sábado, 29 de outubro de 2022

A TAP FOI O CASO ELUCIDATIVO DO MÊS!


(Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt)

Outubro quase a chegar ao fim. Um mês que em termos políticos internos, e do meu ponto de vista, ficou essencialmente marcado pelo definitivo desmascaramento do primeiro-ministro em relação ao vergonhoso caso TAP (as rábulas de Ricardo Araújo Pereira aí estiveram para o demonstrar de um modo profundamente achincalhante). Repetir-me-ei se disser que, pessoalmente, não conseguiria mais encarar os meus concidadãos se tivesse por aí andado a berrar aos quatro ventos em nome de uma política e do seu racional patriótico para acabar, alguns anos depois, a engolir o proclamado com a mesmíssima “cara-de-pau” e sem um esboço de explicação plausível ou qualquer confissão sincera de erro ou omissão.

 

Já Pedro Nuno Santos (PNS), por um lado por ser o ministro da tutela e também pela sua mais frontal forma de estar, não se eximiu a deslocar-se à Assembleia da República para considerações e esclarecimentos sobre a matéria. E lá o procurou fazer como melhor soube e pôde, uma vez que ao desgastado tema pouco restará que possa ser justificável aos olhos da opinião pública nacional (com a agravante, em que não insistirei, da incompreensível gestão centralizada das rotas e dos inaceitáveis vícios de gestão que vão sendo conhecidos à medida que a comunicação social cava e as minhocas ficam à vista). PNS confessou a necessidade de integrar a TAP num grande grupo de aviação (contanto exista algum que a queira...), embora recusando sem mais a ideia de cambalhota, e confessou também que o seu preço de venda ficará abaixo da injeção pública recentemente havida (das outras a história deixou de rezar...), tentando simultaneamente contrabalançar tais fracassos com dois apontamentos em torno dos sacrifícios entretanto feitos pela companhia e que evitaram mais injeções de capital (mas não foi o que se ganhou, sublinhe-se, foi sim o que se deixou de perder!) e de uma insinuante acusação à anterior administração (aquela em que pontuou David Neeleman) a respeito dos valores de compra de aviões então ocorrida (o correspondente envio de uma suspeita para o Ministério Público não pode deixar de querer pôr em evidência a seriedade atual por contraponto à passada num domínio que alguns sublinham constituir um mero fait-divers para desvio de atenções e culpas).

 

No que me toca, e porque do que vou vendo me parece que PNS é o mais carismático e corajoso dos aspirantes à sucessão de Costa no Partido Socialista, custa-me sempre vê-lo embrulhado em trapalhadas como esta (a anterior está ainda largamente por esclarecer e só virá à tona se e quando as comadres se zangarem...), mas já me habituei à ideia de que me terei de conformar com esse facto aparentemente inultrapassável de a sua postura, algures entre a propensão para assumir riscos (frequentemente desnecessários, convenhamos...) e alguma insuficiência na dose de maturação dos assuntos (com consequências num tratamento irrefletido dos mesmos), não augurar grande futuro às suas ambições de vir um dia a ascender ao mais alto nível do poder.




sexta-feira, 28 de outubro de 2022

XIÍSMO À POTÊNCIA MÁXIMA

(José Manuel Puebla, http://www.abc.es) 

Foi há quase duas semanas atrás que aqui vim abordar, de modo necessariamente aligeirado, as dúvidas em torno do que iria ser o XX Congresso do Partido Comunista Chinês. Terminado o mesmo, e excluindo alguns pormenores talvez não negligenciáveis, o saldo pode fazer-se conforme reza o falante cartune acima ― made in China, com grande escuridão quando se olha de longe e com inusitada repressão quando se sente de perto. Ou, dito de uma forma diferente e com recurso à capa do “Der Spiegel”, tudo se passou em moldes definíveis nos termos de um “seja feita a vossa [de Xi] vontade” (com o incidente da purga do ex-presidente Hu Jintao a ser usado como simbólico da implacável rotura a operar).


