Socorro-me da cobertura feita pelo “Público” ao XVII Congresso do Livre, realizado em Sintra. Um partido simpático, com apenas dez anos de existência e até agora muito enfeudado às boas intenções e ao voluntarismo de Rui Tavares – sem prejuízo da emergência de outros quadros com qualidade (Jorge Pinto, Isabel Mendes Lopes, Paulo Muacho) – com reflexos no cometimento de erros relativamente graves de posicionamento estratégico e conjuntural (vejam-se, designadamente, os episódios em torno de Joacine Katar Moreira ou de Francisco Paupério), fruto do lirismo que por vezes ostenta (a despeito da sua excelente ou boa preparação em variados domínios).
A reunião plenária era encarada como centrada numa eventual mudança de liderança (que parcialmente ocorreu) e numa eventual mudança do partido (que essencialmente não ocorreu). As figuras mais visíveis do partido mantêm-se como aquelas que, para o melhor e para o pior, irão continuar a influenciar os destinos da organização. E os seus remates conclusivos dizem quase tudo nessa perspetiva, i.e., sobre o excessivo triunfalismo que os anima – entre Isabel Mendes Lopes (“está aqui a refundação da esquerda”) e Jorge Pinto (“é mesmo inevitável que o Livre vai chegar ao poder”).
Mas há qualquer coisa de potencialmente virtuoso que emana do Livre, seja por via da juventude militante que patenteia seja por via do discurso aberto que procura acrescentar às opções da esquerda. Ainda assim, julgo que importaria que os responsáveis do partido se esforçassem por ganhar credibilidade adicional junto da opinião pública por via de um rompimento mais claro com as velhas tradições provenientes de posicionamentos e atitudes de caducado referencial revolucionário e, também, de se deixarem cair menos na tentação de modernismos laterais face ao que de fundamental o País de hoje necessita de enfrentar (da luta indefensável pela semana de quatro dias à questão romantizada da mobilidade nacional, para não explorar a sua autoapresentação enquanto “uma esquerda libertária, ecologista e europeísta”, o que quer que tal possa significar e implicar em concreto e diferenciadamente).
Além disso, temos a tática. O Livre diagnostica bem alguns traços marcantes da sociedade portuguesa – colocando a regionalização na agenda (mesmo que de uma forma ainda demasiado colada com cuspe) ou reagindo à ascensão da extrema-direita (“Percebi também que muitas pessoas sentem que perderam voz. Uma parte do eleitorado que hoje vota no Chega fá-lo mais como forma de protesto do que por convicção ideológica. Queremos disputar esse eleitorado, mostrando que também pode encontrar representação no Livre.”, declarou Jorge Pinto) –, admite as suas debilidades (determinando a sua necessidade de crescer, estruturar a organização a nível nacional, aumentar a ligação ao Paísvalorizando a autonomia local e uma lógica descentralizada) e defende a construção de pontes e cooperação entre as forças progressistas (embora pretendendo favorecer o seu crescimento orgânico e a sua “identidade própria”).
Não obstante, os protagonistas do partido vão longe demais quando referem, algo contraditoriamente, que “o Livre nasceu para refundar e congregar a esquerda” e assim rejeitam qualquer coligação duradoura com o Bloco ou com o PS (afirma-se mesmo que querem “condicionar o PS no Orçamento” e que “o PS só voltará a ser Governo com a ajuda do Livre”), quando avançam com metas para o futuro (que só podemos qualificar como de horizonte longínquo) – “Nas próximas legislativas queremos afirmar-nos como a quarta força política. A médio prazo, ambicionamos tornar-nos o terceiro maior partido português.”, definindo um tal prazo como “dois ciclos eleitorais, cerca de dez anos” – e quando esquecem, portanto, a velocidade vertiginosa da realidade, ou seja, a urgência de uma ação focada que seguramente não poderá esperar pelas várias iterações a promover antes da “mudança de ciclo político, em Portugal e na Europa” no quadro da qual “queremos que o Livre esteja na linha da frente”.
Os críticos de dentro, e talvez também de fora, têm a sua quota de razão: o Livre pode e deve ter um papel na construção e afirmação de uma resposta adequada aos dilemas do País mas esse desiderato não pode ganhar tração e reconhecimento sem que o partido mude como talvez não tenha mudado no Congresso do fim de semana.


Sem comentários:
Enviar um comentário