(Não
é frequente mobilizar o espaço deste blogue para escrever sobre a projeção
exterior das minhas atividades profissionais. É uma questão de feitio, de
recato e sobretudo porque ao contrário do que ingenuamente pensava quando há
onze anos o INTERESSE foi lançado, a recetividade de escrever para este espaço
entre os que mais frequentemente trabalham comigo foi nula. Assim sendo, limito essas referências ao mínimo, centrando-me sobretudo nos
momentos de maior divulgação pública e projeção na comunicação social, pois
este vosso Amigo, embora reservado e a tender para o bicho do buraco, também
não enjeita expor-se e vai à luta quando é necessário e sobretudo quando lhe
proporcionam a oportunidade. Afinal, já tenho idade e altura suficientes para
não me por em bicos de pés por dá cá aquela palha.
A minha intervenção no
próximo dia 28 em Lisboa, nas instalações do Público na Doca de Alcântara Norte,
cumpre perfeitamente esse critério. Explico o contexto.
Concluímos há
relativamente pouco tempo um estimulante exercício de avaliação da Estratégia
de Comunicação do Programa Operacional Capital Humano, um dos mais importantes
Programas Operacionais do PT 2014-2020, que tem a seu cargo o apoio à educação
e formação inicial, tais como os Cursos Profissionais e outras modalidades de qualificação
inicial, a formação de adultos, o apoio à formação avançada (doutoramentos) e
inicialmente aos TeSP, os tais cursos que não garantem um diploma de ensino
superior mas que contam para a taxa de escolarização e a formação de
professores e de formadores. A avaliação de estratégias de comunicação como
esta do PO Capital Humano é realizada por equipas (por mim coordenadas) que
dominam bem as metodologias de avaliação, mas que não são obviamente especialistas
em comunicação. Essa componente é proporcionada por especialistas e consultores
científicos externos, como neste caso o foram o Professor Gustavo Cardoso do
ISCTE e o Pedro Guilherme especialista também em comunicação.
O assunto interessa-me
pois já há muito tempo defendo que a notoriedade e boa avaliação dos Fundos
Europeus junto da população portuguesa tem de lidar com uma má imprensa, que
toma o ponto pelo todo, ou seja encara a imagem global de desempenho dos Fundos
Europeus em Portugal a partir de insucessos ou desvios frequentemente pontuais,
que não refletem o panorama global da utilização. Isto não significa que não
haja matéria de avaliação do conteúdo estratégico de alguns apoios, sobretudo
quando sabemos que na máquina de utilização dos Fundos Europeus em Portugal
predomina uma visão que designo de esquizofrénica: muitas dúvidas quanto à boa
utilização dos mesmos mas quando cheira a problemas de execução, designadamente
por se ir à procura de projetos mais estratégicos, aqui d’el Rey que o País
está a desperdiçar Fundos. Ainda hoje os jornais fazem eco das preocupações do
Tribunal de Contas quanto aos problemas de absorção de fundos. Afinal em que
ficámos?
Ambientes de
enviesamento sistemático de ideias e perceções como este só se combatem com
resultados concretos e indo à luta da discussão com matéria concreta e por isso
a divulgação na comunicação social de resultados de processos de avaliação é
crucial para elevar o nível da discussão para lá das suspeições mais preguiçosas.
O evento da próxima
quinta feira insere-se nesse propósito e louve-se, por isso, a Autoridade de
Gestão do PO Capital Humano e da sua equipa de comunicação por realizar essa
iniciativa em colaboração como jornal PÚBLICO. Assim, depois das intervenções
da praxe e da apresentação sucinta dos resultados do próprio estudo, seguir-se-á
um debate com este vosso Amigo, o professor Gustavo Cardoso, a jornalista
Mónica Silvares do ECO e o Presidente da Autoridade de Gestão Dr. Joaquim
Bernardo, com moderação do jornalista Manuel Carvalho, o que é uma prova do
empenho do PÚBLICO na iniciativa que cede as suas instalações.
Não vou entrar aqui em
pormenores técnicos do estudo, que em termos metodológicos até é pioneiro,
nunca uma estratégia de comunicação tinha sido avaliada com esta metodologia.
Mas vale a pena partilhar os resultados das três principais
sondagens/inquéritos realizados a três universos distintos: à população
portuguesa para avaliar da notoriedade global das realizações do Programa Operacional
Capital Humano; aos beneficiários do PO (Escolas e psicólogos inseridos nos
serviços de orientação escolar apoiados) que têm um grande envolvimento no
programa e que medeiam a ação dos públicos finais e, finalmente, aos destinatários
finais do PO (essencialmente jovens e adultos).
Os diferentes resultados
alcançados com estes três universos são por nós trabalhados para construir o
que chamamos a narrativa da avaliação e a explicação das razões da mesma. Os resultados
alcançados permitem concluir que a notoriedade gerada junto da população é
baixa em linha com o observado noutros programas e em parte também explicada
pelo facto das principais campanhas dirigidas ao público só na fase final de implementação
foram asseguradas e o período mais recente estava fora do que tínhamos para avaliar.
A notoriedade aumenta significativamente no caso dos beneficiários, o que evidencia
a ideia de que quanto maior for o envolvimento dos inquiridos na implementação
do programa (o que é o caso dos beneficiários) maior é o impacto comunicacional
alcançado. E a questão mais intrigante é a perda de notoriedade, face aos
beneficiários, que a estratégia de comunicação consegue para o programa junto
dos destinatários finais dos apoios (jovens e adultos, designadamente).


Os dois slides anteriormente
apresentados merecem uma ampla discussão.
Quase 60% dos
destinatários finais desconhece em termos de notoriedade a origem dos apoios
que recebem, sendo esse valor mais intrigante do que os 80% da população em
geral que não reconhece o programa.
E, no caso da perceção
mais global relativa ao contributo dos Fundos Europeus para o desenvolvimento do
País, não é menos intrigante que os destinatários finais sejam ainda mais
céticos em relação a esse contributo do que a população em geral (36,2% contra
38,5%).
Não vou obviamente
antecipar-me ao sentido da discussão da próxima quinta feira. Mas sobretudo em
relação aos jovens apoiados pelo PO mas apeteceria perguntar: que raio de monstrosinhos
estamos a apoiar? Claro que essa é a explicação fácil. O que estes resultados
mostram é que, para além dos apoios prestados, é necessário trabalhar mais
intensamente com os apoiados. Afinal, é o mínimo é exigir a quem é apoiado uma
maior atenção e respeito pelas ajudas que estão a receber para irem em busca de
trajetórias mais virtuosas de qualificações e empregabilidade.
Até quinta feira.
Nota final:
Os meus agradecimentos às colegas Filipa Barreira e Mariana Rodrigues por terem tornado possível este exercício de avaliação