções estratégicas. Paradoxo dos paradoxos, um governo de maioria absoluta, demissionário, poderia ter capitalizado este momento importante da CTI acaso não se tivesse perdido nas suas próprias contradições e sobrancerias. Assim, resta-o apresentar como legado importante e estar atento à guerra surda que nos próximos tempos iremos assistir em torno do nó górdio dos interesses privados da ANA em claro conflito com o interesse público da nova localização.)

Igual a si próprio em termos de desconcerto de posições, o PSD surge mais uma vez entalado neste processo, tendo agora recorrido à figura de um grupo de trabalho interno para se pronunciar sobre o trabalho da CTI. Trata-se de uma simples manobra de diversão, pois a questão da ANA (Vinci) e da sua posição sobre o chumbo da solução Montijo, é algo que eclodirá em pleno coração do PSD. A decisão de privatização da ANA vem de um governo de Passos Coelho (a sombra da Troika que Montenegro compreensivelmente quer apagar) e, por outro lado, a figura de José Luís Arnaut, um verdadeiro hub de influências atravessa o universo dos interesses acolitados pelo PSD como um elefante em loja de porcelanas.

Tal como a Professora Maria do Rosário Partidário o tem perfeitamente claro, a elevada qualidade do trabalho realizado não é, por si só, uma condição suficiente para que desta vez seja de vez e a decisão do aeroporto seja finalmente tomada.

Mais do que qualquer outra condicionante, de financiamento ou de infraestruturas públicas complementares, a posição da ANA é crucial para o desenvolvimento do processo. Por outro lado, Pedro Nuno Santos parece ter nascido de rabinho virado para a lua, todas as sequências destes acontecimentos são-lhe favoráveis. Embora continue a achar incompreensível que o PS não seja lesado pelo processo que levou à interrupção da maioria absoluta, um cenário possível emerge como sendo um PS de Pedro Nuno Santos que negociará com a ANA o nó górdio do seu apoio à opção Alcochete. Ou seja, uma espécie de grande teste à sua maturidade negocial.

Novos episódios seguem dentro de momentos.