(Hamid Sahari, https://x.com/Hamidsahari20)
Quem diria que as minhas incursões de análise futebolística internacional acabariam com um louvor a Messi e uma reprovação de Cristiano Ronaldo? Pois a verdade é que o comportamento que CR7 vem evidenciando de há anos, tendo atingido o cúmulo neste Mundial, só pode ser classificado como miserável. Como miserável é a subserviência covarde dos responsáveis principais, o selecionador Roberto Martinez – cuja incompetência e manha foram objeto de grotesca exibição nestes seus quase quatro anos de contrato –, o presidente da Federação Pedro Proença – um “sempre em pé” que nunca foi sequer capaz de tentar pôr alguma “ordem na casa” – e, ao que vimos ontem nas suas declarações de final do jogo, o primeiro-ministro – que preferiu as trivialidades de um duvidoso “politicamente correto” ao balanço crítico que se lhe deveria ter imposto não fora o seu saloio “esforço” de se deslocar três vezes aos Estados Unidos (ao que se julga no avião do Estado Português) com a equipa ainda longe das grandes decisões apenas pela forte consciência que tem das suas obrigações associadas à sua alegada e irredutível afiliação ao povo de que emana e que representa. Cada vez mais me convenço quão decisivo é “tomar chá em pequeno”...
A mesma lógica de considerações vale para CR7, um pobre diabo com enorme vocação para o futebol e para o trabalho físico que subiu a pulso as escadas do merecimento profissional e da notoriedade mundial mas não alcançou o entendimento de que tal mais não lhe asseguraria do que brutais condições materiais e de vida e não qualquer direito a vedetismos despropositados e a interferências indevidas. As suas declarações no final do jogo de ontem foram, nessa linha, de uma infelicidade atroz.
Ninguém no mundo que seja minimamente lúcido em matéria de futebol, para não dizer de conhecimento dos limites naturais do ser humano, poderá contrariar as afirmações de Ibrahimovic a propósito da relação entre o escalonamento da equipa portuguesa neste Mundial e as suas ambiciosas pretensões, designadamente no tocante a uma liderança do ataque nacional conduzida por um jogador de 41 anos (e com Gonçalo Ramos no banco e a marcar quase sempre quando teve alguns minutos). E volto ao início, recorrendo ao venenoso Mourinho quando há uns anos se referiu à comparação e rivalidade então no auge entre Messi e Cristiano.
Terminado o embuste que nos quiseram vender, vamos brevemente ao jogo de ontem. Desde logo, a constituição da equipa: mais do que previsível face aos tiques conservadores de Martinez, estranhei ainda assim que Cancelo e Bruno Fernandes se tivessem mantido e que tenha sido João Félix o eleito para o lugar de Rafael Leão. Mas adiante, até porque vimos Félix a fazer finalmente um jogo positivo e empenhado. Na segunda parte, o posicionamento e a atitude da equipa logo deixaram antecipar o pior de uma lógica ainda mais defensiva e de entrega da bola aos espanhóis; acrescem as substituições, que foram desastrosas: Nuno Mendes por Nelson Semedo foi obrigatório face à lesão do primeiro (um momento de azar para um dos poucos que se exibia a nível adequado), mas as de Cancelo por Dalot e Neto por Conceição foram inócuas (quando havia a hipótese não queimar uma substituição, explorando a mobilidade e eficácia de Ramos sem mexer na “estátua”, e de utilizar o efeito-surpresa de Trincão ou Gonçalo Guedes em vez do pequeno Francisco) e as entradas de Rafael Leão e Bernardo SIlva aceitam-se, ou só talvez no segundo caso (porque também se podia ter equacionado Rúben Neves ou até o inventado e já usado Samu Costa), mas nunca por troca com Félix e Vitinha (os que melhor se apresentavam no miolo). Mau demais, portanto, perante uma seleção espanhola que está bem longe da categoria de algumas das suas mais brilhantes antecessoras!
Por fim, uma nota sintética de balanço geral. Para sublinhar que o melhor jogador da seleção nacional foi Diogo Costa – o que também serve para demonstrar quanto a mesma não cumpriu os mínimos –, o salvador que fez com que a equipa sobrevivesse largamente à sua incapacidade em três dos cinco jogos realizados (Colômbia, Croácia e Espanha). Indiscutíveis nesta seleção são ainda Nuno Mendes e Pedro Neto (já Rafael Leão precisa de abordar a questão da concentração em campo para o ser igualmente) e, se CR7 deixasse, sê-lo-ia naturalmente Gonçalo Ramos (recentemente adquirido pelo AC Milan por mais de 70 milhões de euros). Depois, será justo referir que Rúben Dias ainda é o nosso melhor central (sem prejuízo de momentos em que parece desligar) e que Renato Veiga se consolidou como o segundo na hierarquia dessa tipologia de defesas (Tiago Gabriel, hoje no Lecce de Itália, será proximamente uma hipótese a considerar com seriedade), e será honesto confessar que nem Vitinha, nem João Neves, nem Bruno Fernandes, nem Bernardo Silva fizeram jus ao prestígio de que granjeiam – embora todos, e especialmente os dois primeiros, sejam peças fundamentais ou não desprezíveis na seleção portuguesa dos próximos anos – assim como apontar que Cancelo mantém caraterísticas de prestação cíclica (é capaz do melhor e do pior e a frescura física já vai falhando) que justificam que se olhe para o lateral-direito do FC Porto Alberto Costa.
Enfim, toda uma renovação suave a implementar com urgência pelo novo selecionador – curiosíssimo como a incompetência de Martinez tornou Jorge Jesus (diz-se que já anda a aprender português!) uma escolha quase indiscutível –, sendo que a sua principal motivação terá de estar na preparação e definitiva adoção de um estilo de jogo coerentemente ofensivo e consistente com os recursos à disposição.







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