(Agora que no Mundial os emergentes foram à sua vida, rendidos à força dos incumbentes e aos interesses da organização, que a Bélgica tratou de colocar ao nível as intromissões de Trump e a subserviência do careca do Infantino e que a crónica anunciada da sobrevalorização permanente das capacidades futebolísticas nacionais se consumou, pouco interesse associo ao evento. Resta a hipótese de Marrocos poder fazer estragos nas apostas estabelecidas, não estou muito otimista quanto a essa possibilidade, ou dos glaciais, mas irreverentes noruegueses pregarem alguma partida, mas veremos se nos próximos dias haverá algum motivo de comemoração. Sem matéria para as minhas metáforas futebolísticas, devo virar-me para a atualidade política nacional e nela encontrar alguma motivação que vença a minha preguiça pré-estival, que antecipa claramente aquela modorra das férias da qual dificilmente recupero. Ora, na atualidade política nacional, a principal fonte de interesse está em mais uma barracada disruptiva que a educação nos proporciona. A sucessão de problemas de confusão administrativa em que a educação está permanentemente mergulhada, transforma em verdadeiro milagre sistémico a melhoria dos indicadores do sistema educativo nacional que tem vindo a ser observada nas duas últimas décadas, embora as avaliações de desempenho que o programa PISA da OCDE nos proporciona, aconselhem a monitorizar com cautela a referida melhoria dos indicadores, sobretudo da mais impressiva que é a redução substancial do abandono e insucesso escolar. A mais recente perturbação no sistema, relacionada com as correções dos exames nacionais, 9º e 12º ano, torna-se mais apimentada porque o ministro da Educação, Ciência e Inovação Fernando Alexandre é por mim considerado um dos únicos ministros reformistas do governo de Montenegro e isso é para mim motivo suficiente para o tratar de forma respeitosa, o que não significa de todo ausência de crítica, impiedosa se necessária.)
A questão da barracada administrativa armada com a correção dos exames parece ser mais um exemplo de digitalização apressada sem estarem criadas as condições necessárias para que a sua aplicação pudesse decorrer sem os sobressaltos mínimos e de ajustamento que todos os processos deste tipo acabam por exigir. Aliás, num país como o nosso, em que o reconhecimento da qualidade da oferta formativa superior em matéria de sistemas de informação e de computadores é generalizado, não consigo entender a série de engulhos que tenho identificado nas infoestruturas de suporte às políticas públicas.
Ora, segundo o que tem sido conhecido, a ideia de digitalização precoce parece robusta. A experiência do ano passado com os exames de Filosofia deu para perceber que os erros e adaptações necessárias eram muitos e que o salto de escala para a digitalização integral dos exames em 2026 era um salto para o abismo e para o risco, como veio a confirmar-se. O ziguezaguear do ministro nesta questão foi preocupante, aliás como tem sido comum noutros dossiers, com relevo para a informação vinda dos próprios serviços do ministério. Mas o que é novo nesta questão dos exames, é que desta vez não estão em causa possíveis ineficiências das estruturas públicas do sistema, mas antes o mau trabalho desenvolvido por uma empresa privada. Sem querer entrar aprofundadamente nesta questão, porque me falta informação robusta para o fazer, não posso ignorar que o problema tem sal e pimenta que baste.
Por vias travessas, fui informado de um post no Facebook de Miguel Prata Roque (devo confessar que tenho reservas fundamentadas quanto a esta personagem típica da corte lisboeta, afeta ao PS, isso não me interessa, e por isso não queria explorar profundamente esta questão) se faz referência à empresa que foi objeto de contratação pelos serviços do Ministério de Fernando Alexandre para assumir a referida tarefa da digitalização. Pelos vistos, a empresa é a AXIANSEU II DIGITAL CONSULTING S.A, integrada no grupo VINCI, o tal que recebeu a prenda dourada do governo de então na privatização da ANA, gestora dos aeroportos nacionais, com o ex-ministro Arnaut no furacão dessa decisão. O contrato terá importado segunda a mesma fonte em cerca de um milhão e quinhentos mil euros.
Imaginem o caos mediático que emergiria se a incompetência do processo de digitalização fosse atribuível a alguma estrutura pública. Mas não é o caso, trata-se de uma empresa privada e não é necessário ser especialista da matéria para compreender que existiu aqui uma deficiente avaliação das responsabilidades a assumir.
A falta de respeito para com as expectativas e compromissos das famílias quanto a datas de exames, correções, publicação de notas e eventuais segunda edição dos exames é confrangedora e evidencia um Ministro acossado, que já admite a hipótese de ressarcimento financeiro de famílias, com evidência demonstrada de prejuízos incorridos. Quanto mais reformista um dado Ministro pretende ser, mais exigentes se tornam estes processos em que o passo supera a perna de quem o dá. Abrir frentes de reprovação nas Escolas, nas famílias, na ciência, no sistema das instituições de ensino superior (IES), universitário e politécnico, não é estratégia que se recomende ao reformismo. Mas é isso que está a acontecer. Normalmente, o rescaldo destes processos consiste em meter no saco as reformas pretendidas.
Veremos se o Ministro Alexandre confirma a regra.
Nota complementar
Como receava, informação complementar disponível no Expresso on line sugere que a referência concreta à empresa privada que terá trabalhado a digitalização das respostas dos exames estava errada. Pelo que se percebe do artigo de Ângela Silva, a empresa inicial terá sido uma tal BLAT - Creative Powerhouse Lda, sendo o ministério posteriormente obrigado a recorrer aos serviços da Delloitte. Entretanto, é um facto que o Público, na sua investigação, refere o contrato com a Axianseu II Digital Consulting para desenvolver a GAEBS, uma plataforma de gestão do processo das provas de avaliação externa, das inscrições à divulgação dos resultados. Mas segundo a dita empresa, o o projeto GAEBS adjudicado pelo IAVE “não corresponde” à plataforma que tem sido referida nas notícias sobre falhas técnicas nos exames do secundário". A confusão está instalada. Esta confusão não penaliza contudo o alcance do meu post.

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