segunda-feira, 31 de outubro de 2011

SHOULD KNOW BETTER

Acaba de dar à estampa um livro lamentável sob vários pontos de vista: “Como os políticos enriquecem em Portugal – os casos de 15 ex-governantes que multiplicaram os rendimentos depois de saírem do Governo”, da autoria do jornalista António Sérgio Azenha e prefaciado por Henrique Neto (!). Trata-se, a meu ver, de um excelente contributo para alimentar as principais doenças de que padece a sociedade portuguesa, nomeadamente as tão bem retratadas por José Gil em “Portugal, Hoje: O Medo de Existir” (2004) e, em particular, no seu capítulo “Queixume, Ressentimento, Invejas”. Como a propósito referiu António Guerreiro: “Portugal é uma sociedade normalizada, onde o horizonte dos possíveis é extremamente pobre e onde a prática democrática encontra resistências ao aprofundamento.”

Não que não haja cidadãos que passaram pela política e que tenham enriquecido. Não que esse enriquecimento não possa ter estado associado a práticas e actividades menos próprias ou menos lícitas. Não que os números e factos apresentados não possam corresponder com exactidão a informação real e publicamente disponível. Não que o rigor e a transparência não devam ser exigíveis em acréscimo a quem desempenhe ou tenha desempenhado funções públicas.

Mas não, também, a confundir “alhos com bugalhos”, como seguidamente ilustro. O título escolhido pretende apontar para um contributo dirigido ao esclarecimento ou acaba, sobretudo, por apelar ao escândalo e ao “voyeurismo”? Não haverá uma diferença entre subir de rendimento (viver melhor) e enriquecer? Nesta perspectiva, falar em enriquecimento não corresponderá necessariamente a insinuar algo de outra natureza? Algumas das pessoas analisadas, assim como outras que ficam implicitamente referenciadas, não mereceriam análises minimamente mais detalhadas sobre quem são e de onde vieram, que competências possuíam ou que resultados apresentaram, até para ajudar a “separar o trigo do joio”?

Além de que se justificaria, numa sociedade marcada por claros indícios de corrupção e a viver uma crise grave (também cívica e moral), um pouco mais de exigência e de escalpelização do tema. Os políticos são todos, igualmente, “feios, porcos e maus”? E são os restantes cidadãos, entre empresários e contribuintes, exemplos comportamentais aos seus níveis de envolvimento? E onde radicam as grandes razões do problema que não numa esfera que ultrapassa largamente a dimensão estritamente pessoal? E porque se não refere como central o vergonhoso tratamento que continuadamente tem sido concedido à questão do financiamento partidário? E quais não foram os mais altos responsáveis que com tudo isto conviveram “distraidamente” ao longo dos anos? E porque se insiste, afinal, em empurrar o estado da democracia portuguesa para um grau abaixo de zero?

Há assuntos que merecem análise e o que ao tema deste livro subjaz é concerteza um deles. Mas não sem que objectividade e seriedade sobrelevem sobre fins comerciais e efeitos mediáticos ou, mesmo, sobre invejas, frustrações, ódios e vinganças. Não foi bonito ver Mário Crespo a salivar enquanto entrevistava o autor…

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