segunda-feira, 27 de julho de 2026

PASSADEIRA VERMELHA PARA VENTURA

 


(Tenho por vezes a sensação, e não será a canícula a explicá-la, de que o comportamento das duas forças políticas estruturantes da democracia portuguesa, PSD e PS, laboram frequentemente em erros políticos de palmatória, que tenho dificuldade em entender, não me considerando de todo um iluminado do comentário político. Seguramente que o meu afastamento deliberado do centro da prática política quotidiana desses partidos poderá explicar essa minha dificuldade de compreender alguns dos seus comportamentos. Passa-se algo de semelhante por estes dias quando assisto atónito e cada vez mais intrigado ao modo como, à sua maneira, desconchavada em ambos os casos, PSD e PS têm colocado uma passadeira vermelha ao aproveitamento político que Ventura e o Chega têm realizado da inconcebível prestação política e ética do ministro da Administração Interna e do seu legado na Polícia Judiciária. Da parte do PSD, a lógica é a da defesa da continuidade da governação, resistir a todo o custo, como se a permanência no poder permita alimentar todas as esperanças de colocar no esquecimento acontecimentos tão insólitos. Quanto ao PS de José Luís Carneiro estou perplexo quando ao foco colocado no desastre da pretensa gestão digital dos exames nacionais do ministro Fernando Alexandre e da sua equipa mais próxima, escondendo-se num mar de sombras quanto à denúncia necessária da insustentável prestação de Luís Neves. O favor de gala que estes dois comportamentos estão a proporcionar aos avanços de Ventura é de tal maneira incómodo e politicamente surreal que dou comigo, sobretudo em relação ao comportamento do PS, a alimentar-me com as mais amplas perspetivas cabalísticas e sobre as piores razões para explicar o ar manso com que o líder do PS se tem referido ao imbróglio protagonizado pelo ministro da Administração Interna.)

É conhecida a reação positiva que se gerou à esquerda sobre as corajosas tomadas de posição de Luís Neves sobre as alarmistas perceções que o Chega e uma certa direita mais conservadora alimentaram sobre as condições de segurança em Portugal e principalmente sobre a sua pressuposta (não demonstrada) articulação com a intensificação do fenómeno da imigração do país. Obviamente que considero que esse facto não é por si só justificativo de tanta mansidão e indiferença para com o desnorte do ministro da Administração Interna. O mesmo se diga pelo facto de estarmos no meio de uma época de incêndios, sendo por isso necessário poupar o ministro ao incómodo de encontrar justificações plausíveis para tanta irresponsabilidade. Se dermos por certa a inadequação de tais explicações, as interrogações adensam-se e esse é o caminho fácil para Ventura cavalgar todo o processo e emergir aos olhos da população preocupada com tanta interrogação como a única força política a acionar parlamentarmente a bomba de uma Comissão de Inquérito. Com as dúvidas que a prática recente do Ministério Público tem vindo a evidenciar, acompanhado em algumas iniciativas de pura justiça mediática pela Polícia Judiciária, ainda com Luís Neves ao leme, e tendo presente que há exemplos de Comissões de Inquérito espúrias e de verdadeiro desperdício democrático, não consigo descortinar outra forma de escrutínio político de tanta irresponsabilidade ética e política.

Sou assim levado a concluir não apenas sobre a incontornável necessidade do ministro da Administração Interna prestar esclarecimentos públicos e fundamentados sobre decisões ou ausências de decisão tão problemáticas, mas também, por mais paradoxal que isso possa parecer no meu pensamento, sobre a necessidade de José Luís Carneiro explicar com pormenor tão estranha posição.

Estancado até há bem pouco tempo no seu crescimento e às voltas com inúmeras contradições geradas por esse mesmo crescimento, o Chega tem neste processo uma grande oportunidade de preparar uma rentrée política não direi triunfal, mas suficiente para colocar numa inação expectante os dois partidos estruturantes da nossa democracia. Sem fazer nada por isso, limitando-se a cavalgar a inação de quem deveria liderar a proatividade política.

Nota complementar de pesar pessoal

Tomo conhecimento a partir do post do meu colega de blogue do desaparecimento de um colega que muito prezava e com o qual tive duas experiências de avaliação de políticas públicas de inovação inesquecíveis. O rigor de análise, a gentileza do trato e a permanente abertura de espírito a novas perspetivas sobre a inovação empresarial faziam do Vítor Corado Simões uma companhia para sempre recordar. 

A revelação da finitude da vida nos que nos são mais próximos começa a apoderar-se de nós à medida que o tempo inexorável vai correndo.

Até sempre Vítor. 

 

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