Assim, e em relação às hipóteses que aqui aventei enquanto possíveis elementos centrais do Congresso, o que quase exclusivamente foi privilegiado passou pela consagração de Xi Jinping como todo-poderoso (party of one, escreveu a “Foreign Affairs”) e, na respetiva sequência, pela inequívoca afirmação de uma ordem social interna ferreamente controlada (nela se incluindo a questão da “reunificação” com Taiwan como ponto de honra nada descartável). No demais, apenas (e já não será pouco) a insinuante presença (por vezes expressa, outras vezes implícita) de um combate por uma “nova ordem internacional” alternativa e diversa e, também ela, fortemente marcada pela moldagem de um made in China (the world according to Xi Jinping, escreveu ainda a “Foreign Affairs”). O resto ficará para tratar em sedes mais internas, da economia a uma prioritária supremacia tecnológica, das questões ambientais aos conflitos comerciais, dos grandes dossiês regionais e internacionais à guerra e aos laços com a Rússia.


(cartoons de James Ferguson, http://www.ft.com e https://www.project-syndicate.org)

(Jaume Capdevilla, Kap, http://www.lavanguardia.es)

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

UMA JORNADA LUSITANA PARA A HISTÓRIA

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt

Grande semana europeia para as equipas portuguesas na Champions! Na Terça, o Benfica “passou a ferro” com alguma distinção a prestigiada Vecchia Signora (Juventus). Ontem, o FC Porto vingou-se plenamente em Bruges do desaire caseiro de há semanas e o Sporting empatou com sofrido mérito no “Tottenham Hotspurs Stadium”. Moral da história: dois clubes nacionais já apurados para os Oitavos (o FC Porto também beneficiando do empate do irritante Atlético de Madrid ― pelo estilo de jogo, mais matreiro do que estruturado, à imagem do seu cada vez mais insuportável treinador Diego Simeone, assim como pela sorte que geralmente o acompanha, ademais frequentemente somada de uma tendência para favorecimentos dos árbitros ― no seu “Metropolitano Stadium” frente ao Bayer Leverkusen, após um final dramático em que Carrasco falhou um penalti assinalado pelo VAR já depois de o árbitro ter dado a partida por encerrada) e o terceiro à distância de um empate em Alvalade contra o Eintracht de Frankfurt, ou seja, a melhor prestação de sempre (incluindo a dimensão financeira) na prova máxima de clubes do mundo.

 

Dito isto, o mais valorizado pelos desportistas que ainda restam, o meu prazer maior esteve obviamente na presença no “Jan Breydel Stadion” de Bruges ― já tinha saudades de uma epopeia destas ao vivo, quase ao nível das grandes vitórias europeias de tempos distantes (ou nem tanto, dependerá da perspetiva)! ―, na boa companhia de familiares e amigos e desta vez assistindo ao jogo na sempre aventureira box dos visitantes. O que mais deve ser assinalado é a exibição categórica e decisiva de Diogo Costa (defendendo dois penaltis, entre outros momentos de segurança perfeita na baliza), seguida do controlo de meio-campo garantido por uma tripla encabeçada por Otávio (que finalmente começa a registar mais disponibilidade individual e coletiva, i.e., mais regularidade do que lampejos) e por dois atacantes de especiais caraterísticas (Taremi, mais pela classe, visão e entrega que patenteia do que pela finalização que também vai conseguindo ter, e Galeno, pela capacidade física e técnica em corrida com que desequilibra as defesas adversárias). Depois há Sérgio Conceição ― goste-se ou não, e eu tendo quase sempre a desgostar, dos seus excessos no banco ―, a quem temos de reconhecer uma invulgar habilidade para fazer omeletas suculentas com muito poucos ovos. E, de facto, a equipa está a atravessar um excelente momento de forma, como aliás comprovou no Dragão contra os “encarnados” (pese o dito pragmatismo do engenheiro mecânico alemão que os comanda) enquanto jogou em onze contra onze e mesmo em largas partes do tempo (mais de uma hora) em que esteve em desequilíbrio (com a ajuda de João Pinheiro, que fez vista grossa a uma expulsão de Bah pouco antes do intervalo) ― mas isso são contas de um outro rosário, interno e a resolver cá no retângulo quando o Mundial terminar.

