“Todos ralham e ninguém tem razão” será talvez a melhor síntese da mais recente, e significativa, cisão ocorrida no Bloco de Esquerda e ontem comunicada. Com efeito, e na sequência de outras já verificadas, a desfiliação de um grupo de 60 militantes do Bloco (incluindo Mário Tomé e Pedro Soares como nomes mais sonantes, este último que foi um deputado ativo e competente) – classificada pela Direção liderada por José Manuel Pureza como mais uma etapa de “ação coordenada” e “decisão programada e repetidamente anunciada na comunicação social” por parte dos críticos internos – não deixa de constituir, objetivamente, mais um golpe num partido que chegou a desempenhar um papel importante na política portuguesa e que o perdeu por sua obra e graça e consequente aproveitamento de António Costa.
Um aspeto específico merece ser ainda referenciado em sentido oposto ao assumido pelos críticos: o que se liga à acusação do secretariado do Bloco de que as divergências dos dissidentes se manifestam desde há muito, nomeadamente na crítica da posição solidária do Bloco com o povo ucraniano, vítima da invasão de Putin”. Aspeto que aqueles confirmam ao sustentarem que o partido mostrou apoio à guerra da Ucrânia e enquadrou a mesma como uma “luta pela autodeterminação”, em vez de se ter focado em denunciar a “intervenção da NATO a Leste” – uma narrativa que é, no mínimo, duvidosa...
Tudo aponta, nesta zona do espetro político, para um declínio imparável que, quase paradoxalmente, parece dar razão aos críticos internos do Bloco, agora ex-militantes: sim, tudo conduz a sugerir que o partido acabou, tudo corrobora quanto o partido “não mostra capacidade de interpretação da realidade ou vontade de agir” (citando Tomé), tudo tende a atestar a inexistência de “um projeto autónomo credível”. Mas o verdadeiro busílis da questão está longe da orientação que eles pretendiam fazer ressaltar quando lamentavam, na conclusão do seu comunicado, “ o fim de um projeto que se destinava a unir amplos sectores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal, tendo como horizonte a radical transformação da sociedade”.
Muito TPC à vista para as hostes que trouxeram Francisco Louçã, Luís Fazenda, Fernando Rosas e Miguel Portas, seguidos depois de outros como Mariana Mortágua, ao palco do espaço político nacional, deles sendo exigível que não abandonem o barco que coletivamente construíram como meros ratos tolhidos pela cegueira e pela surdez e por uma intolerável irresponsabilidade...

Sem comentários:
Enviar um comentário