O Sérgio Lopes era um dos meus amigos mais antigos e mais constantes. Conheci-o já na Faculdade de Economia do Porto, há mais de cinquenta anos, e com ele privei muito de perto desde aí (tendo sido talvez o colega do mesmo curso com quem mais estudei em conjunto e trabalhei em grupo). Não me cabe dele fazer aqui o elogio, o que seria talvez até despropositado, mas sempre referirei que o Sérgio/Serginho tinha algo de especial e que sempre registei com apreço: era de todos os convivas (primeiro muito jovens e depois assaz maduros) o mais intelectual (no verdadeiro sentido da palavra, i.e., de alguém que tinha genuíno interesse em saber e compreender) e o mais aberto (quer no sentido de uma tolerância quase natural quer no sentido de uma significativa ausência de tiques machistas próprios da sua geração). Dizer no contexto que ele era um tanto fonas apenas servirá para reforçar a ideia de que não existe ninguém perfeito, apesar de a dita caraterística também ter sido minimizada com o andar do tempo. Os momentos que recordo com o Sérgio são variadíssimos, das noites de estudo no Orfeuzinho às preparações de programas e aulas, das conversas sobre as meninas de Álvares Cabral às angústias pessoais que iam emergindo, das discussões políticas de todas as fases aos filmes e livros que careciam de (re)interpretação, dos piqueniques na Região às férias na Costa Vicentina e no Algarve, da épica festa de casamento no Parque da Aguda à partilha telefónica a partir de Paris da alegria pelo nascimento da Inês (levando, logo aí, a que a minha filha em gestação tivesse de passar a chamar-se Filipa), da passagem comum por Lisboa e suas novas oportunidades de intercâmbio às falas sobre as nossas posteriores incursões profissionais (no caso dele, pelo setor das águas), das inúmeras sessões do cineclube em que tanto fazia a diferença à última e impressionantemente esperançosa conversa de há dias na sua casa de Leça. Não serei grandemente inovador se afirmar que o Sérgio deixou marcas profundas da sua passagem e que sempre ficará, por isso, entre nós. Junto um beijo fraterno à Palmira e à Inês, afinal quem melhor pôde beneficiar da generosa personalidade daquele que foi um companheiro de vida e um pai apaixonado.
sexta-feira, 28 de julho de 2023
NA MORTE DO SÉRGIO
quinta-feira, 27 de julho de 2023
TERCEIROS A CONTAR DE ONDE?
Aqui está um bom exemplo do que finalmente significa o relativismo em matéria de avaliação económica. De facto, e para além de muitos elementos mais que sempre importará considerar, a situação portuguesa em matéria de dívida pública (como em tantas outras matérias económicas mais ou menos dependentes da atuação governamental) tanto pode ser lida como boa (a tendência conjunturalmente prevalecente nos opinion makers) como pode ser encarada como má ou, pelo menos, estruturalmente difícil. Senão vejamos, com o apoio dos dois gráficos acima em que Portugal surge no concerto europeu em terceiro pior lugar (terceira maior dívida dos países da União Europeia em relação ao PIB) e em terceiro melhor lugar (terceira maior redução europeia no último ano da dívida em relação ao PIB, num valor equivalente a 10,8 pontos percentuais). De notar ainda, por dever de justiça analítica, que os nossos atuais 113,8% de dívida em percentagem do PIB decorrem de uma evolução bastante marcante e já se situam bem longe dos casos mais negativos da Grécia (168,3%) e da Itália (143,5%) e se aproximam significativamente dos registos apresentados pelos países imediatamente seguintes (Espanha com 112,8%, França com 112,4% e Bélgica com 107,4%). Mérito às “contas certas” (que raio de maneira de nos referirmos à necessidade de controlar o endividamento!)? Sim de algum modo sim. Não fora o facto de as mesmas baterem de frente com outras necessidades objetivas da sociedade portuguesa, numa lógica desequilibrada que não nos isenta de alguns temores quanto ao futuro, e de as mesmas resultarem de aproveitamentos excecionais e altamente penalizadores quanto ao modo igualmente desequilibrado como a gestão pública aconteceu (cativações e desinvestimento público) e beneficiou de fenómenos exógenos (inflação) sem os colocar ao serviço do interesse da maioria dos cidadãos que pagam impostos. A entrevista de Medina ao “Público”, ontem, é bem reveladora de uma “estratégia” que lhe caiu no regaço e que ele e o primeiro-ministro procuram surfar em toda a linha ― do alto do meu desvio pró-estrutural, tendo a achar que ainda há muito que pode não correr tão bem quanto é proclamado pelo otimismo desbragado dos nossos dirigentes.