(cartoon de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)


REGRESSANDO AO TEMA DA DESIGUALDADE (NO INTERIOR DOS PAÍSES E MUNDIAL)

 


(O tema da desigualdade é um domínio recorrente de reflexão neste blogue. Assim acontece porque é um tema central do nosso tempo, porque polariza o pensamento e a ação políticos e essencialmente porque diferencia num contexto em que as ideologias e os valores parecem ter fugido para parte incerta. Nos últimos tempos, com informação cada vez mais robusta e maior cobertura mundial, têm emergido novos ângulos de reflexão, particularmente quando confrontamos a evolução da desigualdade país a país, com relevo para as economias avançadas do Ocidente, com a evolução da desigualdade a nível mundial, a que é estudada com cada indivíduo e o seu respetivo rendimento a serem considerados independentemente do país a que pertencem. Há hoje um grupo de economistas de grande robustez teórica e empírica a ocupar-se deste assunto, com grande parte desse trabalho a ser vertido para o World Inequality Report, veja-se a sua edição de 2022. Como sabem, para além desse referencial de conforto, sigo de perto a reflexão de Branko Milanovic, um dos pioneiros na matéria, ainda nos seus tempos de economista do Banco Mundial).

O que é interessante nos últimos tempos é o que resulta do confronto acima mencionado, entre a desigualdade por país e a desigualdade considerada a nível mundial, depois de à paridade dos poderes de compra ser possível a comparação de rendimentos.

No plano da desigualdade por país, já por repetidas vezes neste blogue foi sublinhada a deriva inequalitária pela qual praticamente todas as economias avançadas do Ocidente estão a passar. O fenómeno tem uma explicação multi-argumento, alguns dos quais são muito conhecidos. Assim, apesar do progresso técnico se apresentar relativamente anémico em termos de produtividade aparente do trabalho (por hora trabalhada ou por posto de trabalho), ainda assim a evolução da produtividade tem andado francamente acima da evolução salarial. Este facto é particularmente evidente na economia americana. A um segundo nível, o processo de concentração empresarial em curso tende a reforçar as condições de monopólio na procura de trabalho, influenciando o rebaixamento de salários. Um terceiro nível aponta para a tentação das economias zombie, descida de impostos para os mais ricos, e com isso agravamento óbvio da desigualdade. Um quarto nível é a quebra pronunciada dos níveis de sindicalização, fragilizando as forças de proteção do salário. E se fossem precisas mais condições favoráveis à desigualdade o regresso da inflação vem regra geral acompanhado da degradação da repartição entre lucros e salários, com os primeiros a repercutir mais facilmente as tendências inflacionistas. As consequências desta deriva são devastadoras no plano político, criando uma multidão de deserdados que têm vindo a baralhar os padrões eleitorais de vários países, presas fáceis de diferentes cantos de sereia, maquiavelicamente orquestrados a partir das redes sociais.

Mas o que é curioso, e até de certo modo intrigante, é este agravamento da desigualdade por país coexistir com uma profunda mudança de tendências na distribuição do rendimento à escala mundial. Convém não esquecer que em matéria de desigualdade mundial o declínio demográfico do ocidente se confronta com a ainda viva dinâmica demográfica de outros continentes, como por exemplo a Ásia. A taxa de fertilidade tem descido por todo o mundo em que o desenvolvimento económico não é uma miragem. Mas ainda assim, como essa descida se processa em massas demográficas muito elevadas, o crescimento demográfico coexiste durante largo tempo com a descida da taxa de fertilidade.

O gráfico acima reproduzido ilustra que as curvas da distribuição do rendimento a nível mundial construídas para três diferentes momentos nesse período de 30 anos se alteraram rapidamente abandonando o perfil da chamada “curva elefante” para se transformarem em curvas em U ou sob a forma de sino. A evolução temporal destas curvas mostra que uma “classe média” mundial (por mais imperfeita que seja a classificação em termos de grupos de rendimento) tem vindo a emergir. Sabemos que ela não reside fundamentalmente no Ocidente, mas lá para as bandas da Ásia e do Pacífico.

Mas o mais curioso é a revelação de que, apesar de todas as atrocidades atribuídas à globalização e de todos os juízos críticos e desejos de reforma do sistema, o crescimento económico mundial tem sido “pró-pobres”. Ou seja, segundo os dados da distribuição mundial do rendimento, os grupos estatísticos com rendimentos mais baixos têm visto o seu rendimento aumentar percentualmente mais do que os mais ricos. Por esta evidência, compreende-se também a relevância que a globalização tem assumido na redução da pobreza absoluta a nível mundial. Bem sei que temos sempre que agilizar o cálculo de indicadores com ou sem a China, mas as evidências continuam válidas mesmo expurgando os dados do enviesamento demográfico chinês.

