segunda-feira, 10 de junho de 2019

FABULOSO RAFA!

(Kleber Sales, https://www.pinterest.pt)


No dia em que Portugal venceu a primeira “Taça das Nações” em futebol – numa boa final disputada no Dragão em que brilharam alguns formandos benfiquistas (Gonçalo Guedes, Bernardo Silva e Ruben Dias) que não a coqueluche do momento, João Félix, e em que o Engenheiro que nasceu de rabo voltado para a lua esteve taticamente melhor do que o costume –, o verdadeiro desportista do dia foi Rafael Nadal ao vencer em três horas o seu décimo-segundo (é quase inacreditável este número!) torneio de Roland Garros, afinal aquele que é considerado o mais icónico e representativo (também porque em terra batida) do ténis mundial.


domingo, 9 de junho de 2019

BRAVO!



(Depois de uma meia-final salva pelo relógio suíço Cristiano Ronaldo, a final merece um bravo. Onde se fala do pacto com o divino do Engenheiro Santos, do patinho feio, do rolo compressor, do jongleur e da solidez de ébano.

A meia-final com a Suiça tinha antecipado o pior. Só aquele pacto estranho do Engenheiro Santos com o divino explica o êxito, salvo pela eficácia de relógio suíço que os 34 anos de Cristiano Ronaldo ainda representam. A desorganização da equipa foi de bradar aos céus com vários jogadores à procura do seu papel.

Mas na final de hoje, com o Dragão ao rubro, tudo foi diferente. A aposta no patinho feio Gonçalo Guedes deu resultado. Não é fácil encontrar no futebol português um jogador com tal poder físico e de arranque e sempre que o dito consegue manter a cabeça levantada a forma como galga metros fixado na baliza é única. Por outro, ao jongleur Bernardo foi-lhe atribuído o papel certo no lugar certo, aliás como costuma fazer no City sob a batuta de um outro maestro, Guardiola. Só de acompanhar a competitividade de Bernardo Silva no campo cansa qualquer treinador de sofá, isto depois de uma época desgastante a jogar ao ritmo da Premier League, precisamente por isso e não por outra coisa. O ritmo é outro e bastaria encontrar o lugar certo como hoje aconteceu. Por outro lado, o rolo compressor Bruno Dias hoje também se esmerou, foi suficientemente compressor sem ir às canelas, embora já na parte final e perante o segundo Jong há ali uma gravata que nos poderia ter causado grandes estragos anímicos. Mas o homem do apito também se despedia das lides e talvez não quisesse estragar a festa. Finalmente, a solidez de ébano de Danilo é um regalo para ser apreciado, que jogador espantoso de posicionamento, de resistência, de calma e eficácia defensiva. E nem sequer foi necessário um Ronaldo de exceção para resolver o problema, o patinho feio resolveu com uma bela iniciativa e um belo remate.

Costa e Marcelo agradeceram mais este favor do futebol para manter o ego dos portugueses em cima.

A seleção parece ter encontrado a estabilidade para uma renovação paulatina mas segura e sustentada. Há gente suficiente a despontar e apesar de cada vez desengonçado e de mal com o fato e gravata, o Engenheiro Santos tem por vezes alguns percalços de planeamento de jogo como na meia-final mas o seu pacto com o divino e todos os santos lá vai resolvendo a questão.

Bravo Rapazes. Apanhamos os trutas desprevenidos, alguns dos quais não sabendo provavelmente ainda hoje que raio de competição a Liga das Nações é. E a primeira já cá canta. Amanhã é feriado, vai haver uns discursos, talvez este ano mais heterodoxos do que o costume (veremos o que o jornalista João Miguel Tavares tem para nos dizer a partir da sua Portalegre cujo declínio tanto aprecio pela marca burguesa que ainda paira na Cidade).  Terça-feira voltamos ao trabalho e aos problemas, mas as férias já estão perto, para os que têm posses e cartão de crédito para as usufruir.

