(A sobrevivência política do Presidente Lula no Brasil não é coisa que esteja por natureza assegurada e a minha intuição diz-me que a esquerda brasileira estará em maus lençóis se não construir atempadamente uma alternativa assente numa figura que consiga assegurar a desejada transição e bloquear que a onda populista de extrema-direita não penetre também o Brasil. Além disso, o posicionamento de Lula na cena internacional é tudo menos claro, sobretudo do ponto de vista do seu relacionamento com a Rússia de Putin, com reflexos na abordagem ao problema da Ucrânia. Porém, a voz rouca de Lula continua a ser indispensável em algumas questões da cada vez mais complexa situação internacional e, embora ameaçados politicamente, Lula e Pedro Sánchez são um verdadeiro oásis no mundo de líderes cobardes e oportunistas que se passeiam pelas reuniões internacionais. Tudo isto vem a propósito da recente afirmação de Lula que vociferava sobre a inqualificável proclamação de Trump que iria controlar de novo o movimento marítimo no estreito de Ormuz, acrescentando a essa decisão uma outra de impor uma taxa de 20% sobre os fluxos comerciais por ali realizados para remunerar esses serviços. Ora o que Lula afirmou alto e com bom som é que se tratava de um regresso à pirataria e que Trump era o pirata dos tempos modernos por aquelas bandas do Estreito. Obviamente que as virgens diplomáticas ofendidas e os florzinhas dos salamaleques mais elegantes virão a terreiro afirmar que isso não é linguagem própria de um estadista e que a política não pode entregar-se aos sortilégios da rua e da populaça. Mas, se pensarmos bem, é de pirataria da grossa que se trata, sobretudo porque a situação atual no Estreito resulta de um erro de cálculo político que o próprio Trump praticou. Não sabemos se a sua proclamação acabará por engrossar a já vasta gama de afirmações sem concretização, seja porque os ventos mudam de feição, seja porque sim, simplesmente.)
Se estivermos atentos aos efeitos e reações que tão estranha decisão provocou nos agentes logísticos e de transportes marítimos que asseguram a passagem pelo estreito de Ormuz das cargas petrolíferas e de outras mercadorias, percebe-se que a preocupação é manifesta, dado o impacto nos custos de movimentação dessas mercadorias será elevado. Se alguns desses operadores tiveram força e dimensão suficientes para impressionar Trump e os seus mais próximos é natural que a medida não passe da inventiva de um pirata fogoso e que rapidamente encontrará um outro ponto de interesse para o seu narcisismo. O New York Times reproduz um pequeno cálculo de um operador logístico especializado e que reza em termos simplificados o seguinte: para um custo de 80 dólares o barril, o custo praticado pelas companhias de transporte anda hoje pelos 10 dólares; no caso da taxa de 20% ser aplicada, isso significará 16 dólares mais e que o custo de transporte passará para 26 dólares o barril. Nesse caso, para um transportador que movimente dois milhões de barris, a medida de Trump implicará um custo adicional de cerca de 30 milhões de dólares, que dificilmente não será repercutido para os consumidores.
Se isto não é pirataria, aceito explicações em contrário. Mas compreende-se que a voz rouca e cansada de Lula tenha soado de diferente maneira.

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