Claro que existem por vezes problemas no cálculo e utilização de paridades de poder de compra entre economias com padrões culturais de consumo muito diferentes, mas são os dados que temos e a progressão dos métodos de cálculo e de montagem dos cabazes tem sido notável.

O que nos pode levar a uma pergunta inocente mas ao mesmo tempo sugestiva. Muito recentemente, entre os detratores da globalização há mudanças no sistema de atores. Para lá dos grupos que animavam as conhecidas e violentas manifestações anti-globalização, hoje, sobretudo entre os Republicanos americanos e outra gente afluente da Europa, têm prosperado os chamados detratores ricos da globalização, a coberto de um nacionalismo económico de cariz populista. A pergunta inevitável é esta: terá esta mudança nos protagonistas da crítica feroz à globalização algo que ver com a surpreendente característica do crescimento económico mundial dos últimos 30 anos ter sido “pró-pobres”?

Perguntar não ofende e isto não significa de todo que o crescimento mundial não possa ainda reforçar essa característica …

 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

ABRE-SE O MELÃO SUNAK...

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

Como não deixar aqui registada a esperada relevância de uma chegada ao retardador de Rishi Sunak a Downing Street? Prometendo to fix mistakes, o jovem e bem mais credível primeiro-ministro já em funções não deixa por isso de estar confrontado com a tremenda dimensão de problemas que afetam o país (o “Financial Times” de hoje fala de uma profound crisis), designadamente na sequência (continuo a pensá-lo, aliás muito bem respaldado em análises coerentes e aprofundadas sobre a matéria) da estúpida decisão de 2017 relativa ao Brexit.

 

A hora teria sido certamente a propícia a uma justificada convocação de eleições gerais, mas tal lógica de normalidade não reina naquele reino e Sunak terá assim a sua hipótese de inverter o péssimo estado em que se encontra a recetividade dos Tories se vier a ser capaz de traduzir politicamente a sua moderação e os seus conhecimentos na área económico-financeira ― há quem o encare como uma nova e indiscutível luz mas também continuam a existir os céticos e os críticos que preferencialmente apostam num rápido desgaste de Sunak. Um tema pouco dado a grandes apostas, largamente tributário de desenvolvimentos a ver.


(Steve Brighty, https://www.thesun.co.uk)

(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

terça-feira, 25 de outubro de 2022

REINO UNIDO: O FIM DO PALHAÇO RICO E DO PALHAÇO POBRE?

(Pierre Kroll, https://www.lesoir.be) 

Mesmo tendo em conta que não terá sido pelas melhores razões que Boris Johnson abdicou de concorrer a uma nova liderança do Partido Conservador  e acreditem que se ele fosse submetido a um escrutínio dos militantes de base, estes visivelmente fascinados pela imbecilizante força dos tweets iriam levá-lo a conseguir a dita ―, o certo é que o homem desistiu de se abalançar ao cargo (ou foi convincentemente instado a tal, quando já as más línguas garantiam que o próprio rei recorria ao experiente espírito materno para manifestar a sua preocupação e solicitar apoio) e assim deixou o terreno escancarado ao bem mais normal avanço de Rishi Sunak, que acabou entretanto por ser ontem proclamado vencedor (de notar a evidência de como o temor por eleições fez acelerar a capacidade de escolha dos Tories, em setembro lentos e maduramente reflexivos até se inclinarem estupidamente para Truss e agora lestos e altamente eficientes na sensata indicação de Sunak ― eis mais uma comprovação de quão dominante é a luta pela sobrevivência no contexto dos partidos tradicionais e de quão afrodisíaco por lá continua a ser o exercício do poder).

 

Já aqui se disse praticamente quase tudo acerca do inconcebível estado a que o Reino Unido chegou. Em termos económicos, estaremos conversados se recordarmos os impactos que vêm sendo produzidos na sequência do amaldiçoado Brexit e seus múltiplos repiques subsequentes (vejam-se os três gráficos abaixo), tudo tendo levado a que a “The Economist” desta semana construisse uma capa centrada no que ironicamente designa por “Britaly”, um trocadilho que pretende equiparar de modo descredibilizante a situação da Grã-Bretanha à italiana.