DÚVIDAS E CERTEZAS GREGAS

(Ilias Makris, http://www.kathimerini.gr)


Entre outras coisas, as minhas conversas de Trento com Giorgios Papaconstantinou ajudaram-me a largamente esclarecer uma das minhas principais incompreensões, tantas vezes aqui obsessivamente expressas acerca da súbita viragem de posicionamento político do atual primeiro-ministro grego Alexis Tsipras. Por um lado, “ele chegou à borda do precipício, olhou para baixo, assustou-se e voltou para trás”; por outro lado, “ele percebeu os múltiplos riscos judiciais e criminais em que seguramente incorreria – ou a que seguramente o iriam conduziri – se persistisse em retirar o país da moeda única”. Aquele mesmo Giorgios – que durante algum tempo foi sujeito a acusações graves que o levaram a “passar as passas do Algarve”, mas que está hoje bastante tranquilo nas suas funções docentes em Florença, nas suas incursões académicas e intervenções cívico-económicas e nas interessantes dimensões de colaboração ativa com a mulher holandesa com quem vive em matérias do domínio turístico e hoteleiro (com especial ênfase nas ofertas de charme em Ilhas Gregas) – explicou-me também que Tsipras já não terá grande hipótese de continuar a dirigir os destinos helénicos (perdendo, notoriamente, às mãos de um desajustado tratamento da classe média) e assim ainda não estará livre do ressuscitar de possíveis processos contra si, tal como também me deu conta de que Varoufakis não foi eleito para o Parlamento Europeu por uma unha negra e das dificuldades por que passa o ex-PASOK (que o fundamentalismo austeritário destruiu de modo inapelável e imperdoável, estando agora a procurar ressurgir sob a designação de KINAL e no meio de uma grande conflitualidade estratégica entre privilegiar acordos à direita ou uma afirmação à esquerda que já provocou a baixa de Venizelos), tendo-me ainda falado de um esperado regresso da Grécia à normalidade democrática – o primeiro país a eleger um governo dito populista e também o primeiro a derrubá-lo pelo voto – por via da vitória, que dá por certa, da “Nova Democracia” (direita conservadora, filiada no PPE) nas eleições antecipadas a ocorrerem a 7 de julho. No meio disto tudo, ainda falta perceber o que é que António Costa ainda magica no sentido de uma recuperação social-democrata do dito Tsipras...

sábado, 8 de junho de 2019

A MEADA SEM FIM

(Francesco Tullio Altan, http://www.repubblica.it)


Abstraindo de alguns contornos supervenientes, a notícia não difere muito do essencial que aqui postei há dias, mas a situação é de tal modo complexa e perigosa que merece um acompanhamento próximo. Porque a Itália pode estar à beira de uma crise política (Salvini não desarma internamente, apesar de as coisas se lhe terem posto piores no seu objetivo de liderar uma federação da extrema-direita europeia) e/ou de um grave colapso financeiro (até Draghi já veio a terreiro para tentar pôr alguma água na fervura), ambos com prováveis impactos de monta sobre uma União Europeia ainda fragilizada e com a casa por arrumar. De passagem, o país vai também perdendo credibilidade e ganhando irrelevância no quadro europeu, como já começam a apontar os títulos dos seus jornais de hoje. Perante uma tal situação, que seguramente não será suscetível de um prolongamento por muito mais tempo, a pergunta que se impõe persiste: quem dará o primeiro passo de recuo e abrirá a porta a negociações, Salvini ou a Comissão Europeia? Ou irão ser os sacrossantos mercados a vir impor a sua lei de forma mais ou menos abrupta?

