sexta-feira, 14 de outubro de 2011

VERDADES

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade.
Porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
Carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Carlos Drumond de Andrade)

A “verdade” da crise europeia

Pasmo com tanta aculturação, tanto germanófilo, tanto calvinista! Já não é só a cacofonia produzida pela saga de inenarráveis “castigadores” de responsabilidade limitada que preenchem longas noites televisivas; outros, mais preparados ou menos irresponsáveis, também não resistem à “tentação do sangue” e apontam “corajosamente” o dedo aos “infractores”. Vejamos José Manuel Fernandes, p.e.: “Depois – mas por esta ordem: depois – devemos preocupar-nos com a Europa. Até porque a crise por que esta passa deriva, antes do mais, de quem, por incumprir as duras obrigações de uma união monetária, desestabilizou o jovem e frágil edifício do euro.”

Eis a “verdade”, como admitir coisa diferente? Ainda assim, arriscaria citar o que Helena Garrido tão bem sintetizou a partir do consenso adquirido entre a maioria dos que, com fundamento, dedicaram o seu tempo a estudar a matéria: “A crise da dívida no euro não é uma crise da Grécia, de Portugal, da Irlanda. É um problema no euro gerado pela desregulação financeira com epicentro nos Estados Unidos e agravado com a terapia de salvação de todos os bancos com políticas expansionistas aceleradas, a seguir ao colapso da Lehman Brothers, em 2008.” Podendo acrescentar ou não mais elementos clarificadores, de que são ilustração as posições defendidas por Paul De Grauwe (tipo “Porque é que, apesar das suas contas públicas serem melhores, os mercados financeiros desconfiam dos governos de Portugal e Espanha e confiam plenamente nos anglo-saxónicos?” ou “As políticas financeiras da zona euro têm sido demasiado influenciadas pelos bancos e pelas agências de rating. Está na hora de os decisores políticos europeus deixarem de ser escravos dessas instituições.”). Mas qual quê!!!

A “verdade” da competitividade nacional

Entretanto, chegou mais uma hora de verdade – não a dos auto-proclamados portadores da mesma enquanto “bem público”, réplicas quase perfeitas dos seguidores da consagrada “só a verdade é revolucionária”, nem a dos “filisteus do conhecimento” que mediaticamente pululam em pseudo-especializados comentários de larguíssimo espectro (vide, por exemplo, alguns amigos “convidados” de Mário Crespo), réplicas desviantes do “especialista” de Taleb (cujo problema é não saber o que não sabe) ou, até, do “intelectual” de Tom Wolfe (“pessoa bem informada num determinado campo que só se pronuncia noutros”).

A verdade que chegou foi, meramente, a da sempre inexorável irrupção da dura realidade. Porque, como atempadamente (“nos primórdios do euro”) Miguel Cadilhe avisara, “a nossa estrutura produtiva não estava em condições de aguentar uma moeda forte como o euro” e “íamos ter problemas de défice externo e de dívida externa”; o que Ferreira do Amaral, também ele um crítico de então, veio recordar ao enfatizar que “a dívida soberana é consequência de um desequilíbrio estrutural”.

Confirmamos agora que a reorientação da nossa especialização internacional continua largamente à espera, a despeito do irrealismo “tecnologizante” que ciclicamente nos tem vindo a assaltar (entre o salto para a 3ª Revolução Industrial dos anos 80 e o choque tecnológico com que Manuel Pinho conseguiu marcar o discurso político-económico dos últimos anos). Por este andar, ainda acabamos a dar razão definitiva a João Martins Pereira quando sustentava que “não vamos passar dos limites da indústria tradicional” ou que “não temos senão condições para continuar a ter uma indústria subalterna”…

A “verdade” da TSU


Acossados então por uma competitividade deficiente, uma nova mezinha salvadora veio ao de cima: a redução da TSU. Rapidamente, contudo, se veio a mostrar filha de pai incógnito. Já não sei se foi só em sonho que li e ouvi um sem-número de “machos” (incluindo o próprio ME) a apresentarem-se como promitentes autores do acto, mas há um facto de que tenho memória certa: o da imagem orgulhosa com que Eduardo Catroga salientava a impressão que causara (ele e a sua equipa negocial) junto de Paul Thomsen e acólitos. O que depois confirmou: “Quem apresentou à ‘troika’ a estratégia de consolidação fiscal fomos nós e apresentamos simulações até 2020. O prof. Abel Mateus ajudou nisto, assim como um técnico do Banco de Portugal. Para um país que não tem capacidade de desvalorizar a sua moeda, não há muitas soluções. Para isso, temos de aceitar uma pílula amarga.” Avisando: “O país tem de tomar opções, ou quer ou não quer. Se não quer, vamos demorar 10 anos a conseguir efeitos pela via das reformas estruturais.” E garantindo: “Temos muitas simulações e Passos Coelho está a estudar isso há meses.”

Estava assim encontrado o “ovo de Colombo”! Passado o crivo do “Mais Sociedade” e das luminárias da praça, Passos veio proclamar isso mesmo em debate eleitoral com um Sócrates atordoado pela força de tais certezas, afinal palpites. Pelo caminho, resta saudar o anti-experimentalismo de Paulo Portas e as afirmações, austeras mas “na mouche”, de Carlos Costa: “o crescimento das exportações tem de se materializar em aumento do emprego” e “qualquer vantagem que seja transferida para as empresas tem que se materializar em efectivo aumento de competitividade e não apenas num aumento de rendas” – o velho argumento da arbitragem competitividade-lucro com que muitos actuais cristãos-novos da “desvalorização fiscal” tinham combatido a desvalorização cambial de outras épocas e ajudado a conduzir-nos pelos ilusórios labirintos do enriquecimento fácil.

Suspeito que, a partir de ontem à noite, não se falará mais nisso, nem sequer se procurará saber quão significativa teria de ser a “descida significativa da TSU” exigida pelo FMI e pela Troika…

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