No plano político, e depois da turbulenta e triste passagem de Boris, aconteceu a referida candidatura e entronização da incompetente Liz Truss. Dela faltará apenas deixar o já habitual registo para memória futura das notícias desses dias extraordinários em que a senhora culminou até ao limite do ridículo os seus 44 dias de glória em Downing Street com umas declarações de autocaracterizarão iniciadas da parte da manhã com uma proclamação de combatente incansável e terminadas da parte da tarde com os braços em baixo a sinalizar uma resignada desistência. Ficou o “prémio de consolação” que não escapou ao traço dos cartunistas: o de ter sido no seu desastroso consulado que foi enterrada a rainha Isabel II, o único facto destes dias que ela não pôde verdadeiramente anular... Pior era impossível, paz à sua alma!


(Pierre Kroll, https://www.lesoir.be)

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

(Peter Brookes, http://www.thetimes.co.uk)

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

ECOS DA GUERRA COMERCIAL EUA-CHINA

 


(Enquanto assistimos à liturgia da entronização de Xi Jinping na presidência do Partido Comunista Chinês sob o lema da lealdade ao líder, se vai ouvindo o fabuloso podcast do Economist, The Prince, sobre o líder chinês e nos interrogamos sobre o real significado da saída forçada de Hu Jintao, inicialmente sentado à esquerda de Jinping, talvez valha a pena tentar atualizar os contornos da guerra comercial entre os EUA e a China. Esta guerra foi iniciada por Trump e continuada na administração Biden numa cada vez mais crispada situação internacional. O Peterson International Institute of Economics, PIIE, acaba de dedicar uma vasta investigação empírica ao tema procurando quantificar os contornos e os efeitos do conflito, com autoria de Chad Brown. Entretanto, a economia chinesa cresce mas a ritmos ainda bastante inferiores aos objetivos fixados pela burocracia do PC chinês ....)

O universo dos analistas conhecedores da liturgia e da burocracia chinesa tem ocupado a imprensa internacional sobre como devemos interpretar cada pormenor da grande encenação, num modelo de exercício do poder que tem horror à descentralização, entendida como geradora da corrupção e do caos, e pelos vistos também às mulheres, que acabam de ser varridas dos postos chave do poder. O acidente visual da saída de Jintao, cujo período de governação acabara de ser violentamente criticado por Jinping na sua alocução (aquele olhar de Jintao para Jinping é um monumento simbólico), permanece interrogado, sugerindo que tais analistas não sabem o suficiente. Já li de tudo. Entre o extremo de se tratar da descredibilização para o mundo ver de uma gestão caída em desgraça até à necessidade de assegurar uma votação unânime várias hipóteses foram colocadas. A mais surpreendente é a que surgiu em alguns jornais sobre o significado da cor do cabelo das personagens do regime, em que as brancas e o cabelo grisalho reveladas são indicadores de caída em desgraça e de perda de poder. Olhando para o auditório percebe-se que o restaurador OLEX lá do sítio deve vender que se farta …

Mas voltemos à guerra comercial, coisa de não somenos importância para o estado da economia mundial, já de si abalada primeiro pelo surto pandémico, depois pela invasão russa da Ucrânia.

Quando Trump “decretou”a guerra comercial com a China fê-lo com propósitos claros de reforço do seu discurso populista do América sempre primeiro e num contexto em que a imbricação da economia americana com a chinesa era significativa, seja do ponto de vista in (importações chinesas), seja do ponto de vista out (investimento direto estrangeiro americano na China e deslocalização da produção para essas paragens).

A pesquisa de Chad Brown para o PIIE mostra que o belicismo comercial de Trump foi talvez o único ponto de continuidade entre as duas administrações. Biden manteve praticamente todos os direitos aduaneiros lançados por Trump e a situação internacional que sobreveio entretanto (a crise de Taiwan associada à visita de Pelosi e a própria guerra na Ucrânia) acabou por prolongar por vias e argumentos diversos a guerra comercial de Trump.

É neste contexto aparentemente estranho de uma administração democrata acompanhar o belicismo de Trump que a pesquisa do PIIE se interroga sobre os reais efeitos dessa nova abordagem. Estão as duas grandes economias em rota de afastamento total?