quarta-feira, 26 de julho de 2023
MERAS REVISÕES
Dias complicados, a voltas com organizações de ordem pessoal e com desaparecimentos tristes, não permitem que sobre grande tempo para atividades bloguistas. Deixo apenas duas boas e sugestivas vinhetas em relação a dois dos temas que mais nos têm ocupado nestas semanas: Espanha e o calor. No caso, um Feijóo em apuros e já a entregar-se nos braços da Virgem de Lurdes e uma Itália a conhecer fenómenos desigualmente extremos a norte e a sul. Até breve!
terça-feira, 25 de julho de 2023
PUIGDEMONT ESTÁ DE VOLTA
Passado o primeiro dia seguinte ao conhecimento dos resultados eleitorais, o que nos chega de Espanha não muda em quase nada o essencial dos dados, entre um PP a tentar o que sabe ser o impossível e um PSOE a correr atrás de tudo quanto lhe possa garantir a continuidade no poder. Talvez que a maior das diferenças, que não novidade, seja a consciência generalizada do papel de fiel da balança que parece estar em mãos dos “Junts per Catalunya” e do seu maior inspirador Carles Puigdemont, agora alegadamente legitimado para forçar a sua razão por via da exigência de um referendo independentista e vinculativo na Catalunha (sem prejuízo das crescentes complexidades judiciais que o envolvem). O que Sánchez terá de procurar negociar, apesar das suas promessas de campanha de que não o faria e com a agravante do registo de uma enorme quebra do bloco independentista catalão por contraponto a uma subida do seu PSOE em 14 pontos ― a política tem destas estranhas e espúrias coisas!
segunda-feira, 24 de julho de 2023
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SANCHISMO
A noite não foi nem longa nem especialmente emocionante. Mas começou, ainda assim, com as sondagens à boca da urna a darem uma vitória bastante arrasadora ao PP e uma forte probabilidade de se vir a gerar uma maioria à direita (PP+Vox) capaz de viabilizar com alguma tranquilidade a formação de um governo e, assim, a prevista e anunciada viragem. Afinal, e à medida que a rápida contagem de votos se processava, a resistência do PSOE e a quebra da extrema-direita tornavam-se salientes e acabaram por garantir um resultado fortemente improvável e altamente indecifrável (abaixo as capas dos jornais da manhã, onde é nítida a enorme azia do “ABC”, do “El Mundo” e do “La Razón”), com Feijóo a reclamar o seu direito a formar governo (onde é que já vimos isto cá na Terrinha?) e Sánchez a apresentar-se como o arauto de um progressismo maioritário contra uma alternativa de retrocesso que não passou (mesmo que, agora sim, a montagem de uma “geringonça espanhola” vá seguramente constituir uma tarefa hercúlea, para não dizer quase impossível). Veremos o que nos reservam os próximos dias, com o essencial a passar pelas formações nacionalistas (a mais duvidosa é a estratégia que será montada pelo “Junts per Catalunya”) e não sendo de excluir uma saída de bloqueio e correspondente necessidade de novo ato eleitoral. Em qualquer caso, o certo é que Sánchez gastou com sucesso mais uma das suas sete vidas e que Feijóo poderá estar a contas, em breve, com a menina de Madrid (Isabel Ayuso) e a sua indisfarçada ambição de poder nacional.
