quarta-feira, 15 de julho de 2026

SOBRE A AGONIA DO BLOCO

 

“Todos ralham e ninguém tem razão” será talvez a melhor síntese da mais recente, e significativa, cisão ocorrida no Bloco de Esquerda e ontem comunicada. Com efeito, e na sequência de outras já verificadas, a desfiliação de um grupo de 60 militantes do Bloco (incluindo Mário Tomé e Pedro Soares como nomes mais sonantes, este último que foi um deputado ativo e competente) – classificada pela Direção liderada por José Manuel Pureza como mais uma etapa de “ação coordenada” e “decisão programada e repetidamente anunciada na comunicação social” por parte dos críticos internos – não deixa de constituir, objetivamente, mais um golpe num partido que chegou a desempenhar um papel importante na política portuguesa e que o perdeu por sua obra e graça e consequente aproveitamento de António Costa.

 

Embora por mera coincidência de timings, o facto permite-me voltar ao post de anteontem para avançar mais alguns elementos sobre a desorientação que grassa na esquerda nacional (e internacional, já agora). Porque o que parece guiar a saída dos ditos críticos internos vai simultaneamente ao arrepio e ao encontro do que necessita uma esquerda adaptada aos tempos presentes. Por uma banda, adiantam-se argumentos estafados e insuscetíveis de mobilizar uma franja minimamente representativa dos cidadãos – que o “núcleo dirigente” fez do acordo e continuidade da “geringonça” uma estratégia política “que o fez perder autonomia”, que o partido se confundiu “com a prática do Governo” e “passou a ser visto como um apêndice do PS”, que cedeu em áreas como a da Saúde e da Habitação, que “não foi claro na recusa da ofensiva contra lutas sindicais” e o pacote laboral e “fugiu a quem trabalha” (citando Tomé), que fez da ação no Parlamento o cerne político, que assim se rendeu “a uma social-democracia por sua vez dissolvida no neoliberalismo”; tudo evidências de um posicionamento excessivamente ideologizado e que colhe cada vez menos. Por outra banda, explicitam-se razões que indiciam a presença de uma organização partidária envelhecida por práticas demonstradamente inconsequentes – “centralização da atividade”, “organização de base desprezada”, cerceamento da democracia e da participação, recusa de uma reflexão autocrítica e de qualquer balanço da ação política, insensibilidade à crítica interna, “perseguições” a militantes, em suma, uma imposição autocrática na esfera interna (e não há fumo sem fogo...) que contraria as crescentemente imprescindíveis essências de democraticidade e transparência numa época dominada pelas redes sociais e pela inteligência artificial.

 

Um aspeto específico merece ser ainda referenciado em sentido oposto ao assumido pelos críticos: o que se liga à acusação do secretariado do Bloco de que as divergências dos dissidentes se manifestam desde há muito, nomeadamente na crítica da posição solidária do Bloco com o povo ucraniano, vítima da invasão de Putin”. Aspeto que aqueles confirmam ao sustentarem que o partido mostrou apoio à guerra da Ucrânia e enquadrou a mesma como uma “luta pela autodeterminação”, em vez de se ter focado em denunciar a “intervenção da NATO a Leste” – uma narrativa que é, no mínimo, duvidosa...

 

Tudo aponta, nesta zona do espetro político, para um declínio imparável que, quase paradoxalmente, parece dar razão aos críticos internos do Bloco, agora ex-militantes: sim, tudo conduz a sugerir que o partido acabou, tudo corrobora quanto o partido “não mostra capacidade de interpretação da realidade ou vontade de agir” (citando Tomé), tudo tende a atestar a inexistência de “um projeto autónomo credível”. Mas o verdadeiro busílis da questão está longe da orientação que eles pretendiam fazer ressaltar quando lamentavam, na conclusão do seu comunicado, “ o fim de um projeto que se destinava a unir amplos sectores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal, tendo como horizonte a radical transformação da sociedade”.

 

Muito TPC à vista para as hostes que trouxeram Francisco Louçã, Luís Fazenda, Fernando Rosas e Miguel Portas, seguidos depois de outros como Mariana Mortágua, ao palco do espaço político nacional, deles sendo exigível que não abandonem o barco que coletivamente construíram como meros ratos tolhidos pela cegueira e pela surdez e por uma intolerável irresponsabilidade...

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