As evidências trazidas pela pesquisa fornecem um quadro global de redução da interdependência entre as duas economias, como seria de prever, mas com matizes. Ou seja, o recuo de importância das importações chinesas na economia americana é visível nos números globais, mas em contrapartida emerge um conjunto de importações cujo peso na economia americana se tem acentuado. Emerge assim uma espécie de guerra comercial seletiva, sob uma tendência geral de afastamento entre as duas economias.

Concretizemos.

Do ponto de vista global, quando se compara as importações americanas com origem na China com as que têm origem no resto do mundo, a situação é claramente contrastada. Dificuldade notória das importações provenientes da China atingirem valores anteriores ao início da guerra comercial e valores claramente acima desse nível por parte das importações provenientes do resto do mundo. A China é assim responsável por 18% do total das importações americanas, representando uma descida de quatro pontos percentuais face à situação antes da guerra comercial.

As quedas observadas são seletivas e estão fortemente correlacionadas com a existência ou não de direitos aduaneiros e no caso da sua existência com a sua magnitude. O estudo apresenta evidência de que os produtos não atingidos pela guerra dos direitos aduaneiros cresceram cerca de 50% face ao início das hostilidades comerciais. Foi o caso dos produtos cuja procura aumentou com os confinamentos pandémicos – computadores portáveis, monitores, telefones portáteis, consolas de jogos e brinquedos. Segundo os dados do estudo, 92% das importações de computadores portáteis e de monitores tem origem na China. Essa percentagem desce para 74% nos telemóveis, com o Vietname já a representar 22% dessas importações de telemóveis. O que vem ao encontro da ideia de que o aparente êxito comercial do Vietname está na sua capacidade de se intrometer nesta guerra comercial tirando partido dos obstáculos colocados à China. Para as consolas de jogos a China representa ainda 90% das importações americanas.

Em contrapartida, as importações mais fustigadas com direitos de 25% revelam uma queda considerável, como é o caso do hardware de TIC, os bens de consumo eletrónicos e os semicondutores, onde se têm observado fenómenos intensivos de escassez de oferta, já que a transição da origem chinesa para a de outros países é lenta.

Não é por isso consistente a ideia de que um fosso total e absoluto está a emergir entre a China e os EUA na sequência do belicismo de Trump, continuado por Biden. A guerra comercial foi seletiva e estaremos provavelmente numa longa transição em que novas fontes de importações vão sendo procuradas e estratégias de outros países emergentes vão produzindo efeitos. O que parece evidente é que o apelo populista de Trump ao ressurgimento da velha indústria americana está muito longe de produzir os efeitos anunciados. O que não é surpresa nenhuma. O grau de imbricação de economias e das cadeias de valores atingido no passado não se ultrapassa por decreto ou slogan mais ou menos populista. Estamos por isso no seio de possíveis mudanças no quadro mais global da organização do comércio internacional.

Por estes dias, sobretudo na sequência de algumas publicações da cronista do Financial Times Rana Foroohar, que acaba de publicar o seu HOMECOMING, e muito na senda dos interesses do mundo ocidental apostado em robustecer a sua posição nas cadeias de valor globais, tem-se falado muito na organização do comércio mundial por grandes blocos. A aposta é compreensível mas seria ingénuo pensar que ela vai gerar imediatamente uma adesão por todo o mundo. A força da influência ocidental já não é a de outrora e uma espécie de Consenso de Washington ao contrário seria em meu entender inviável. Muito dificilmente, entendo eu, os países que viram a pobreza descer e as suas classes médias também se fortalecerem por via do seu lugar na globalização aceitarão a inversão das coisas. A hipótese de um modelo de globalização truncada com parte do mundo ocidental afastado da sua dinâmica parece-me muito arriscada e acho que Branko Milanovic tem razão quando associa esse modelo a um desajeitado e não consensual regresso ao mercantilismo (por blocos é certo, mas mesmo assim mercantilismo). O fortalecimento da União Europeia nas cadeias de valor globais para aumentar a sua resiliência nas crises do tipo da que vivemos por estes dias parece um objetivo compreensível, mas a sua transição para um mundo de fragmentação da economia global seria bastante penosa e penalizando sobretudo economias pequenas e muito abertas como a nossa. Mas isso não significa de todo que essa tentação não possa pairar por aí.