Finalizada a final, finalizou também a Copa do Mundo de Futebol. O jogo decisivo ocorreu no MetLife Stadium em New Jersey e foi morno, tático dirão alguns, embora relativamente emocionante. Os espanhóis dominaram largamente a posse de bola e o controlo de jogo, com os argentinos a só darem um ar da sua graça nos últimos dez minutos do prolongamento. Acima, alguns dos momentos da partida, entre o golo anulado a Nico Williams (por decisão pouco compreensível do árbitro esloveno Slavko Vinčić) e a expulsão de Enzo Fernández (tanto de bom jogador como de “caceteiro”) ou entre o golo de Ferran Torres e o indesculpável enervamento que assaltou Paredes e Molina no termo do encontro, com a imagem comovida de Messi a ficar para a história do desporto-rei.
A prova que se desenrolou ao longo de quase mês e meio foi um sucesso maior do que se esperaria, consideradas as cedências regulamentares e de múltipla ordem por parte da FIFA e atentas as ameaças iniciais decorrentes do “trumpismo”, mas teve em mim três impactos inesperados e que sempre teria negado como possíveis: (i) apoiar a “inimiga” Espanha num qualquer jogo, o que se tornou possível face ao “colinho” de Infantino em relação a Messi e, portanto, à Argentina (sobre os EUA nem vale a pena falar), também pelas atuações condescendentes dos árbitros em relação à “pancada” distribuída pelos azuis-celestes (veja-se o caso do jogo com a Inglaterra, p.e.); (ii) testemunhar o final de uma época do futebol mundial que foi marcada por uma duradoura rivalidade Messi-CR7 a sentir dever admitir que o argentino é claramente o mais completo jogador de entre os dois (mais talentoso e mais coletivo) e, assim, talvez o melhor de todos os tempos; (iii) aceitar de bom grado, após as prestações de Portugal neste torneio por obra e graça essencial de Roberto Martínez, a contratação de Jorge Jesus (um “ cromo” a explicar-se e envaidecer-se mas alguém que não deixa de ser um profissional esforçado) para ser o selecionador nacional que nos comandará nos quatro próximos anos.
Voltando a ontem, a FIFA lá distribuiu também os prémios individuais, poupando-se a grandes hesitações com a entrega dos três troféus a jogadores espanhóis – melhor jovem, o central Pau Cubarsí (justíssimo!); melhor guarda-redes, o bilbaíno Unai Simón (seguro mas sem ter tido ocasião de fazer grandes intervenções); melhor jogador, o médio Rodrigo Hernández ou Rodri (justo mas duvidoso face às exibições de Messi, o melhor em campo em cinco dos sete jogos que disputou) e sendo forçada a atribuir a “bota de ouro” a Kylian Mbappé pelos seus dez golos (alguns fantásticos!) em sete jogos.
Curiosamente, o site da FIFA apresenta algum trabalho suplementar neste registo – um top performers ranking em cinco categorias, duas para guarda-redes e três para jogadores de campo (ver abaixo) –, sendo especialmente curiosos os seguintes registos: o nosso Diogo Costa a surgir como o melhor guarda-redes entre os postes; Rodri a ser o eleito para melhor jogador de campo no plano defensivo mas a partilhar essa liderança com Mbappé enquanto atacante e com Michael Olise enquanto criativo; Messi em terceiro atacante e segundo criativo mas a perder saliência global por nem sequer constar nos 100 primeiros do domínio defensivo; saliências adicionais merecidas para os ingleses Jude Belingham e Anthony Gordon, o norueguês Erling Haaland, o francês Ousmane Dembélé, os belgas Jeremy Doku e Charles De Ketelaere e os espanhóis Lamine Yamal, Pau Cubarsí, Aymeric Laporte e Pedro Porro.
Usando a minha prerrogativa de autor deste post, o que me confere o direito de me pronunciar também, adianto abaixo as minhas fáceis escolhas: na baliza, e homenageando o único guarda-redes que não sofreu golos da nova campeã do mundo e o capitão da equipa-sensação do torneio (Cabo Verde), aponto Vozinha (Diogo Costa compreenderá certamente este seu afastamento competitivamente injustificável...); a defesa integra a robustez competitiva dos quatro espanhóis que apenas sofreram um golo em sete jogos; no meio do terreno, indico Rodri a encher o campo com Bellingham e Olise a ajudarem na construção de ataque; no ataque, apenas sobra espaço para os três mais destacados (Messi, Haaland e Mbappé), com um pedido de desculpas a outros notáveis que também foram senhores de autênticas maravilhas. O golo do torneio foi, para mim, o sétimo de Bellingham (contra a França), uma concretização mais elaborada do que as bombas de Mbappé, Haaland, Messi ou Julian Alvarez. Não esqueço também um outro facto digno do maior elogio: a claque norueguesa e o modo inédito como lograram apoiar os seus atletas através de um belíssimo exercício coletivo de remo que se estendeu àqueles de forma contagiante – sem dúvida, a coreografia mais interessante e mais apreciada de todas quantas vimos durante a prova (raparigas jeitosas de todas as formas, feitios e nacionalidades incluídas).
Termino, deixando abaixo uma referência ao testemunho passado entre Lionel Messi e Lamine Yamal, este o futuro mais do que previsível do desporto-rei. Separados por vinte anos de diferença (trinta-e-nove versus dezanove), e tendo sido vagamente contemporâneos na academia do Barça (onde Messi chegou a ser fotografado a dar banho à criança Lamine), eles são inequivocamente parte importante do que de melhor existe no futebol que ambos apresentam como poucos em termos inatos. A imagem do jovem filho de imigrantes (pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial) – que nasceu em Esplugues de Llobregat, cresceu em Granollers e Mataró e se mudou para Barcelona aos sete anos de idade, onde foi rapidamente descoberto pelos “olheiros” do Barça no Club de Fútbol La Torreta para ser levado a juntar-se a La Masia de Can Planes (designação das instalações de treino das categorias de base do grande clube catalão) e ali fazer a sua formação cívica e futebolística – a saudar o seu pequeno irmãozinho é tão ternurenta quão deliciosa.
(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)






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