(cartoon de Emilio Giannelli, http://www.corriere.it)


VIRAR A MESA DO AVESSO


Um momento prazeroso para marcar em pleno o início de um fim de semana alargado que espero venha a cumprir a sua missão de recarga de baterias bastante em baixo. Visita a Santa Cruz do Douro, concelho de Baião – lembrando Eça: “Santa Cruz é inteiramente de outra natureza. É extremamente belo. O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso. Vales lindíssimos, carvalheiros e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bonito monte.” –, a amável convite do presidente do município local, Paulo Pereira. A ideia era a de corresponder, à terceira tentativa, a uma participação no “Virar a Mesa do Avesso” que o prestigiado jornalista Fernando Alves inventou para casar a literatura com a gastronomia naqueles locais queirosianos. O jovem e talentoso chefe do “Restaurante de Tormes”, António Queiroz Pinto, explorou com mestria e ajuda paterna a sugestão do escritor Alberto Santos (AS), preparando uma deliciosa empada de frango com especiarias servida no interior de um pão especialmente encomendado e uma improvável pá de borrego com mel, ambos pratos milenares e associáveis à presença muçulmana na Ibéria que AS investigou para dar substância aos seus primeiros livros. Antes, e a abrir, António Durães e Filipa Guedes interpretaram o espetáculo “A Vida no Campo” a partir de uma obra de Joel Neto e Catarina Ferreira de Almeida encenada por Luísa Pinto. Um excelente convívio e uma magnífica experiência, mostrando pela enésima vez o que pode ser a exploração da criatividade e da dimensão cultural no fortalecimento dos ativos específicos dos territórios.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

O JARDIM DO ALTO DE SANTO AMARO



(Em tempos que já foram, o blogue de José Pacheco Pereira mostrava regularmente uma fotografia do passar do tempo sobre o Jardim do Alto de Santo Amaro em Alcântara. Por razões familiares e pessoais, as minhas presenças regulares em Lisboa para entre outras coisas visitar filho, nora e os netos Francisco e Catarina, residentes na zona, cruzam-se regularmente com aquele jardim. Mas nunca tinha vivenciado um fim de tarde num puro ambiente residencial, de classe média alta, mas não gentrificado. Como diria o outro, só tenho um adjetivo “gostei”.)

Há sempre razões afetivas e vivenciais nas nossas escolhas sobre as Cidades. Lisboa não foge à regra. Os meus referenciais são de visitante acidental, acumularam-se ao longo de muitos anos, desde a viagem mais longínqua na minha memória em que o meu Pai me colocou no centro do relvado do velho Estádio da Luz, até às sucessivas viagens de trabalho nas quais não me dispenso nunca de exercitar o olhar de visitante acidental. A partir do momento em que uma parte da família se radicou em Lisboa, a dimensão afetiva foi reforçada. Alcântara passou a ser o novo referencial, o centro a partir do qual se equaciona a mobilidade na Cidade. E Alcântara é uma freguesia em que gostaria de viver. Há sinais efetivos de gentrificação (um Bentley lindíssimo pairava imponente numa das esquinas), o preço médio da habitação começa a afastar tipologias de famílias e casais jovens de recursos mais contidos, mas não sei por que razão a freguesia continua a manter um nível aceitável de interclassismo, como aliás é fácil reconhecer nas escolas públicas em que o Francisco e a Catarina preparam o seu futuro.

Desde os tempos em que o hoje desativado blogue Abrupto de Pacheco Pereira inscrevia as imagens da passagem do tempo utilizando o Jardim do Alto de Santo Amaro, aquele jardim sempre exerceu uma influência sobre as minhas imagens da Cidade. Para além disso, tornou-se passagem obrigatória para as pequenas viagens ao encontro dos netos, mas nunca tinha tido a oportunidade de permanecer algum tempo distendido de fim-de-tarde, vivenciando o espaço através da interação entre as pessoas que lhe dão vida.

Pois hoje houve tempo para isso, para um copo de cerveja e os inevitáveis caracóis (com iniciação aos mesmos do Francisco e da Catarina) e sobretudo para perceber a dinâmica humana daquele fim-de-tarde. Vieram-me à memória algumas praças das cidades espanholas quando as mães e pais trocam dedos de conversa depois de irem buscar os filhos aos colégios e escolas. O espaço público do jardim está bem cuidado mas sem luxos e grandes sofisticações. O bar concessionado proporciona algum acolhimento, mas pela vivacidade do relacionamento de jardim dos meus netos compreendi que há ali uma prática de presença e animação do jardim, no espaço que medeia entre o fim das atividades escolares e o regresso a casa.

