(A noite de ontem tinha a atração do Argentina-Inglaterra, sempre picante, mas com o otimismo da alma argentina poder sobreviver à onda destrutiva dos Milei deste mundo. Apesar dessa atração, pesou mais o concerto da Orquestra XXI na Casa da Música, visualizando depois o que antecipava poder ser um jogo épico. E posso afirmar com segurança que não me arrependi dessa decisão. O meu entusiasmo assentava em três razões relevantes. Primeiro, o projeto em si. A Orquestra XXI que poderíamos considerar ser a diáspora portuguesa de jovens músicos por todo o mundo é daquelas coisas que faz bem à alma dos portugueses mais amargurados, dada a qualidade que está assente naquela juventude. Segundo, era a primeira vez que assistiria em público a uma direção do maestro Dinis Sousa, que para mim, entre outros importantes cartões de visita e reconhecimento em diferentes orquestras por todo o mundo, tem a importante referência de ter substituído John Elliot Gardiner, era o seu assistente, quanto este destrambelhou e começou a ser inconveniente por razões psicológicas com as orquestras e artistas que dirigia. Dinis Sousa assumiu essa responsabilidade e as referências que recebeu por essa prestação em tão difíceis condições elevou o seu nome na crítica internacional e nas revistas da especialidade (Diapason, BBC Music e Grampphone). Terceiro, porque o programa era aliciante – uma estreia internacional de uma compositora portuguesa residente nos EUA, Andreia Pinto Correia, a combinação do concerto para piano e orquestra de Grieg em lá menor e a Sinfonia do Novo Mundo de Dvorjak e a possibilidade de visualizar pela primeira vez, no concerto de Grieg, uma jovem pianista Marie-Ange Nguci. Creio que o auditório da Guilhermina Suggia reconheceu a qualidade desta combinação, proporcionando a Dinis Sousa, a Marie-Ange Nguci e aos jovens da Orquestra XXi uma das maiores ovações a que já assisti naquele auditório.)
Tratando-se de artistas, o maestro e os elementos da Orquestra XXI, que fazem vida artística no estrangeiro, a iniciativa de os manter em rede e contacto através desta iniciativa é das únicas que conheço, na qual existe a preocupação de combater a atomização que regra geral define a nossa presença no mundo, em flagrante oposição com o que se passa com algumas “tribos-comunidades” de diásporas conhecidas. A qualidade da orquestra é superlativa e no concerto de Grieg a identificação da pianista com a direção de Dinis Sousa e o desempenho da orquestra foi sublime, com a vantagem de ser uma obra conhecida e que entra com facilidade nos nossos ouvidos incultos e impreparados. Ficamos sempre com aquela interrogação amarga na cabeça: quando e como será possível conseguir que grande parte deste talento se fixe no país? Quando teremos capacidade de iniciativa institucional para capitalizar esta virtuosa passagem por grandes orquestras deste mundo de tanto talento?
Se alguém tinha dúvidas, a pujança com que a Sinfonia do Novo Mundo foi abordada entregou o auditório à mais pura fruição do momento. Decididamente não era uma orquestra de principiantes que tínhamos a oportunidade de ver e ouvir. E foi gratificante ver que, nos aplausos finais, os elementos da orquestra se saudavam a abraçavam, a prova mais explícita de que a Orquestra XXI é também uma forma de afetividade coletiva.
O texto do programa, organizado pela própria Orquestra XXI, é especialmente feliz quando se afirma: “Na Orquestra XXI, há um país que se dá a conhecer através do talento e da sensibilidade artística. Um país que se faz ouvir pelo mundo e que na orquestra se encontra para recordar de onde vem”. Aqueles abraços no palco significavam precisamente e nada mais do que isso.
Nota complementar
No pós-visualização do Argentina-Inglaterra confirmei uma vez mais a existência de uma alma argentina, a insuperável leveza e inteligência de Messi e a confirmação de que Tuchel, alemão selecionador de Inglaterra pode dedicar-se a outra coisa, plantar batatas ou o que quer que seja. Fazer recuar a equipa depois do golo alcançado, colocando fora jogadores que interpretam o ataque como ninguém e defender com cinco ou seis jogadores é dos erros mais trágicos que alguma vez vi em jogos de futebol.

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