sexta-feira, 24 de julho de 2026

THE AMERICAN EXPERIMENT

Uma proposta para férias a quem for assinante da Netflix: uma excelente série histórico-documental em cinco episódios sobre as origens e a atualidade da democracia americana: “The American Experiment”. Produzida por várias personalidades, entre as quais Tom Hanks, realizada por Brian Knappenberger e contando com participações como as de Kamala Harris, Al Gore, Mike Pence, Hillary Clinton, Ted Cruz e Nancy Pelosi – uma mescla de Democratas e Republicanos que comprova quanto os dois lados partidários, hoje aparentemente incapazes de qualquer concordância substantiva, podem conseguir associar-se na valorização do idealism and spirit behind one of the greatest underdog narratives in history –, a peça foi realizada com vista a celebrar os 250 anos de fundação dos EUA e contém elementos essenciais, e até inovadores, para uma melhor compreensão do complexo processo que levou aqueles treze territórios colonizados pelos britânicos à independência, à sua inédita auto-organização institucional e governativa e à sua sobrevivência ao longo de dois séculos e meio. Mas o dito documentário não deixa também de questionar o presente e as vicissitudes trumpianasque o marcam, o que surge bem sintetizado desde o final do primeiro episódio na canção folk interpretada por Laura Marling (“Devil’s Spoke”) que tem por apropriado refrão All of this can be broken.
 
A este propósito, o realizador é claríssimo em entrevistas que concedeu. Numa frase: the experiment is clearly ongoing. E acrescenta: “Herdamos algo incrível – e estamos na iminência de o perder”. Na série, explica-o a diversos títulos, designadamente  pela voz de Mike Pence, quer quando este relata os lastimáveis acontecimentos de 6 de janeiro e as pressões a que resistiu face a Trump para que não cumprisse o seu dever de validação da vitória de Biden em 2021, quer quando o mesmo recupera, vinte anos depois, a louvável certificação por Al Gore dos controversos resultados eleitorais que então lhe atribuíam uma derrota contestável. Voltando ao presente, Knappenberger refere que os desequilíbrios de poder que prevalecem seriam certamente interpretados como “surpreendentes para os fundadores”, designadamente no que toca às relações entre o Congresso e os apaniguados de Trump – no entanto, “o medo de perder tudo é realmente uma fonte da nossa força” (afirma o historiador conservador Yuval Levin) e, por isso, “atravessamos uma boa dose de momentos de crises verdadeiramente sérias”, ultrapassando-as através de um come together que também agora não irá permitir que o futuro fique em questão.
 
Junto uma síntese do conteúdo dos cinco episódios em causa:
· 1. Freedom: Early military actions of George Washington and colonial pushback against British taxes.
· 2. Tyranny, Like Hell, Is Not Easily Conquered: Drafting of the Declaration of Independence and early military struggles.
· 3. The United States Are Not United: Seeking foreign alliances during the Revolutionary War using Benjamin Franklin.
· 4. We the People: Post-war government formation and constitutional creation.
· 5. Washington's Warning: George Washington's presidency and the emergence of early political rivalries.
 
Termino sublinhando que o documentário é imperdível no que nos traz de memória, conhecimento e análise, mesmo se alguns críticos se lhe referem como tendo limitado restritivamente as dimensões autopunitivas à importante questão da escravatura e suas diversas facetas factuais e filosófico-concetuais. Uma quase verdade que não impede, porém, referências frontais à questão dos povos índios e, sobretudo, cuja perspetiva subjacente omite o objetivo primordial do projeto em causa e a virtuosa abrangência do seu cumprimento.

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