(Suas Senhorias as ministras da Saúde e do Trabalho estão por agora de costas folgadas, esquecendo as amarguras da sua governação, porque, entretanto, a trapalhada dos exames e dos atrelados e obras em propriedades transportou para a voracidade das notícias os seus colegas da Educação e da Administração Interna. Como estes colegas eram as “estrelas” do governo de Montenegro, as duas ministras viram finalmente reduzida a pressão mediática que pairava sobre as suas cabeças, a primeira devido a um problema estrutural que continua por resolver e a segunda pela sua teimosia digna de quem está à beira de um ataque de nervos e dos fortes. Quanto ao problema dos exames ele já mereceu atenção suficiente neste blogue, estando convicto que os problemas mais sérios vão começar agora a emergir depois de alguns dos resultados terem sido publicados. A máxima de que o que nasce torto nunca se endireita vai aplicar-se aqui na perfeição e o ministro Fernando Alexandre vai ter seguramente as férias comprometidas. Cumpre dizer que outro ministro vai estar implicado, Gonçalo Matias, ministro da Reforma Administrativa, já que estou seguro que o mesmo acicatou o Ministro da Educação para não recuar nos seus propósitos kamicaze de digitalização. Resta-me, por isso, aguardar o desenvolvimento dos acontecimentos para compreender a real magnitude dos dados que irão ser observados. Mas, do ponto de vista do que costumo designar de “sociologia da governação”, o caso do ministro da Administração Interna é bem mais interessante e, por isso, vou nele concentrar-me.)
Cada cavadela, cada minhoca. É essa sensação que se experimenta à medida que os pormenores do caso vão sendo desvendados, sobretudo na sequência do que o jornalismo de investigação permitiu concluir. E, por melhor impressão que a passagem do ex-Diretor da Polícia Judiciária para o ministério da Administração Interna tenha causado, num raro momento de confluência entre diferentes forças políticas, a verdade é que o caso espelha melhor do que outra qualquer evidência a pequenez foleira que ainda está implantada na sociedade portuguesa. A sucessão de evidências comprometedoras é deveras impressionante.
Comecemos pela empresa (ai Barcelos, há outras maneiras de aparecer nas notícias) que está no centro das atenções. A sua precariedade é manifesta e o melhor indicador é o facto de nem sequer ter neste momento o seu alvará de construção atualizado. Depois, o nacional porreirismo do então Diretor da Polícia Judiciária é de bradar aos céus, utilizando os serviços de uma empresa que contratava com a PJ para realizar obras no seu monte de Odemira, assumindo uma indiferença comprometedora com a confusão entre os planos da contratação pública (que já agora deveria ser investigada) e a mobilização da mesma empresa para obras privadas. Existe ainda a questão de saber se as obras do tal tanque/piscina que aparece nas imagens respeitaram a legalidade de implantação urbanística. Existe ainda a questão das madeiras da REFER que terão sido utilizadas no monte do ex-Diretor da Polícia Judiciária em mais uma demonstração de que para esta gente os limites entre o público e o privado são muito nebulosos. E, por fim (admitamos que sim), levanta-se a questão do atrelado que fora apreendido no âmbito de uma operação de grande envergadura contra o tráfico de droga que apareceu parqueado nas instalações da empresa de Barcelos, alegadamente retirado com autorização do próprio ex-Diretor da Política Judiciária. As declarações da jornalista Felícia Cabrita (que ressurge assim em casos de foro mediático alargado) sugerem que existirá material adicional. Eis como uma das estrelas do governo empalidece gravemente e fica desprovida do seu brilho por força da foleirice que grassa entre a massa crítica de pessoas mobilizáveis para cargos públicos e para a classe política. Os casos de foleirice são tantos que, existindo um check up das situações possíveis que podem configurar problemas posteriores, o rol de condições é tão grande que, antes de começar a responder a tais critérios, o candidato já terá debandado, comprometido com os possíveis conflitos de interesses e desvios éticos reprováveis.
E a pior sensação que este caso provoca é a ideia de que se trata de comportamentos, práticas e desvios que são comuns e generalizados. A reação mais lógica que me assiste é a de rever todas as apreciações positivas que a indicação de Luís Neves para Ministro da Administração Interna suscitou, incluindo algumas intervenções corajosas sobre a desmistificação das condições de segurança e da sua associação ao crescimento da população imigrante. Afinal, pensando bem, questões de competência e coragem políticas estão a ser comprometidas com estas manifestações da foleirice mais interesseira. Isso é que representa em meu entender a maior fonte de preocupação e, tratando-se de práticas enraizadas na sociedade portuguesa, então a preocupação adensa-se ainda mais.
Entretanto, para o primeiro-Ministro nada disto é relevante, o que sugere fazer ele parte do tal estado de coisas enraizado na sociedade portuguesa. Afinal, nada disto nos deveria surpreender. Não emanam os políticos dessa sociedade?

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