(Quando comecei a interessar-me cultural e profissionalmente pelos assuntos galegos tive a sorte de o fazer sempre numa perspetiva complementar de foco nas questões regionais, a tal Euroregião de que falavam essencialmente os amigos galegos, e urbanas, o seu sistema urbano. Isso deveu-se ao facto dos trabalhos profissionais com a CCDR Norte e a Xunta da Galiza incidirem preferencialmente sobre o nível regional e os diferentes estudos para o Eixo Atlântico, associação de Cidades/municípios, terem o foco no sistema urbano. Nesta última dimensão, a amizade e a proximidade que tive o privilégio de consolidar com dois grandes urbanistas galegos, o economista Anxel Viña e o arquiteto Juan Luís Dalda da Universidade da Corunha, este já infelizmente desaparecido, permitiu-me acompanhar de perto o estimulante debate então emergente na Galiza sobre a abordagem mais ajustada para pensar os diferentes modelos de desenvolvimento urbano que emergiam na Galiza. O debate tinha um alcance fortemente político, pois nessa altura, anos 90, o Partido Socialista galego dava mostras de uma frescura de análise que o PP galego não apresentava, pois a sua implantação na base urbana galega não estava ainda consolidada. Na altura, o pensamento do PP galego era essencialmente marcado pelo projeto de Andrés Precedo Ledo, professor catedrático de Geografia Humana da Universidade de Santiago de Compostela, Diretor Geral da Xunta da Galiza, que liderava um projeto, que viria a abortar, de constituição de comarcas, associações de pequenos ayuntamientos, forte dependência da Xunta e do serviço dirigido por Precedo Ledo. Esta abordagem contrapunha-se à ideia de sistema urbano e os meus Amigos galegos viam nesse tradicionalismo de abordagem um alvo a abater, pois era incapaz de dar conta das diferentes nuances que o sistema urbano galego então apresentava, com relevo para a singularidade do modelo urbano das Rias Baixas, que Viña e Dalda tão profundamente estudaram e planearam.)
Precisei deste longo introito para comentar, como o mundo é pequeno e comprimido no tempo, um artigo interessante que o atrás referido Andrés Precedo Ledo, hoje liberto da grilheta das comarcas e sem funções, creio eu, na Xunta da Galiza, publica hoje na VOZ DE GALICIA, precisamente sobre o sistema urbano galego.
Quem conhece os antecedentes deste tema, diria que Precedo Ledo teve uma espécie de revelação e que, liberto da infeliz ideia da comarcalização da Galiza, recorre finalmente às lentes adequadas para ler e compreender a transformação urbana acelerada que a Galiza presentemente vive e que os meus Amigos Viña e Dalda anteciparam com inteligência e finura de análise.
A tese que o referido artigo expõe consiste, finalmente direi eu, em reconhecer que a Galiza das duas cidades, baseada no contraponto entre o modelo urbano-industrial de Vigo e o urbano-financeiro da Corunha está a transformar-se aceleradamente num sistema urbano marcadamente policêntrico, estruturado por uma rede de cidades “mais especializada, melhor conectada e orientada para a economia do conhecimento”. Uma rede que abandona a tal bipolaridade para atribuir funções especializadas a cidades como Santiago de Compostela (investigação, biotecnologia e ciências da computação), Ferrol, Lugo, Ourense e Pontevedra, as quais buscam a sua diferenciação em áreas como “a energia eólica a energia marinha, a digitalização dos estaleiros navais, a indústria de drones, a bioeconomia, a saúde termal, a cibersegurança ou a indústria aeroespacial”.
Por outras palavras, Precedo Ledo reconhece finalmente a relevância da lógica de sistema urbano em profunda transformação.
Este reconhecimento, em meu entender, só faz jus à inovação analítica que os meus Amigos urbanistas galegos revelaram há mais de 30 anos e premeia também a intuição política que o Eixo Atlântico evidenciou desde muito cedo ao inscrever a lógica de sistema urbano na cooperação inter-regional e transfronteiriça e ao considerar o sistema urbano como o grande elemento de estruturação da Euro-região.
Quem diria!

Sem comentários:
Enviar um comentário