VITÓRIA AMARGA OU DE PIRRO, COMO QUISEREM …
(A imagem de felicidade que se desprende da varanda da sede do PP na calle Génova em Madrid parece querer antecipar todo um outro ambiente que não é efetivamente aquele que fica a pairar sobre a situação política espanhola depois das eleições de ontem. A vitória do PP de Feijoo está confirmada, mas são ineludíveis alguns factos que fazem com que à vitória nos votos corresponda uma derrota nas expectativas para a direita espanhola. Assim, a indesejável aliança PP-VOX ficou abaixo da maioria absoluta e o PP não conseguiu votação superior ao conjunto do PSOE e SUMAR. O PSOE de Sánchez consegue a proeza de resistir e até aumentar a massa de votação e de número de deputados das últimas eleições gerais e, aspeto menos percebido, é a formação mais votada no País Basco e na Catalunha, o que sugere a sua especial propensão para se afirmar em terrenos tão agitados pelo independentismo. A simples aritmética de uma maioria absoluta do PSOE com o SUMAR de Yolanda Diáz e os regionalistas do País Basco e da Catalunha é possível e reeditaria o tão odiado governo Frankenstein, mas em meu entender não será mais possível, até porque Sánchez ficaria refém dos inconstantes e pouco credíveis Junts per Catalunya de Puigdemont. O que me parece ainda mais paradoxal é que, num contexto de forte ingovernabilidade futura, se falhar, a campanha eleitoral anunciou-o, um acordo PSOE-PP, penso que a governação PSOE com os apoios parlamentares do nacionalismo regionalista ainda é a mais provável e equilibrada. Explico-me: se o PP controlar o Senado e os poderes municipais e autonómicos continuarem a pintar-se dominantemente de azul, embora com algumas sombras do verde do VOX, isso poderá oferecer a um novo governo de Sánchez uma oposição mais forte do que a que teve antes de suspender a legislatura e convocar eleições. Mas o cenário da ingovernabilidade está no horizonte e não desdenharia a hipótese de, após alguma guerrilha parlamentar, abrir-se o espaço de novas eleições. Tudo isto em plena Presidência espanhola da União Europeia. Sui generis …)
A resistência de Pedro Sánchez é uma verdadeira força da natureza e o eleitorado parece ter reconhecido essa evidência. Acossado no seu partido e recriminado pelas suas negociações com os regionalismos independentistas (mas afinal quem é que conseguiu fazer recuar os votos do independentismo catalão?), sistematicamente castigado pelo PP e pelo VOX e por toda uma inteligência que aspiraria a um acordo de regime entre o PSOE e o PP, os malabarismos negociais de Sánchez cansariam qualquer cidadão comum, mas o líder do PSOE ousou mesmo avançar na sua campanha internacional, ao mesmo tempo que enfrentava as confusões internas. O desgaste da guerrilha parlamentar cansaria o vulgar dos mortais, e de guerrilha parlamentar o que se passa no “nosso” Parlamento é uma brincadeira de crianças comparado com o que se passa no interior do Congresso dos Deputados.
Praticamente todos os analistas, com destaque para os que sempre defenderam o acordo de governação entre o PSOE e o PP, não têm dúvidas em assinalar que o eleitorado castigou a ambiguidade de Feijoo face ao VOX e a ausência de critério que presidiu às complexas negociações após a vitória da direita nas municipais e em algumas autonómicas (não as históricas). Feijoo estava habituado a navegar nas águas calmas da Galiza, onde já há largo a oposição regional não pode com um gato pelo rabo, até porque o intratável Abel Caballero está confinado a Vigo e, apesar de se tratar de uma cidade relevante, não assegura na forte atomização urbana galega qualquer posição relevante em termos de oposição regional. Além disso, Feijoo cometeu alguns erros imperdoáveis. Duvidou dos Correios espanhóis (a que já presidiu) e a massa de votantes que conseguiu votar antecipadamente foi notável. Escapuliu-se do debate a três (PSOE, VOX e SUMAR) e isso só acentuou a sua ambiguidade relativamente ao radicalismo de Abascal. Ora, o mar tumultuoso que se adivinha nas cenas dos próximos capítulos, com o PP a perfilar-se para uma investidura como partido vencedor, não é decididamente o mar de Feijoo. Sánchez surfa bem melhor esses mares mais tumultuosos e, estranhamente reforçado por uma derrota que se traduziu em aumento de votos e de deputados, pequeno, mas sempre um aumento, até pode surgir reforçado nessa nova trama de ponto de cruz parlamentar.
