(Por mais que o ministro Fernando Alexandre se esforce para tirar a pata da poça, vão chegando a nível pessoal e da comunicação social em geral testemunhos de professores com atribuições na revisão de exames que anunciam o pior e que o descalabro organizativo em curso é algo de mais profundo do que um simples atraso na publicação das notas dos exames nacionais. A desorientação e o pânico instalados no sistema de revisão atormentam os professores e, pior do que isso, existe uma total ausência de interlocução para os professores reportarem anomalias que as solicitações por eles recebidas transportam. Ninguém consegue alimentar um pingo de confiança acerca do que pode resultar de tudo isto. Confrontando os ecos individuais que me vão chegando de diferentes quadrantes e o estado de avaliação de alarme que vai grassando pelos meios de comunicação, pressente-se que os primeiros antecipam algo de bem pior do que os segundos prefiguram, mas pode ser apenas uma imagem impressiva. Percebe-se também que o ministro da Reforma Administrativa Gonçalo Matias é o grande aliado de Fernando Alexandre na decisão de não recuar, dada a importância do processo de digitalização em todo o processo por ele conduzido. Imagino que por banda dos ministros mais políticos, a sensação será de pânico instalado, sobrevalorizando os custos sociais e políticos de todo este processo.)
A imagem do armazém algures em Lisboa em que as provas estão depositadas que as televisões reproduzem com insistência, com o Ministro e Secretário de Estado a deambularem por ali, esperando o milagre da organização, é penosa e vai acompanhar por certo a carreira política que o ministro queira futuramente realizar, no pressuposto de que não pretenda regressar às lides académicas. E mais desagradável do que tudo isto é a perceção de que os professores são piões indefesos nesta grande trapalhada, arruinando o processo necessário de reconquista do seu valor social e do seu reconhecimento por parte das famílias e alunos.
O caos é tão generalizado que é praticamente impossível garantir se se trata de deficiências organizativas de um ministério que nos últimos anos se centralizou ainda mais, ou se é pura incompetência privada à solta, mais propriamente deficiente avaliação da situação a resolver ou se a combinação é ainda mais explosiva com a teimosia do Ministro a imperar em todo o processo, forçando uma situação que não tinha devidamente controlada.
O diabo que escolha. Mas o que é flagrante é que o estado de transição em que o sistema educativo nacional se encontra, a exigir um paradigma de maior eficiência e qualidade depois do salto quantitativo que conseguiu dar, não é compatível com perturbações deste calibre. O ministro Gonçalo Matias pode invocar obviamente o interesse de não voltar para trás na sua senda da digitalização. Mas tem de compreender que a transição com êxito pela qual o sistema educativo está a passar está muito para lá do sucesso da digitalização, é bem mais complexa do que isso e não pode ser perturbada por passos demasiado ambiciosos que podem comprometer a eficiência e a melhoria de qualidade do sistema, é disso que o país necessita e não de agendas individuais.
Claro que esta questão é do domínio da coordenação política e isso pertence ao 1º Ministro e não a porta-vozes por mais ambiciosos que sejam. Creio que não ouvimos ainda uma palavra que seja de Montenegro, o que é um bom indicador do seu estilo de (não) governação.

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