Uma breve achega sobre o modo como Angela Merkel prepara a próxima Presidência Alemã da União Europeia (UE) e, em paralelo, o seu próprio abandono em alta das lides políticas ativas. Nesta sua recentíssima entrevista, está tudo o que importa no atual momento europeu, incluindo a relativa impreparação europeia para enfrentar a crise e o “interesse alemão” num “mercado único forte” e em que “a UE não se desintegre”. Bons augúrios para o mês que vem?
sábado, 27 de junho de 2020
sexta-feira, 26 de junho de 2020
TRANSPORTES E ÁGUA
(Duas notícias aparentemente desconexas entre si servem-me
de matéria-prima numa noite de expectativa por rever os meus netos de Lisboa
que quase quatro meses depois vêm ao Porto, compensando tantos momentos de
proximidade digital, com a presença física que para nós é tão vital. Transportes públicos e uso racional da água na agricultura são os temas.)
A descarbonização das grandes cidades é um tema fundamental da transição
para um outro paradigma energético em Portugal e no mundo. Trata-se de um desafio
bem anterior à pandemia e todos tragicamente sabemos que despovoar as Cidades e
transformá-las num vazio de movimento não é a solução que pretendemos. A
pandemia colocou-nos perante um “Ó tempo volta para trás” impossível e não é
por aí que queremos caminhar.
Várias formas de mobilidade urbana sustentável têm sido ensaiadas e todas
merecem um quinhão de oportunidades. Os veículos elétricos urbanos de pequeno
porte, a multiplicação do uso da bicicleta, as ecovias urbanas, a diminuição do
casa-emprego para tornar possível a saudável via do andar a pé, o sequestro de
carbono com grandes áreas verdes urbanas são exemplos dessas vias anunciadoras
de futuro. Todas estas nesgas devem ser aproveitadas e quanto mais seguidores
elas tiverem melhor. Mas temos de convir que existe um outro desafio que ou se
ganha ou se perde e se perdermos a contenda isso traz irremediáveis efeitos de
inércia. Estou a referir-me à batalha do transporte público de alta capacidade fundamental
para baixar decisivamente os níveis de motorização automóvel nas Cidades. Assim,
ainda que na sua origem estivessem objetivos de caráter social, a diminuição de
preço dos passes sociais acabou por ter, antes da pandemia, um efeito ambiental
de grandes proporções, trazendo para o transporte público mais utentes e isso é
crucial para evitar as espirais de degradação da qualidade do serviço público.
Integremos agora os efeitos da pandemia neste tema. Com oferta mais
reduzida, os transportes públicos transformam-se pelas condições de
sobreocupação que todos os dias a comunicação social nos recorda que existem
num fator de desigualdade cruel. Por outras palavras, a pandemia obriga as
famílias que não podem regressar à viatura própria a condições óbvias de uma
maior probabilidade de contágio. E afasta naturalmente desse transporte público
uma procura adicional que poderia manifestar-se e que busca na segurança da
viatura própria a alternativa mais compatível com a sua proteção face ao vírus.
Ora aqui temos um domínio em que a pandemia não abre caminho fácil aos
desígnios do Pacto Ecológico, mais propriamente na sua dimensão de descarbonização
das grandes cidades. Antes pelo contrário tende a penalizar esses caminhos e a
adiar de novo o reconhecimento mais generalizado do valor social do transporte
público.
A outra notícia dá conta dos resultados de um estudo promovido pela
Fundação Calouste Gulbenkian sobre o uso (ir)racional da água em Portugal, com
foco no seu uso pela agricultura, que o jornal Público documenta (link aqui). Os
resultados do inquérito realizado junto de agricultores são o que esperaríamos.
A esmagadora maioria dos agricultores não tem uma perceção objetiva da água que
consome, a perceção de que se trata de um recurso barato está generalizada e
71% dos inquiridos não tem sequer um contador ou outra qualquer forma de
registo do consumo.
Nos meus trabalhos profissionais na região Centro, dizia-me alguém da CCDR
Centro que são inúmeros os territórios da região em stresse hídrico fortíssimo.
E não posso deixar de pensar que a visão que ainda predomina em Portugal sobre
a mitigação das alterações climáticas é muito idílica e bondosa. Pouca gente já
se apercebeu que a alteração dos modos de produção e das culturas agrícolas vai
ser tremendo. Essa mesma personalidade falava-me em simultâneo de um grande
investimento de origem turca para a produção de amêndoa no Tejo interior, anunciando
que o cálculo económico estará porventura mais atento às grandes alterações do
que a generalidade dos portugueses incluindo as gentes da agricultura. A
prioridade do uso racional da água a todos os níveis e uma política em conformidade
de incentivos-preço a esse uso racional parecem constituir uma prioridade
vital. Neste caso, com ou sem pandemia conviria não andarmos distraídos.
MÁRIO A GOVERNADOR
(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)
António Costa avançou com a proposta do nome de Mário Centeno (MC) para próximo governador do Banco de Portugal (BdP). Além de esperada, a designação é merecida – mesmo que as escolhas para este tipo de lugares não devam ser encaradas como prémios por bons desempenhos anteriores ou por especiais serviços prestados – e, na circunstância, aquela que mais garantias dá ao País – até porque as alternativas perscrutáveis eram, simplesmente, assustadoras. Pessoalmente, e não sendo propriamente um fã de MC (a história da sua passagem pelas Finanças está largamente por contar de modo compreensivo e objetivo...), fiquei confortado com a dita decisão de entrega da condução do BdP a um técnico competente, experiente e com mundo. A carreira de MC prosseguirá agora bem mais por conta e risco próprios, quem sabe se rumo a um cargo internacional que talvez possa ser o da sucessão de Christine Lagarde – sendo que, para tal, terá de acrescentar algo mais às qualidades que já revelou, o que a acontecer será bem-vindo pelos reflexos positivos que disso necessariamente advirão para a economia nacional. Ele bem disse que ia iniciar um novo ciclo!
quinta-feira, 25 de junho de 2020
DINÂMICAS PANDÉMICAS TERRITORIAIS MAIS RECENTES
(A passagem do epicentro da pandemia após desconfinamento
para o coração da aglomeração de Lisboa tem suscitado interpretações diversas, parecendo
não existir ainda uma interpretação que se sobreponha a todas as outras,
penalizando seriamente a comunicação dos agentes públicos. Tenho seguido os números dos últimos dias numa tentativa de melhor conhecer
o terreno que piso em desconfinamento e ensaio neste post algumas explicações
possíveis.)
