quarta-feira, 8 de julho de 2026

O MECI TEM DE PARAR PARA PENSAR

 
(excerto de Missão Escola Pública, https://www.facebook.com

A polémica em torno dos exames nacionais está ao rubro e o caso não é para menos tão abrangentemente reveladora se apresenta quanto a múltiplos dos vícios que configuram a nossa presente realidade nacional. Ele é o novo-riquismo associado aos fundos europeus, que atingiu o grau máximo de absurdo e desperdício com o PRR a que Costa chamou de bazuca e sobre o qual perguntou se já podia ir levantar o respetivo cheque. Ele é o exibicionismo associado à “modernização” feita à pressa, com dinheiros fáceis e sem cuidar de prioridades, do que a digitalização das provas é uma ilustração clara. Ele é uma sociedade civil que olha para o Estado como uma fonte de cumprimento obrigatório e atempado dos seus interesses e vontades, ao mesmo tempo que se queixa amargamente do volume de impostos a que procura escapar. Ele é uma classe política crescentemente incompetente, muito por força do afastamento de tantos por força da respetiva remuneração e do escrutínio a que está sujeita, agora engrossada por académicos bem-intencionados (embora por vezes desmedidos em ambição) mas notoriamente impreparados para o desempenho e a decisão políticos.
 
Este último tópico é o que corresponde à passagem governativa de Fernando Alexandre, um académico de primeira água (à luz de um critério objetivo centrado em investigação aplicada aplicável e não de lógicas que privilegiem os papers que publicou e as avaliações de júris mais ou menos duvidosos) que decidiu vir dar uma mãozinha à política mas se quis colocar como dono e senhor de um espectro de áreas difíceis e muito trabalhosas (só a Educação já é mais do que bastante para um homem só!) e, não satisfeito com isso, se quis também apresentar como o maior dos reformadores dos tempos modernos. Conclusão: eliminou ou fundiu estruturas fundamentais e altamente experimentadas do Ministério sem acautelar a passagem de testemunho do conhecimento adquirido; introduziu alterações no regime geral de acesso e ingresso no Ensino Superior; criou um novo modelo de bolsas de estudo; extinguiu a FCT e a ANI para criar uma AI2 que lá penando para existir e se afirmar, não sendo nada claro como tal modelo acabará por enfrentar a velha questão da investigação versus inovação; criou um novo sistema de ação social no Ensino Superior, de contornos significativamente duvidosos em sede de objetivos não necessariamente complementares (coesão social e territorial versus elevador social); fez aprovar um novo RJIES que vai seguramente constituir uma fonte de entropia de toda a espécie nas instituições; criou duas universidades técnicas em corrida desenfreada para efeitos de consolidação da imagem de um tal PTRR; e muito mais, com a particularidade de mostrar quase sempre como um maestro sozinho (onde para e o que diz a luminária que era Alexandre Homem Cristo quando foi designado seu principal secretário de Estado), do trabalho à decisão (e, mais decentemente, na assunção de responsabilidades) uma secundarização do parecer dos principais envolvidos e até de uma oposição declarada por parte dos mesmos.
 
Neste quadro, o destino político de Fernando Alexandre parece ameaçado. O que se lamenta, principalmente porque se trata de alguém capaz e com boa energia. Importa, por isso, que o ministro consiga a ponderação requerida para não se posicionar como pretendendo “apanhar o céu com as mãos”. Assim o espero.

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