(A vinda de Kevin Warsh, o novo presidente do Banco Central americano, o FED USA, teria necessariamente de apimentar a reunião anual promovida pelo BCE em Sintra, que passa por ser uma das principais reuniões de macroeconomistas em Portugal. As condições em que a sua passagem a presidente do FED ocorreu, sucedendo a um Jay Powell que se revelou bastante mais resistente às pressões de Trump do que era antecipável, têm antecipado dúvidas vindas de diferentes quadrantes sobre a real capacidade de Warsh levar a cabo a independência do seu mandato, em função dos objetivos consagrados para o FED, a estabilidade dos preços e a questão do desemprego, o que suscita a sua relação com o crescimento económico. A cobertura noticiosa e jornalística do evento em Sintra é, regra geral, muito limitada, pelo que só para alguns privilegiados é possível o acesso ao fervilhar de conhecimento que aquela reunião terá suscitado. Fico-me com uma notícia do Expresso (ver aqui) e a restante imprensa focou-se sobretudo num interessante artigo apresentado no evento, no qual o incremento da imigração aparece relacionado com aumentos de produtividade para os países mais abertos a esse fenómeno, tema a que regressarei num dos próximos posts, acaso tenha tempo para mergulhar no artigo e compreender o sentido causal que poderá suportar aquela conclusão econométrica. Pela notícia do Expresso, fica-se a perceber que Warsh jurou de novo a sua independência face à administração americana, declaração que afinal não poderia ser diferente, já que se assumisse a não independência dificilmente poderia aguentar-se no lugar. O carácter apimentado do encontro teve ainda o especial condimento de , praticamente em simultâneo, o Supremo Tribunal americano, com composição favorável a Trump, ter decidido que o Presidente americano não tem poderes para afastar a governadora do FED Lisa Cook, barrando, assim, a sua saída.)
Por mais perentório que Warsh tenha sido na afirmação da sua independência, pode ser entendido como conversa mole e de circunstância, sendo antes essencial compreender nas entrelinhas do que tem sido comunicado para o exterior que tipo de Presidência do FED poderemos antecipar para este mandato.
Socorro-me por isso de algumas análises que têm surgido na imprensa e blogosfera económica americana sobre o teor de algumas considerações que o novo governador, que são fundamentalmente mais preocupantes do que a sua reiterada independência. Recorda-se que, tentando perceber a aproximação a Trump a Warsh que conduziu à sua indicação para o cargo, pode concluir-se que terão agradado a Trump algumas afirmações recentes de Warsh, as quais permitem associá-lo a um maior laxismo e diferimento de subidas de taxas de juro de referência em resposta às ameaças inflacionistas que pairam sobre a economia americana. Trump já se insurgiu quanto a essa possibilidade, na medida em que ela naturalmente a uma narrativa de que a administração Trump está a penalizar a economia americana, e as intercalares para o Senado e Congresso estão aí à porta.
Todos compreendem que a clareza e transparência da comunicação do Banco Central são algo de fundamental para a política monetária. Existe mesmo um termo técnico, forward guidance, que descreve uma espécie de regras de conduta a seguir escrupulosamente pelo Banco Central, dirigidas ao futuro circunstancial e incerto que se consideram essenciais para que a incerteza já existente nos mercados e na situação mundial não seja majorada.
Analisando palavras e escritos recentes de Warsh, Brad DeLong explicita o que, segundo ele, são as ideias orientadoras expressas pelo novo governador:
§ “1. O FED assumirá a estabilidade dos preços – isto é, não se prepcupem com outras coisas como o pleno emprego e o favorecimento do aumento da produtividade através da realocação em direção aos setores de maior valor acrescentado, antes da primeira estar assegurada;
§ 2. Ele só se preocupa com o lado esquerdo dos pontos decimais quando a inflação chegar – isto é, mais do que tentar manter a inflação dos preços das despesas de consume pessoais ao nívelA afirmação ma dos 2% ano ao longo do tempo, ele ficará satisfeito enquanto os números da inflação se mantiverem no nível de 2,x % ao ano – o que equivale a um aumento de 0,5 pontos percentuais na meta da inflação do FED;
§ 3. Ele não pensa que a curva de Philips seja real – isto é, que os aumentos da taxa de juro não e por isso a estabilidade de preços não estãosão uma via credível de arrefecimento da economia e que a diminuir a inflação quando ela está acima da meta e qu, por isso, a estabilidade dos preços não está a ser assegurada.”
A afirmação mais surpreendente de Warsh é a de que não vai dizer rigorosamente nada sobre a estratégia de forward guidance (orientação futura).
Nas condições atuais de incerteza em que a atuação dos Bancos Centrais se insere, abandonar a orientação futura mais do que uma atitude de precaução e adaptação constitui, em si mesmo, um fator de incerteza e de ampliação da mesma.
O que conduzirá Warsh a este estranho posicionamento? Muito provavelmente, porque não quer explicitar a sua posição quanto à valoração dos riscos de inflação que a economia americana enfrenta. Ou, por outras, palavras uma outra forma de agradar ao seu AMO e SENHOR, embora garantindo a sua independência.
Será, assim, que vamos ter uma presidência do FED do tipo “gato escondido com rabo e fora”?
Se assim for, a economia americana entrará porta adentro nos manuais da política monetária mais atípica, embora o seu Presidente jure fidelidade aos seus princípios de sustentação.

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