Reportando a minha análise aos três últimos dias, o foco pandémico que
paira sobre o coração da aglomeração metropolitana de Lisboa é demasiado
evidente para poder ser ignorado. Vejamos os principais números:
|
Coração da aglomeração metropolitana
|
Números de novos casos nos últimos 3 dias (23 a 25 de
junho)
|
|
Amadora
|
110
|
|
Cascais
|
43
|
|
Lisboa
|
127
|
|
Loures
|
66
|
|
Odivelas
|
119
|
|
Oeiras
|
40
|
|
Sintra
|
163
|
|
Vila Franca de Xira
|
68
|
|
Total
|
736
|
Em torno deste coração metropolitano, podemos anotar ainda alguma dinâmica
de novos casos na Península de Setúbal e no Médio Tejo e Lezíria:
|
Médio Tejo e Lezíria
|
Números de novos casos nos últimos 3 dias (23 a 25 de
junho)
|
|
Azambuja
|
10
|
|
Benavente
|
3
|
|
Coruche
|
1
|
|
Entroncamento
|
1
|
|
Moita
|
20
|
|
Montijo
|
2
|
|
Palmela
|
5
|
|
Salvaterra de Magos
|
1
|
|
Santarém
|
24
|
|
Setúbal
|
21
|
|
Tomar
|
2
|
|
Total
|
90
|
Adicionemos ainda
a estes números os do Oeste e região de Leiria:
|
Oeste e Região de Leiria
|
Números de novos casos nos últimos 3 dias (23 a 25 de
junho)
|
|
Arruda dos Vinhos
|
1
|
|
Bombarral
|
1
|
|
Cadaval
|
2
|
|
Caldas da Rainha
|
6
|
|
Leiria
|
10
|
|
Mafra
|
9
|
|
Ourém
|
8
|
|
Peniche
|
14
|
|
Porto de Mós
|
4
|
|
Torres Vedras
|
5
|
|
Total
|
60
|
Para além destas
evidências, temos essencialmente os surtos de Reguengos de Monsaraz e de Lagos
a marcarem respetivamente as incidências no Alentejo e no Algarve, um número
reduzido de casos na região de Aveiro (Aveiro e Vagos), o mesmo no Tâmega e
Sousa em Marco de Canavezes e a incidência metropolitana a norte limitada a
Vila Nova de Gaia e a Espinho, respetivamente com 18 e 3 casos.
Como explicar
esta inversão que parece estar associada ao processo de desconfinamento?
O início do
epicentro no Norte esteve inequivocamente ligado à internacionalização da sua
indústria, tal como o demonstram as cadeias de contágios a partir de pessoas
que participaram em missões comerciais em Itália e em Espanha. O agravamento da
situação determinou o confinamento do país e este encerramento beneficiou claramente
a grande aglomeração de Lisboa durante algum tempo, pois o seu cosmopolitismo internacional
que teria inapelavelmente reproduzido o número de casos importados viu cerceada
a sua influência disseminadora. A inversão entretanto observada, visível
sobretudo na comparação de hoje entre o número de casos totais confirmados
entre o Norte e a região de Lisboa, com esta última agora na dianteira, parece
ser um produto do desconfinamento. A pergunta de vários milhões consiste em
saber porque razão o desconfinamento tem produzido esta inversão e este
desequilíbrio norte-sul de casos confirmados?
Não esqueçamos
que, por força do encerramento de fronteiras terrestres com Espanha e do transporte
aéreo, a exposição a norte do cosmopolitismo industrial está como que suspensa.
Com a exposição em suspenso dos dois cosmopolitismos diferenciados, o do Norte
e o de Lisboa, terá jogado, penalizando a região de Lisboa, um outro conjunto de
fatores: concentrações logísticas e maior massa de deslocações em transporte público
em casa e trabalho, maiores concentrações de trabalho precário exposto a essas
mesmas condições, maior densidade de bairros problemáticos. Este padrão de
influência é compatível com os valores encontrados para os novos casos nas
regiões algo mais distantes do coração metropolitano de Lisboa (Península de
Setúbal, Médio Tejo e Lezíria, Oeste e Região de Leiria), mas não explica a
razão da construção civil parecer emergir como setor problemático apenas na
região de Lisboa. Continua a não estar disponível uma explicação plausível para
essa evidência determinada pela testagem.
Estando anunciada
a exposição internacional dos dois cosmopolitismos com a abertura de fronteiras
com Espanha e do transporte aéreo pelo menos com a União Europeia, é uma incógnita
como as duas principais aglomerações do país reagirão a essa abertura. Sem
dados para tal intuição, gostaria de ensaiar alguma análise em torno dos dois
modelos de desenvolvimento urbano das duas aglomerações, mais policêntrico o do
Norte e mais concentrado o de Lisboa. Talvez esteja aí a raiz desta estranha
inversão em desconfinamento.
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