É tão simples fazer Cidade. Com pessoas e um mínimo de infraestruturas.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

HÁ 75 ANOS



(Algumas notas mais ou menos anárquicas sobre a efeméride do desembarque na Normandia, o dia D nos nossos referenciais históricos, cinéfilos, literários ou simplesmente de imagens que se gravaram nas nossas histórias. Ou como a história nos deveria iluminar para uma relação mais contextualizada e informada com os EUA.)

A Europa vive tempos em que parece que uma forte amnésia varreu a cabeça de muitos indivíduos, dos mais velhos aos mais novos. A Segunda Guerra Mundial e as suas trágicas deflagrações, a violência da destruição, a opressão, a reconquista e a destruição associada parecem a muita gente coisas muito longínquas. Mas é mais uma amnésia seletiva que nos atravessa. Se é verdade que entre os jovens o seu desinteresse pela história, pela leitura e pelo passado explica em parte o alheamento, já para muita outra gente bastariam os ecos familiares da destruição e da perturbação da vida para justificar uma outra atenção. É um facto também que o drama da guerra colonial em Portugal acrescentou novos traumas que talvez tenham apagado para alguns as lembranças do risco a que a liberdade esteve sujeita.

Não tenho lido o que deveria sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Acho que ainda não consegui ler a obra de Anthony Beevor sobre o Dia D. Relembro ecos familiares do modo como na vida quotidiana a Guerra foi vivida. Sempre que algum jornal no meu radar de leituras diárias ou periódicas aprofunda alguns aspetos sou um leitor convulsivo dessas incursões jornalísticas ou mais ensaísticas (link aqui para uma incursão fotográfica do New York Times). Por isso, as recordações cinéfilas são as que mais conservam viva as imagens da Segunda Guerra e em particular do decisivo desembarque. Curiosamente, se é verdade que O Resgate do Soldado Ryan (1998) de Spielberg é o mais recente e também inesquecível, toda a minha memória afetiva praticamente se concentra em O Dia Mais Longo (1962) de Darryl F. Zanuck, talvez pelo facto de o ter visto ainda com pouca idade juntamente com o meu Pai, numa das recordações mais nítidas da sua presença em algo que vivemos em conjunto, talvez só equilibrada com a visualização na televisão da chegada à lua.

Para além da desmedida coragem e abnegação que aquele desembarque representa enquanto feito humano de que nos deveríamos orgulhar infinitamente e para sempre na nossa condição humana de seres cada vez menos corajosos e solidários, o desembarque na Normandia explicita bem o reconhecimento eterno que deveríamos ter para com aquela massa de homens americanos que deram a vida por uma ideia de libertação.

Os tempos que vivemos ameaçam a sobrevivência desse pensamento solidário. De dentro da Europa, surgem aberrações que pretendem driblar a história e cavar novas ameaças a partir do seu interior. Dos EUA emerge uma outra aberração, tão perigosa como a que brota do interior da Europa e aliada com centrais de pensamento que parecem apostadas em cavar a própria destruição da União Europeia e dos valores mais nobres. E da Rússia surgem também ameaças que não honram e comprometem a perceção que os Europeus deveriam alimentar quanto à importância da massa de imensa gente que deu a vida para conter a ofensiva nazi. Por isso, as cerimónias de hoje na Normandia fazem-se com lideranças políticas cuja fragilidade não honra o sacrifício humano que a contenção do nazismo implicou. O sentimento está lá e o nosso reconhecimento também, mas por aquelas cerimónias pairam aberrações e fragilidades que mais do que nunca demonstram que “History matters!”

É algo que a vida do já desaparecido inspirador deste blogue Albert O. Hirschman nos recorda permanentemente.