E não esqueçamos que, no seguimento de algumas derrotas recentes, o VOX parece ter já virado o cabo da sua afirmação meteórica. A Espanha é tradicionalista, sabemo-lo bem e alguns fantasmas do passado foram recentemente reabertos, com a ETA à cabeça. Mas, para muito eleitorado mais jovem, o retrocesso civilizacional protagonizado pelo tradicionalismo mais retrógrado, designadamente em relação à situação da mulher e ao problema da violência doméstica, é coisa difícil de aceitar. É verdade que 3 milhões de eleitores nunca poderão ser ignorados e daí que essa expressão quantitativa se tenha espraiado por inúmeras situações locais, oportunidade para o revanchismo e pequenos regressos ao passado qui fizeram salivar os que recordam Franco e o continuam a venerar.
O cronista Xosé Barreiro-Rivas de formação religiosa sólida e que se enganou também quanto à viabilidade de uma viragem costuma dizer e com razão que os eleitorados não podem deixar de ser responsabilizados quanto aos resultados das suas decisões nas mesas de voto. É verdade. Mas esses eleitorados não tomam as suas decisões em abstrato e numa linha de absoluta indiferença em relação ao que se vai passando no espaço político. Mas alguém duvidaria que a maioria da Espanha moderna, sobretudo a mais jovem, com uma situação macroeconómica favorável, salvo o crescimento do peso da dívida, ficaria indiferente a tanta ambiguidade face aos que desejam apenas o regresso ao passado, traduzindo-se esse regresso em anacrónicos recuos de civilização e de liberdades?
domingo, 23 de julho de 2023
ABENÇOADO ANTICICLONE!
Anda uma brutal vaga de calor pelo mundo, com algumas incidências raras em vários pontos da Europa (abaixo, algumas fotos sugestivas). Mais uma prova, perfeitamente dispensável a despeito dos discursos negacionistas, das mudanças climáticas e do aquecimento global que crescentemente nos atingem. O dado interessante da situação é, para nós portugueses, o de estarmos largamente a escapar a tal onda em resultado da proteção contra a massa de ar quente vinda do norte de África que nos vai concedendo o famosíssimo anticiclone dos Açores. O “El País” consagra hoje algum espaço àquele fenómeno e deixa-nos alguns elementos complementares de análise em relação ao mesmo, que seguidamente reproduzo em termos ilustrativamente sintéticos: o junho mais quente do planeta desde que há registos (ou seja, desde há 174 anos); a primeira quinzena de julho com a maior temperatura média diária do ar à superfície desde 1979; inúmeros recordes de calor em distintos pontos da Terra (de Turpan na China, com 52,2°, ao Parque Nacional do Vale da Morte na Califórnia, com 53,3°; de Licata em Itália, com 46,3°, a Figueres em Espanha, com 45,4°); registos diversos de um aquecimento extremo no Atlântico Norte. A infografia, o mapa e os gráficos mais abaixo são sintomáticos a darem conta de algumas das principais anomalias e factos em presença, bem assim como de alguns grandes números e tendências. Tudo num quadro em que importa sublinhar que os especialistas adiantam que, por cada 0,5° de incremento da temperatura média do planeta, se produzirão aumentos claramente percetíveis na intensidade e frequência dos fenómenos extremos.















