A aguardada conferência de imprensa explicativa do ministro da Administração Interna Luís Neves foi um sucesso aos olhos do inefável Hugo Soares e dos portugueses mais distraídos. Pudera, tanto tempo ela levou a preparar com vista a uma argumentação convincente (e até comovente), independentemente de alguns argumentos esfarrapados a que recorreu. Viu-se ali o dedo mestre do outro Luís (Montenegro), exímio na arte típica do causídico de província, tão bem-falante e cheio de sinónimos em catadupa quanto demagogo e pouco preocupado com a verdadeira chico-espertice das suas elucubrações. Ilustrando: o longo currículo de um combatente contra o crime organizado (trinta anos de investigações e prisões com permanentes ameaças e riscos pessoais), o arrependimento vago e cirúrgico (se fosse hoje, não teria...), a humildade do homem bom (“nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem”), o gestor que decidiu extraordinariamente no tocante ao atrelado (ademais poupando dinheiro ao Estado), a inexistência de aproveitamentos (ninguém poupou nem ganhou nada), as obras pagas em dinheiro ou com cartão Multibanco (como acontece com qualquer português comum), a informação que não foi prestada ao servidor público (afinal, o Tribunal Constitucional não lhe comunicou em tempo que teria de apresentar a sua declaração de rendimentos), a piscina que lhe fizeram num fim de semana em que esteve ausente (mas que voltará a ser um tanque) e por aí adiante. Tudo com um objetivo final, que também ficou claro: o homem sente-se, como o seu primeiro se sentiu no quadro do caso Spinumviva, “totalmente legitimado e empoderado”.
André Ventura e Mariana Leitão não tardaram a pronunciar-se sobre o conteúdo da prestação do ministro, surgindo-me como especialmente estranho o criticismo implacável da líder da Iniciativa Liberal dado que não consigo alcançar ao que pretende chegar nesse eu radicalismo contra o seu mais natural aliado político. Com o Partido Socialista a prosseguir num calculismo de moderação que já se vai tornando insuportável, quase todos os analistas apontam agora para António José Seguro como sendo a personagem capaz de pôr alguma ordem na balbúrdia instalada – o que tendo a apostar que não acontecerá, dado que no Palácio de Belém parece viver-se ainda sem que o seu principal ocupante tenha recuperado do estado de perplexidade e choque que dele se apoderou em janeiro e sob o efeito unitário e paralisante das correspondentes missas, loas e encómios em intenção do facto e seus promotores.
(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)


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